A Faísca do Ciúme

775 Words
Otávio sempre foi seguro do amor que Kelly sentia por ele. A conexão entre eles era intensa, sólida, construída com base na admiração mútua, no respeito e numa química que incendiava qualquer quarto que dividissem. Mas ultimamente, algo estava provocando rachaduras sutis nessa segurança. O garoto da outra turma, Rafael — nome que ele acabou descobrindo ao ouvi-lo ser chamado nos corredores — vinha se fazendo presente demais. Não no sentido de convivência, mas no modo como observava Kelly. Era sutil. Discreto até demais. Mas Otávio percebia. O olhar fixo dele enquanto Kelly falava com paixão sobre um artigo constitucional. O sorriso torto quando ela passava pelos corredores. A forma como, nos debates interturmas, ele sempre tentava ficar no mesmo grupo, mesmo quando não fazia parte oficialmente. Otávio começou a reparar em tudo. No modo como Rafael se inclinava para ouvir melhor, como tentava puxar conversas triviais com Kelly depois das apresentações. Como elogiava cada argumento dela com um brilho nos olhos que ele conhecia bem — o mesmo brilho que ele próprio tinha quando se apaixonou por ela. Era uma presença incômoda, insistente, que embora nunca tivesse sido desrespeitosa, atravessava a linha do aceitável para alguém comprometido. Otávio começou a se fechar. Estava mais sério nas reuniões do grupo. Respondia com menos entusiasmo, e nos almoços com os amigos, raramente participava das piadas. Kelly notou. Perguntou algumas vezes o que estava acontecendo, mas ele desviava com um “só cansaço mesmo, amor”. Mas por dentro… o sangue fervia. Cada vez que Rafael aparecia por perto, o maxilar de Otávio se contraía. Ele mantinha os punhos cerrados no bolso. Fantasiava cenas em que tirava satisfações, que empurrava o garoto contra a parede e deixava claro que Kelly tinha dono. Mas logo afastava esses pensamentos. Ele não era esse tipo de homem. Ou era? A raiva que sentia por dentro o deixava confuso. Ele confiava em Kelly. Sabia do caráter dela. Sabia o quanto ela o amava. Mas o problema não era ela — era o outro. Era o jeito como Rafael a desejava com os olhos. Era o atrevimento silencioso de um olhar que dizia tudo o que a boca não ousava pronunciar. Até que um dia, após uma apresentação em grupo, Rafael se aproximou mais uma vez. Kelly tinha acabado de discursar brilhantemente sobre o controle de constitucionalidade. Ao final, os aplausos foram inevitáveis. Rafael se aproximou com aquele sorriso calculado e disse: — Kelly, sua fala foi impressionante. Sério… você tem um brilho que hipnotiza. Otávio ouviu. A poucos passos de distância. O elogio era ambíguo. Tinha uma camada de cortesia, sim. Mas também tinha veneno. Kelly, educada como sempre, sorriu de leve e respondeu com simplicidade: — Obrigada. Foi um trabalho de grupo. Todo mundo se esforçou. Mas Otávio não conseguiu disfarçar. Aproximou-se, ficando ao lado de Kelly. Colocou a mão em sua cintura, firme, e disse com um sorriso que escondia os dentes cerrados: — E que bom que ela é minha, né? Rafael apenas riu, sem graça, e deu dois passos para trás. Mas o recado estava dado. Kelly olhou para Otávio com o cenho levemente franzido, surpresa com a reação. — Amor, tá tudo bem? — perguntou ela em voz baixa, afastando-se um pouco para olhá-lo nos olhos. Otávio suspirou. Queria mentir. Queria dizer que sim. Mas aquele momento o estava corroendo por dentro. — Aquele cara vive te olhando como se você fosse um troféu. E eu tô tentando não me incomodar, de verdade. Mas ele não disfarça. E eu não consigo ficar de braços cruzados. Kelly suspirou e segurou as mãos dele. — Otávio… você sabe que eu só tenho olhos pra você, né? Nem reparo nesses olhares. Sério mesmo. Ele assentiu, com um nó preso na garganta. O medo de parecer inseguro lutava com a raiva de ter sua mulher desejada por outro bem ali, tão descaradamente. — Eu sei, meu amor. O problema nem é você… é ele. Só… só me promete uma coisa? — Qualquer coisa — respondeu Kelly, acariciando o rosto dele. — Se ele passar dos limites, você me conta. Eu não quero perder a cabeça por um i****a desses, mas também não vou deixar ninguém passar por cima do que é meu. Kelly sorriu, puxou Otávio para perto e sussurrou no ouvido dele: — Você já é o único que tem tudo de mim. E sempre vai ser. Ele a abraçou com força, respirando fundo, tentando aliviar aquele nó no peito. Mas no fundo, sabia: aquele garoto não ia desistir fácil. E o ciúme de Otávio, mesmo que silencioso, já tinha se tornado uma brasa prestes a incendiar tudo.
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