A tensão da apresentação

1418 Words
Rafael caminhou até a frente com um sorrisinho presunçoso no rosto. Passou propositalmente perto de Kelly, lançando-lhe um olhar demorado, mas ela apenas ajeitou os papéis e nem o encarou, mantendo-se firme. Otávio o observava de canto de olho, como quem avalia o inimigo com desprezo. Rafael se posicionou diante da turma, junto de seus colegas — Júlia, Henrique, Bárbara e Wellington. O telão exibia o tema: “As nulidades no processo civil e seus efeitos”. Henrique começou a apresentação, visivelmente nervoso, errando algumas palavras e lendo diretamente dos slides. — “As... as nulidades processuais podem ser absolutas ou relativas, e... é importante... é... é importante... saber identificar qual tipo de...” A voz falhou, e ele olhou para Rafael com uma expressão aflita. Rafael, com ar de superioridade, tomou a frente: — “Bom, o que o Henrique quis dizer é que as nulidades podem causar a anulação de atos processuais... o que é extremamente grave. É tipo... tipo um erro que estraga o processo todo, né?” A turma trocou olhares. A explicação era rasa, e o vocabulário pobre. Alguns já riam discretamente. Marcos, do outro grupo, deu uma olhada de lado para Otávio e murmurou: — “Tá parecendo trabalho do ensino médio...” Otávio respondeu com um meio sorriso: — “Nem isso. Tá mais pra improviso em cima da hora.” Bárbara tentou recuperar o ritmo, mas também se perdeu em meio aos conceitos. Júlia leu o slide inteiro, sem fazer nenhum comentário adicional. A apatia do grupo era evidente. A professora Elisângela cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha, visivelmente impaciente. Rafael voltou a falar, tentando ser engraçadinho: — “Bom, professora, é isso. Resumidamente, nulidade é quando dá r**m e o juiz precisa decidir se anula tudo ou só parte do processo. Enfim... é isso.” Silêncio. O constrangimento foi geral. A professora respirou fundo, caminhou lentamente até a frente da sala e cruzou os braços. — “Rafael... Rafael... você se acha espirituoso demais. Mas quando abre a boca, entrega tudo. Vocês tiveram um mês de férias, tempo mais do que suficiente para preparar algo no mínimo digno. O que eu vi aqui foi um festival de erros, improvisos e falta de seriedade.” Ela olhou diretamente para ele. — “Comparado ao grupo anterior, vocês pareceram amadores. E Rafael... sua ironia com a apresentação da Kelly foi lamentável. E a sua explicação sobre nulidades? Um desastre. ‘Dá r**m’ não é um termo jurídico. E nem engraçado foi.” A turma segurava o riso. Alguns colegas, mais ousados, até murmuravam “eita” e “vixe” baixinho. Rafael, pela primeira vez, abaixou um pouco a cabeça, tentando manter a pose, mas claramente desconfortável. A professora continuou: — “Vou ser justa. Vocês terão uma segunda chance. Entregarão, por escrito, até sexta-feira, um relatório com todas as correções e explicações detalhadas. E dessa vez, quero seriedade. Agora sentem-se.” Enquanto voltavam aos lugares, Wellington murmurou para Rafael: — “Cara, você queimou o grupo todo com essa tua palhaçada...” Rafael não respondeu. Apenas se sentou, tenso. O sinal tocou, encerrando a primeira parte da manhã. Os alunos começaram a se levantar e sair da sala, comentando animadamente sobre as apresentações. Alguns falavam das férias, outros ainda riam da bronca que Rafael levou. O grupo de Kelly saiu junto, caminhando até o pátio aberto da faculdade, onde sempre se reuniam nos intervalos. O sol batia suavemente entre as árvores e os bancos de madeira, e o clima estava leve — para eles, pelo menos. — Gente, na moral — disse João, jogando a mochila no banco —, que vergonha alheia aquela apresentação do Rafael, hein? — Aquilo não foi uma apresentação — riu Renata. — Foi um show de horrores com trilha sonora de “dá r**m”. Todos riram. Kelly, mais contida, tomava seu suco com um sorriso discreto nos lábios. Otávio se sentou ao lado dela e colocou um braço por trás de suas costas, bem próximo, num gesto de proteção e carinho, olhando ao redor com aquele olhar atento de sempre. — Mas você arrasou, amor — disse ele, de forma orgulhosa. — Sério. Sua parte era a mais difícil, e você falou com uma firmeza… Uma segurança! Você brilhou. Kelly sorriu, meio tímida. — Obrigada, amor. Eu tava nervosa por dentro, mas segurei firme. — Tava nada — disse Isadora, rindo. — Parecia uma advogada experiente defendendo um caso no Supremo! — Com direito a plateia apaixonada — alfinetou Caio, olhando de soslaio para o outro lado do pátio, onde Rafael estava encostado numa mureta, de braços cruzados, observando discretamente o grupo. Marcos, que já estava completamente integrado, cruzou os braços e disse: — Esse cara ainda vai arrumar confusão. O jeito como ele olha pra Kelly... não é só admiração. É provocação mesmo. Carla, ao lado dele, concordou: — E o Otávio ainda teve uma paciência de ouro hoje, porque olha... — Eu tô aprendendo a respirar antes de agir — respondeu Otávio, sério. — Mas se ele continuar, uma hora vai me ver do avesso. — Melhor ignorar — disse Luísa. — Você já ganhou, Kelly. Não é só no trabalho, é na vida. Olha o namorado que você tem, olha os amigos que te cercam. Deixa ele se afundar sozinho. Kelly respirou fundo e falou: — Eu só quero paz. Foco nos estudos, no futuro... e em vocês. Que grupo maravilhoso. Vocês são minha força. Eles todos sorriram e se abraçaram em um círculo apertado, ainda sentados no banco, sentindo o valor daquela amizade construída ao longo dos semestres. — Ah, e detalhe — lembrou Leandro, pegando um pedaço do sanduíche —, essa apresentação pro auditório vai ser babado, hein. A Kelly vai brilhar pra faculdade inteira. — E vamos estar todos lá pra aplaudir — completou Renata, erguendo o copo com suco. — Aos nossos dias de luta e de glória. Todos ergueram seus copos e sanduíches em um brinde simbólico. Enquanto isso, do outro lado do pátio, Rafael observava em silêncio. O sorriso nos lábios de Kelly, a cumplicidade com Otávio, os olhares orgulhosos dos amigos… tudo parecia distante demais para ele alcançar. E, no fundo, ele sabia: já havia perdido. Do outro lado do pátio, onde a sombra da mureta oferecia um pouco de frescor, Rafael permanecia encostado, os braços cruzados, os olhos fixos em Kelly enquanto ela sorria com os amigos. O olhar dele era carregado — misto de desejo, frustração e obsessão. Foi quando Henrique se aproximou, com uma expressão irritada e cansada. — Cara... — começou ele, balançando a cabeça. — Pelo amor de Deus, Rafael. A gente precisa montar o relatório do trabalho direito. Cê viu aquilo? A gente vai levar bomba! Rafael m*l olhou pra ele, continuando a encarar o grupo de Kelly. — Henrique, relaxa... — Relaxa? — interrompeu Henrique, indignado. — Relaxa? Cara, olha o mico que a gente pagou hoje! Você nem olhou pros slides, ficou mais tempo encarando a namorada do Otávio do que apresentando! Isso não é obsessão, não? É burrice, véi! Rafael finalmente virou o rosto e respondeu, irritado: — Ah, Henrique, para. Eu vou dar um jeito. — Um jeito? — retrucou Henrique, incrédulo. — Mano, aceita que ela não é pra você. A Kelly ama o Otávio. Eles moram juntos, dormem juntos, acordam juntos, dividem a vida. Eles são praticamente casados, cara! E você aí... feito um i****a, se humilhando. Rafael se afastou um pouco da mureta, com o olhar ainda fixo em Kelly, que ria enquanto conversava as meninas e os demais. O brilho nos olhos dela, o jeito como tocava o braço de Otávio, tudo aquilo parecia intensificar ainda mais o desejo doentio de Rafael. — Eu quero ela, Henrique... — disse ele, num tom baixo, quase sombrio. — E ela vai ser minha. Nem que demore. Nem que eu tenha que fazer o mundo girar ao contrário. Henrique recuou um passo, visivelmente desconfortável. — Você tá doente, mano. — Tô apaixonado. — Não... isso não é amor. Isso é ego ferido, é obsessão. E, sinceramente? Se continuar assim, nem amigo eu vou conseguir ser mais. Fica esperto, Rafael. Henrique virou as costas e saiu, bufando, enquanto Rafael voltava a encostar na mureta, ainda olhando para Kelly, que agora conversava animadamente com João. O sorriso dela... era como um raio de sol que ele não conseguia alcançar. E isso só alimentava mais o fogo que queimava por dentro.
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