Laços que Crescem com o Tempo

728 Words
O novo semestre começou com um ar diferente. O calor do verão já dava lugar a dias mais frescos, e a movimentação nos corredores da faculdade voltava a ganhar força. Kelly e Otávio estavam mais maduros, ainda mais conectados depois do intenso final de semana que haviam vivido. Mas agora era hora de retomar o foco — e, como sempre, eles estavam prontos. As disciplinas daquele semestre eram ainda mais exigentes. A carga teórica aumentava, os professores cobravam mais leitura, interpretação, argumentação. Vanessa, a professora de Direito Constitucional, já havia passado as primeiras orientações para os seminários e alertado: “Este semestre, a dedicação precisa ser dobrada.” E tanto Kelly quanto Otávio já estavam com os cronogramas montados, os cadernos organizados, e o grupo de estudos formado. O grupo de amigos que tinham construído no primeiro semestre se mantinha firme. Clara, com seu jeito prático e direto, era excelente em resumos. João Pedro, o mais introspectivo, era um verdadeiro gênio das leis e sempre tinha alguma referência de doutrina para acrescentar. E Isadora, animada e expressiva, tornava qualquer trabalho em grupo mais leve com suas tiradas espirituosas. Os encontros para os trabalhos continuavam acontecendo sempre na biblioteca da faculdade, um lugar onde podiam conversar, estudar e discutir ideias sem abrir espaço para intimidades que ainda não estavam dispostos a dividir. Kelly e Otávio eram discretos quanto à vida pessoal. Ninguém do grupo havia ido à casa de ninguém — uma espécie de barreira silenciosa que todos pareciam respeitar sem questionar. Durante a semana, a rotina era intensa. Acordar cedo, pegar ônibus lotado, passar horas assistindo aulas densas, anotar tudo, fazer pesquisas, escrever textos... E ainda encontrar tempo para estudar para as avaliações mensais. O tempo parecia sempre curto, mas eles já estavam acostumados. Ainda assim, no meio do caos, eles encontravam momentos para respirar. Aos finais de semana, o grupo combinava de sair. Às vezes um barzinho no centro, outras vezes uma hamburgueria que estava em alta, ou mesmo uma cafeteria charmosa que Clara havia descoberto. Nessas saídas, as risadas eram garantidas. Isadora sempre chegava com alguma história bizarra de aplicativo de relacionamento. João Pedro ficava vermelho com as provocações, enquanto Otávio e Kelly, lado a lado, trocavam olhares cúmplices entre um gole de cerveja e uma mordida num sanduíche. — Gente, vocês notaram que a Vanessa tem um jeito de olhar que parece que vai devorar nossa alma se não respondermos certo? — Isadora comentou certa noite, fazendo todos caírem na gargalhada. — Não é só o jeito de olhar — completou Otávio, sorrindo. — É o silêncio que vem depois. É um teste psicológico. — Por isso que eu fico com os olhos colados no caderno. Vai que ela me escolhe pra ser sacrificada — brincou Kelly, arrancando mais risadas. Esses encontros, ainda que leves, estreitavam os laços. Eles estavam se tornando mais que colegas de turma. Estavam se tornando um círculo de confiança. Mas, mesmo com a crescente afinidade, nenhum deles nunca questionou o fato de não frequentarem a casa um do outro. Era como se todos entendessem, intuitivamente, que havia limites que não precisavam ser ultrapassados. Para Kelly e Otávio, essa divisão era importante. O apartamento deles era um refúgio só deles, onde podiam se despir de todas as pressões da vida acadêmica e viver a i********e de um casal apaixonado. E fora dali, mantinham o profissionalismo, a leveza, e a amizade com os outros. A cada nova semana, os trabalhos se acumulavam. Já havia uma audiência simulada sendo preparada, debates jurídicos sendo ensaiados, e a ansiedade pelas notas sempre rondava o grupo. Ainda assim, entre uma leitura de jurisprudência e outra, havia espaço para um chocolate quente na lanchonete da esquina, para um filme visto juntos no cinema do shopping, ou para longas conversas no ponto de ônibus. Kelly continuava sendo destaque. Brilhava nas apresentações, dominava as referências teóricas, tinha uma oratória segura. Otávio, sempre observando, sentia o orgulho crescer em silêncio. Ele não precisava falar. Seus olhos diziam tudo. Era admiração pura, respeito profundo, amor sem medida. E assim os dias iam passando, entre o peso dos livros e a leveza dos encontros com os amigos. O semestre apenas começava, mas uma coisa era certa: o vínculo que estavam construindo ali ia muito além do Direito. Era sobre parceria, crescimento e respeito mútuo — dentro e fora da sala de aula.
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