O final da tarde chegou tingindo o céu com tons alaranjados e suaves. O sol se punha lentamente atrás das montanhas, e dentro da casa alugada, o clima era de silêncio, mas não de paz — era um silêncio denso, cheio de coisas não ditas.
Cada casal estava em seu quarto. A luz baixa iluminava os rostos pensativos, e o som das notificações no celular era o único que cortava o ar por vezes. Eles mexiam no telefone, distraídos, mas os olhos... ah, os olhos estavam atentos nelas. Nas suas garotas. Observando cada movimento, cada vez que prendiam o cabelo, cada suspiro.
As meninas estavam em pé ou sentadas à beira da cama, se ajeitando, trocando olhares entre si por mensagem, e em um momento natural, começaram a falar.
— A gente tá querendo sair hoje… — disse Luísa, quebrando o silêncio no quarto com Leandro. — Eu, as meninas… vamos ao shopping. Dar uma volta, espairecer.
No outro quarto, Renata ajeitava os cabelos diante do espelho enquanto falava com João.
— Depois, talvez a gente pare num barzinho na orla. Tem um do lado do shopping. Tomar uns drinks, conversar… rir um pouco.
Isadora se aproximava da janela do quarto com Caio e dizia suavemente:
— É só pra mudar o ar, sabe? A gente precisa disso… nós precisamos. Só nós, as meninas.
Kelly, já calçando a sandália, olhou para Otávio e murmurou:
— Vamos sair. Só nós. Só as meninas.
Eles ouviram em silêncio. Nenhum deles ousou interromper. Mas também não escondiam o desconforto. O peso da ausência, o vazio de não serem mais prioridade — e a culpa que carregavam — estava ali, vivo, em cada olhar. Eles sentiam falta, sim. Do toque, da risada, da conexão. Mas estavam tentando fazer o certo: dar espaço.
Então, um por um, cada um deles falou com o coração:
— Vai sim, amor… — disse Leandro, com a voz baixa. — Só… só não bebe muito, tá? Não é por mim, juro. É por você. Eu lembro como você ficou da última vez, com dor no estômago a noite inteira. Cuida de você.
— Se divirta — falou João, tentando sorrir. — Mas… tenta voltar cedo, por favor. Não quero ficar preocupado. Não é controle, é só… medo de que algo aconteça. Só isso.
— Aproveita — disse Caio, encarando Isadora com ternura. — Só cuida de você, tá? E se beber demais, me liga. Mesmo que esteja brava… eu vou.
Otávio demorou um pouco mais, mas quando Kelly estava já pegando a bolsa, ele se levantou da cama, caminhou até ela e segurou suas mãos com carinho.
— Meu amor… leva meu carro. É melhor do que chamar aplicativo por aí. Você vai mais segura. Mas… se por acaso vocês beberem demais e não quiserem dirigir de volta, me liga. Sem problema. A gente vai buscar vocês.
Kelly apenas assentiu com um sorriso curto, sem promessas, mas com respeito. Pegou a chave, deu um leve aceno e saiu para encontrar as amigas.
No jardim da casa, as meninas estavam animadas, rindo entre si, já sentindo a leveza de um momento só delas. Subiram no carro de Otávio com cumplicidade e um clima de liberdade saudável. Rumo ao shopping. Rumo ao barzinho na orla. Rumo a elas mesmas.
E lá dentro da casa, os meninos ficaram… cada um com seus sentimentos, esperando. Torcendo. Arrependidos.
O shopping parecia outro mundo.
As meninas caminhavam entre vitrines iluminadas, rindo entre si, tentando se distrair. Renata se apaixonou por uma calça jeans de cintura alta, enquanto Luísa e Isadora exploravam uma loja de maquiagem. Kelly observava em silêncio, pensativa, mas com um leve sorriso de canto — como se tentasse se convencer de que tudo estava bem.
— Gente, vamos comprar essas taças coloridas pro nosso apê? — Isadora sugeriu, levantando um conjunto vibrante.
— Boa ideia! Pra brindar nossa independência emocional! — Luísa disse, com tom brincalhão, mas a tensão nos olhos denunciava algo mais.
Depois de algumas compras, elas seguiram para o barzinho ao lado do shopping. A orla refletia a luz dourada dos postes. O mar ao fundo balançava calmo, como se zombasse da inquietação que todas carregavam no peito.
Sentadas numa mesa ao ar livre, pediram mojitos, caipirinhas e drinks coloridos com nomes sugestivos. O garçom trouxe com rapidez, e elas brindaram:
— À nós. — Kelly disse, séria.
— À nossa força. — completou Renata.
— E ao nosso silêncio. Que está dizendo tudo o que precisa ser dito. — murmurou Isadora, erguendo o copo com um sorriso irônico.
Riam, dançavam ao som do bar, mas havia algo nos olhos de todas: saudade, dor e firmeza. Elas estavam determinadas. O coração queria ceder, mas a razão gritava mais alto.
Enquanto isso, na casa...
Na sala de estar, o silêncio era espesso. O som baixo de um filme qualquer na televisão passava despercebido. Os meninos estavam ali, mas distantes. Cada um afundado no sofá, com o rosto pesado. Nenhum conseguia prestar atenção no que se passava na tela.
Caio foi o primeiro a falar, com a voz embargada.
— Cara... essa distância tá me destruindo.
João assentiu lentamente, olhando pro chão.
— Nem me fala. Parece que eu perdi o meu lugar no mundo. Ela tá ali... mas não tá mais aqui — e apontou pro próprio peito. — E o pior... fui eu que causei isso.
Leandro passou a mão no rosto, cansado.
— Ver a Luísa se arrumando hoje, com aquele vestido... Me deu vontade de abraçar ela por trás, beijar o pescoço dela... Mas eu fiquei ali, parado. Porque eu sei que ela não quer. Ela tá me punindo com razão.
Otávio se recostou, os olhos vermelhos. Falou baixo:
— A Kelly... ela é tudo pra mim. E mesmo assim, eu virei o tipo de cara que ela sempre disse que tinha medo. Ciumento, controlador, inseguro. Eu jurei que nunca faria ela se sentir presa. Mas fiz. E agora eu tô vendo ela se afastar. E cara... dói.
João falou, num desabafo rouco:
— A Renata sempre foi livre, leve. O brilho dela é ser intensa. E eu... fui apagando isso. Um comentário, uma cobrança, um ciúme... Quando foi que eu virei esse cara?
— A gente se apaixonou por elas por serem exatamente como são... — Caio completou. — Não adianta agora querer que elas mudem pra caber no nosso ego. A gente tem que mudar.
Um silêncio denso caiu sobre eles. O filme seguia passando. Nenhum olhava pra tela.
— Elas estão com saudade. Eu sei que estão... dá pra ver nos olhos. Mas a raiva delas tá gritando mais alto. — disse Leandro.
— Então o que nos resta é esperar. Esperar, mas mostrar que estamos aqui. Que queremos fazer certo. — murmurou Otávio.
Enquanto isso, Carla e Marcos...
No restaurante à beira-mar, o clima era outro. Intimista, com velas e música ao fundo. Carla e Marcos jantavam calmamente. Ela com um vestido fluido, ele com uma camisa branca desabotoada no colarinho.
— Sabe, amor... ver todo mundo em crise me faz valorizar ainda mais o que a gente tem — disse Carla, pegando na mão dele.
— É porque a gente aprendeu a conversar. A escutar. A gente erra, mas a gente não se cala. — respondeu ele, olhando-a nos olhos.
Ela sorriu. Um sorriso sereno, cúmplice. Entre uma taça de vinho e outra, brindaram ao amor maduro — enquanto seus amigos, em outro ponto da cidade, ainda buscavam a maturidade necessária pra merecer aquele tipo de amor.