O Nome que Muda Tudo

1158 Words
Ela vestia uma calça jeans escura, um suéter azul-marinho e o cabelo preso em um coque apressado. Simples, discreta, tentando passar despercebida — uma ilusão tola, ela logo perceberia. — Nome? — perguntou a recepcionista, sem desviar os olhos do monitor. — Lis Pires. A mulher digitou algo, franziu o cenho e então assentiu com um aceno de cabeça. — Já estão esperando por você. Vigésimo quinto andar. Elevador à direita. Lis agradeceu com a voz embargada e seguiu até o elevador. Enquanto subia, o nervosismo se enroscava em sua garganta como uma corda apertada. Quase desejou que os cabos do elevador se rompesse, que alguma força do destino a poupasse do que estava prestes a enfrentar. Mas não. O destino era c***l. E estava apenas começando a se revelar. Quando as portas se abriram, dois homens de terno a aguardavam. Nenhum sorriso. Nenhuma saudação. Apenas um gesto seco com a mão para que ela os seguisse. Lis caminhou em silêncio por um corredor largo até uma porta de madeira escura. Um deles bateu duas vezes e abriu, sem esperar resposta. Ela entrou. A sala era tão fria quanto o prédio. Tudo em preto, cinza e vidro. Ao fundo, uma janela panorâmica revelava a cidade em miniatura, como se pertencesse àquele homem. E, de fato, ela pertencia. Dante Lucchesi estava de pé, de costas, olhando a paisagem. Alto, ombros largos, terno escuro sob medida, mãos cruzadas atrás do corpo. Ele não se virou de imediato. O silêncio que se seguiu foi quase insuportável. — Sente-se. — disse ele, sem encará-la. Lis obedeceu, hesitante. O coração batia como um tambor em seu peito. — Você sabe quem eu sou? — perguntou ele, ainda olhando pela janela. — Sim. — sua voz saiu mais fraca do que gostaria. Dante se virou lentamente. E quando os olhos dele encontraram os dela, Lis sentiu-se despida. Nunca havia sentido algo tão intenso e opressor. Seus olhos eram escuros, duros, como carvão em brasa. Havia frieza ali, mas também algo mais. Algo que ela não conseguiu nomear. — E por que, exatamente, você está carregando o que é meu? Lis se encolheu na cadeira. — Eu… foi um erro. Um erro da clínica. Eu nunca autorizei. Eu estava lá com outra pessoa, só a acompanhando. Eles me sedaram, me entregaram papéis errados. Eu juro que não sabia. — Você assinou. — Sedada! — Mesmo assim, assinou. Lis apertou os punhos. — Eu não pedi por isso. Não quis isso. Foi um absurdo! Um crime! Dante aproximou-se da mesa, sentando-se à sua frente. Os olhos dele analisavam cada traço do rosto dela com frieza cirúrgica. — E o que pretende fazer? — Eu ainda estou processando. Só descobri há poucos dias. Mas não posso apagar o que já aconteceu. — Você tem ideia do que está dizendo? — Eu estou grávida. É uma vida. Eu… — a voz falhou, e ela precisou respirar fundo. — Eu não sei o que fazer, mas sei que não sou culpada por isso. Dante cruzou os braços. — E se eu quiser essa criança? Lis sentiu o estômago virar. — O quê? — Se eu quiser essa criança. Meu filho. Minha herdeira. Você não tem ideia do que isso significa. — Eu não sou uma incubadora! — E eu não sou um i****a. Sei que há pessoas que fariam qualquer coisa para colocar as mãos em um herdeiro Lucchesi. Inclusive armar um golpe como esse. Lis ficou boquiaberta. — Você está me acusando de quê? — Ainda não decidi. Mas estou observando. E investigando. — Ele se inclinou levemente para frente. — Entenda uma coisa, Lis Pires. Eu nunca quis filhos. Por isso congelei meu sêmen antes da vasectomia. Essa criança não era para existir. Mas agora que existe… ela me pertence. Não você. — Isso é um absurdo! Eu sou a mãe! — Biológica, talvez. Mas não legal. Não se você assinar o que estou prestes a lhe oferecer. Lis arregalou os olhos. — Você quer me tirar o bebê? — Não quero nada seu. Quero o que é meu. — Isso é monstruoso. — É a realidade. Ele abriu uma pasta e empurrou um envelope por sobre a mesa. Lis hesitou, mas o abriu. Um contrato. Termos. Cláusulas. Uma proposta indecente e c***l: ela renunciaria a qualquer direito sobre a criança, em troca de uma quantia absurda de dinheiro — e o silêncio eterno. — Você está me comprando. — Estou te oferecendo uma saída. Pense bem. Você quer carregar o filho de um homem que não conhece? Você tem estrutura emocional para isso? Financeira? Jurídica? Eu posso garantir que sua vida será um inferno se escolher enfrentá-la sozinha. — Você é doente. — sussurrou, empalidecida. — Eu sou prático. E você tem uma decisão a tomar. Lis levantou-se, trêmula. As pernas m*l sustentavam seu corpo. — Eu não vou assinar isso. — Vai. Talvez não hoje. Mas em breve. A vida tem formas bem eficazes de quebrar a sua vontade, Lis. Eu sou uma delas. Ela saiu da sala sem olhar para trás. Na calçada, vomitou. As mãos tremiam, o corpo inteiro latejava. A gravidez era real. O pai era um monstro. E agora, ela estava presa a um jogo que jamais pediu para jogar. Nos dias seguintes, Lis tentou buscar apoio. Procurou advogados. Contou para uma amiga próxima. Mas a influência de Dante se estendia como uma rede. Portas se fechavam. Telefones deixavam de atender. As pessoas pareciam temer até mesmo mencionar o nome Lucchesi. Sozinha, sem recursos, e com a barriga começando a crescer, ela se via encurralada. A clínica, com medo do escândalo, ofereceu dinheiro e silêncio. Dante insistia através de mensageiros frios e contratos cada vez mais agressivos. Aos três meses, o sangramento começou. Lis foi levada ao hospital. Ficou internada por uma semana, temendo perder o bebê. Foi ali que percebeu: havia amor. Havia apego. Havia algo nas batidas daquele coração minúsculo que a ligava àquela vida de forma irreversível. Mas também percebeu outra coisa: ela não podia lutar sozinha. No quinto mês de gestação, quando as ameaças aumentaram e um processo foi aberto contra ela por “uso indevido de material genético”, Lis quebrou. Chorou sozinha no chão do banheiro. Pela primeira vez, pensou em desistir. Não da gravidez. Mas da briga. Foi quando recebeu uma nova proposta. Mais agressiva. Mais definitiva. — Você entrega a criança após o parto. Em troca, nunca mais ouvirá meu nome. Terá uma nova vida, longe daqui. Um novo começo. Lis não respondeu de imediato. Mas no fundo, sabia que aquele homem venceria. Que a justiça nem sempre era justa. E que, naquele momento, sua única chance de salvar o que restava de si era aceitar o acordo. Ela assinou. E ao fazê-lo, sentiu-se morrer por dentro. A vida que havia interrompido a sua… logo lhe seria tirada. Mas Lis não esqueceria. Não perdoaria. E um dia, quando menos esperassem… ela voltaria.
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