Os tiros lá fora continuaram por muito tempo. Às vezes fortes, às vezes mais espaçados. Cada estampido fazia meu corpo inteiro se encolher sem que eu conseguisse evitar. Eu já tinha parado de andar de um lado para o outro porque minhas pernas estavam cansadas, mas a ansiedade não tinha ido embora. Sentia ela presa no peito, apertando minha respiração. Minha mãe continuava rezando em voz baixa. Milene já não chorava tanto, mas permanecia quieta, abraçando as próprias pernas na ponta da cama. Meu pai ia e voltava da janela. Mesmo sabendo que ela era blindada e que não dava para enxergar quase nada, ele parecia precisar daquele ponto de observação. Eu olhava para o relógio de tempos em tempos. A madrugada chegou sem que eu percebesse. E aos poucos, os tiros começaram a diminuir. Prime

