Mesmo com as tensões internas e a pressão dos amigos, Kelly seguia sendo carinhosa, atenciosa, como sempre. Otávio era seu ponto de paz, sua casa, seu amor.
Naquela sexta-feira à noite, ela teve estagio depois da aula e otavio a buscou Estava mais sério, mas quando a viu saindo do portão da faculdade com o cabelo preso num coque e aquele sorriso leve de cansaço, o coração amoleceu.
— E aí, minha linda — disse ele, abrindo a porta do carro. — Tô te levando pra jantar. Só nós dois, nada de marmita hoje, tá?
Kelly sorriu, surpresa e animada.
— Amor! Ai, sério? Você é o melhor namorado do mundo, sabia?
Ele deu um sorrisinho discreto, ligando o carro.
— Não sei se sou o melhor, mas tô tentando.
O jantar foi leve e divertido. Ela riu de piadas antigas, de histórias do tempo do colégio, e segurava a mão dele por baixo da mesa. Eles riam, se olhavam nos olhos. O sentimento era real. Intenso. Verdadeiro.
Ela o amava. De verdade.
Mas os dias seguiram, a faculdade também.
Kelly passava todos os dias cerca de vinte minutos com Rafael na biblioteca. Ajudava com resumos, esquemas, e ele escutava com atenção, até fazia anotações enquanto ela falava.
— Você explica muito bem, Kelly… — ele dizia. — Sério, se eu passar nessa matéria, metade do mérito vai ser seu.
Com o tempo, os vinte minutos viraram quarenta. Depois, uma hora.
E, embora Kelly mantivesse os limites, já não era tão indiferente. Rafael tinha algo leve. Um jeito descontraído, charmoso. Ele fazia piadas no meio da explicação, contava causos engraçados da infância, e ela acabava rindo.
Ela sabia que aquilo era parte da tática. Sabia que ele fazia de propósito pra criar uma aproximação. Mas… ela sorria. Mesmo tentando não se permitir.
— Trouxe isso aqui — disse ele, abrindo uma barra de chocolate um dia. — Tá calor, né? Dá vontade de comer um doce.
Ela riu.
— Rafael… chocolate?
— Ué, só tô abrindo pra comer. Mas se quiser um pedaço… a gente divide.
Kelly era louca por chocolate. Não resistiu. Pegou um quadradinho. Depois outro. No terceiro, olhou pra ele desconfiada.
— Você sabe que eu amo chocolate, né?
— Eu? Que isso… coincidência — respondeu ele, com um sorrisinho travesso nos lábios.
Ela revirou os olhos, mas mordeu mais um pedacinho.
Naquela tarde, enquanto escrevia algo no caderno dele, sentiu o olhar dele fixo em seu rosto. Desviou, disfarçou, e continuou explicando. Mas por dentro… algo nela estava levemente balançado.
Ela ainda era completamente apaixonada por Otávio.
Mas o cuidado sutil, os sorrisos inesperados e a leveza de Rafael estavam, aos poucos, mexendo com algo dentro dela.
E ela sabia disso.
Otávio observava Kelly com atenção redobrada há dias. Não que ela tivesse feito algo diretamente suspeito, não… mas era o jeito como ela sorria depois dos estudos com o Rafael. O brilho nos olhos que voltava toda vez que ela dizia “o Rafael entendeu tudo hoje, amor”. Aquilo o corroía por dentro.
E ele também percebeu outra coisa. Rafael já não olhava pra Kelly como antes — não tinha mais aquele olhar faminto, imprudente, de quem queria conquistar. Agora era diferente. O olhar dele era de quem já tinha algo. Como se estivesse confortável demais. Seguro demais.
Aquilo fazia o sangue de Otávio ferver.
Ele começou a ficar mais possessivo. Mais atento. Queria saber todos os horários dela, queria buscá-la em todos os dias da semana, mesmo que tivesse que faltar uma aula ou outra. Dizia que era por cuidado, mas por dentro ele sabia — era o ciúme, o medo, a raiva.
A confiança, que sempre foi sólida, agora tremia.
Nas rodas com os amigos, Otávio não escondia mais tanto o incômodo. Naquela tarde, enquanto tomavam uma cerveja na praça da faculdade, ele não aguentou mais e desabafou:
— Mano… cês sabem que eu amo a Kelly, né? Aquela mulher é tudo pra mim. Mas esse negócio dela estudar com o Rafael tá me deixando maluco.
Leandro e Caio trocaram olhares rápidos.
— Eu entendo, cara. Mas ela sempre foi firme com ele, né? Desde antes — disse João, tentando aliviar.
— Sim… mas mudou — rebateu Otávio, apertando o copo nas mãos. — Ele não olha mais pra ela como antes, como quem quer. Agora ele olha como quem já tem. E ela… ela tá diferente, cara. Ela ri mais depois que estuda com ele, sabe? E não é um riso qualquer. É aquele sorriso leve, de quem se diverte, de quem se sente bem.
— Mas você conversou com ela? — perguntou Marcos.
Otávio respirou fundo, desviando o olhar.
— Não. Ainda não. Não tenho coragem, cara. Eu tenho medo de perguntar e ouvir alguma coisa que… que eu não quero ouvir. Mas tá me matando. Eu conheço a Kelly. Eu sinto quando ela tá dividida. E agora eu tô com essa coisa na cabeça… essa ideia maldita de que ela… de que ela me traiu. Mesmo sem ter certeza.
Silêncio.
Os amigos abaixaram a cabeça. Nenhum deles quis alimentar aquele pensamento, mas também não conseguiam negar a angústia que o Otávio estava sentindo.
— Eu amo ela, mano. Mas tá f**a confiar com esse cara rondando ela todo dia. E ela deixando.
Otávio suspirou, encarando o céu já escurecido. Por mais que ainda não tivesse provas, seu coração já começava a se despedaçar.
Otávio atravessou os corredores da faculdade com passos rápidos e o coração acelerado. Já fazia dias que a angústia se instalara no peito dele. Aquela ideia, aquele medo constante de chegar e ver algo que mudaria tudo… E hoje ele decidiu tirar a dúvida com os próprios olhos. Foi direto pra biblioteca.
Passou pela porta em silêncio, olhando entre as estantes, procurando por ela. E lá estavam.
Kelly sentada de frente pra Rafael, com o material aberto à sua frente. Ela lia com atenção, apontando os trechos no livro, enquanto ele fazia anotações, concentrado. Nenhum toque. Nenhum flerte. Nada.
Mas não era isso que mais incomodava Otávio.
Era o ar entre eles.
A leveza com que ela falava. A calma com que ele ouvia. O sorriso que ela deixava escapar de vez em quando enquanto explicava alguma coisa difícil. E o pior: Rafael não olhava mais com desejo. Ele olhava com confiança. Um olhar de quem se sente confortável demais. Como se tivesse vencido.
Otávio apertou os punhos, o maxilar travado.
Foi só quando Kelly virou a cabeça, instintivamente, que ela o viu parado à entrada.
— Amor… boa tarde — disse, surpresa e sorrindo.
Otávio respirou fundo e respondeu com a voz mais neutra que conseguiu:
— Boa tarde vida... Você conseguiu vir só agora?
— Sim, consegui sair disse ela...
Rafael, boa tarde — disse ele, sem disfarçar o incômodo.
— Boa tarde, Otávio. Tudo certo? — respondeu Rafael, polido, com aquele tom calmo que parecia zombar do turbilhão que Otávio sentia.
Otávio odiava aquilo. Odiava mais do que se Rafael o enfrentasse. Ele estava sereno. Educado. Como se estivesse em paz. E isso, pra ele, era ainda pior.
— Você quer sentar um pouco com a gente? — perguntou Kelly, inocente, ainda com o marcador na mão.
— Não… tudo bem. Eu vou te aguardar lá fora. Os meninos estão com as meninas, e eu vou esperar lá com eles. Tá?
Ela assentiu com um sorriso gentil.
— Tá bom, amor. Daqui a pouco termino aqui.
Otávio se virou, saindo com os ombros tensos, sem olhar pra trás.
Assim que ele passou da porta, Rafael soltou um risinho rápido, discreto.
Kelly franziu o cenho e o encarou:
— Rafael, para.
Ele ergueu as mãos num gesto inocente.
— Não fiz nada… só achei curioso. Ele veio achando que ia encontrar o quê?
— Não importa o que ele pensou. A gente tá aqui pra estudar, e só isso — disse firme, voltando os olhos para o livro.
— Claro… claro — murmurou Rafael, pegando a caneta e voltando a escrever. Mas o meio sorriso ainda não tinha saído do rosto dele.
E Kelly, mesmo voltando à explicação, sentia o peso da visita inesperada de Otávio. Sabia que algo nele estava mudando. E no fundo… sabia que algo nela também estava começando a se confundir.