A primeira notificação oficial chegou em um envelope bege, selado com a frieza de um império acostumado a destruir o que desafia seu domínio.
Lis o recebeu com as mãos trêmulas, os olhos tentando adivinhar o conteúdo antes mesmo de abrir. Marta, sentada à sua frente, observava em silêncio, como se já soubesse o que vinha.
— Mais uma ameaça? — Lis perguntou, sem coragem de rasgar o lacre.
— Mais uma tentativa de te calar. — Marta respondeu, dura. — Eles estão ficando desesperados.
O envelope continha uma intimação: Dante Lucchesi havia movido um novo processo contra ela. “Calúnia, difamação, e tentativa de se aproveitar financeiramente da herdeira Lucchesi”, diziam os termos. A palavra “herdeira” doía mais do que qualquer outra. Era como se sua filha tivesse sido reduzida a um bem patrimonial.
— Ele está tentando me apagar — Lis murmurou, encarando as palavras como quem observa um abismo.
— Mas se você fosse insignificante, Lis, ele não moveria mundos e fundos pra te silenciar.
No prédio da Lucchesi Group, Dante atirava documentos sobre a mesa. Seus olhos estavam injetados, e a tensão em sua mandíbula denunciava que algo escapava de seu controle.
— Eu quero que ela desapareça da mídia, das redes, da memória das pessoas. — Sua voz era cortante. — Ela não vai usar minha filha pra se promover.
Marcela, a assessora de imprensa, hesitou.
— Senhor, com todo respeito... a repercussão da entrevista foi empática. O público está do lado dela.
— Então vire esse jogo — ele retrucou. — Contrate jornalistas. Use os aliados de sempre. Quero Lis destruída em praça pública.
Ela assentiu, e saiu sem dizer mais uma palavra. Não valia a pena contrariar Dante Lucchesi quando o nome de Lis estava em pauta. Ele era puro veneno.
Lis havia dado uma única entrevista, rápida, controlada, mas que se espalhou como fogo. Não expôs nomes. Não citou a filha diretamente. Apenas contou como uma mulher pode ser silenciada, julgada e arrancada da própria maternidade sem chance de defesa.
E aquilo foi o suficiente para acender uma chama de empatia nos corações de milhares.
— Estão te chamando de "a mãe apagada" — disse Marta, exibindo o celular. — Você viralizou.
Lis riu, mas seu olhar estava distante.
— Não é fama que eu quero. É minha filha. Eu daria tudo pra trocar essa manchete por um abraço dela.
Mas Dante não estava disposto a perder nem espaço na mídia, nem a filha. Em uma reunião com seu advogado mais antigo, lançou a proposta mais c***l até então.
— Quero que provem que ela é instável. Que tem surtos. Que é um risco para a criança.
— Senhor, isso pode gerar consequências. Eles podem usar contra o senhor depois...
— Faça parecer que ela precisa de tratamento. Envolva psiquiatras. Quero Lis descredibilizada.
O advogado assentiu com pesar. Sabia que a missão era suja, mas não podia dizer não a Dante Lucchesi.
Os dias seguintes foram um inferno calculado. Paparazzi em frente ao prédio de Lis. Perfis falsos nas redes sociais disseminando rumores sobre seu passado. Denúncias anônimas com conteúdo inventado, sugerindo que ela usava drogas ou que havia tentado se matar após o parto.
Marta, furiosa, quis levar tudo à imprensa. Mas Lis recuou.
— Não... — disse, firme. — Ele quer me tirar do eixo. Quer que eu perca o controle. Mas é no silêncio que eu venço.
Enquanto isso, Dante observava sua filha no berçário particular da mansão. Ela chorava pouco, mas quando o fazia, parecia desafiar o mundo com o som.
— Ela tem o seu olhar — disse Beatrice, a mulher com quem ele fingia um relacionamento apenas para irritar Lis.
— Não seja ridícula — ele cortou.
Mas, mesmo após ela sair, Dante continuou ali, parado diante do berço. A bebê fechava as mãos como quem queria agarrar algo que nunca lhe foi oferecido: afeto.
Por um segundo, Dante quase estendeu o dedo para que ela segurasse. Mas recuou antes que o gesto se completasse.
Na calada da noite, um carro preto passou duas vezes em frente ao prédio de Lis. A terceira vez, parou. Ninguém desceu. Nenhum vidro abaixado. Apenas presença. Apenas ameaça.
Marta chegou em seguida, por acaso, e o carro acelerou. Ela anotou a placa, ligou para um contato de confiança e em poucas horas soube: o veículo pertencia a uma empresa de segurança terceirizada — que prestava serviços para a Lucchesi Group.
— Ele está te cercando — alertou, trancando todas as janelas.
— Mas também está se expondo. Cada movimento dele está sendo registrado. — Lis respirou fundo. — Ele acha que eu estou vulnerável, mas m*l sabe que já estou me armando.
— Com o quê?
— Com verdade. E com coragem.
O advogado de Lis, um jovem idealista chamado Rafael Salles, apareceu no dia seguinte com uma novidade.
— Conseguimos marcar uma audiência de revisão da guarda. É preliminar, mas é um começo.
Lis ficou sem palavras. Pela primeira vez, um feixe de luz atravessava a escuridão.
— Eu vou estar frente a frente com ele? — perguntou, tensa.
— Sim. Mas é ele quem deve temer agora.
Dante soube da audiência por seu próprio advogado. Ficou em silêncio por longos segundos antes de responder:
— Agendem. Quero que ela sinta que está pisando em um tribunal montado por mim. E que cada palavra dela seja um passo rumo à própria ruína.
Mas a ruína começava, lenta e silenciosamente, a se aproximar dele.
Na véspera da audiência, Lis não dormiu. Sentia medo, sim. Mas também uma força diferente, crua e inabalável. Era o poder de uma mãe prestes a enfrentar o próprio inferno por um pedaço de si.
Ela vestiu-se de forma simples, mas firme. Cabelos presos, olhar limpo. Queria ser vista como era: uma mulher em busca da própria filha, não de vingança.
Dante, por outro lado, surgiu no tribunal como um general de guerra. Terno escuro, olhos gélidos, aura de domínio absoluto.
Mas ao vê-la... algo vacilou. Havia algo em Lis que ele não reconhecia mais — ou talvez reconhecesse demais: a força que um dia ele achou que podia esmagar, agora ali, diante dele, em pé, inteira, pronta.
A juíza, uma mulher de fala firme e olhar atento, abriu a sessão com objetividade.
— Estamos aqui para revisar os termos de guarda unilateral. A senhora Lis deseja apresentar novos argumentos, e o senhor Lucchesi terá direito à resposta.
Lis levantou-se. Suas mãos tremiam, mas sua voz não.
— Meritíssima, não peço piedade. Peço justiça. Minha filha foi retirada de mim em um momento de extrema vulnerabilidade. Fui ameaçada, silenciada, cercada por um sistema que favorece o poder. Mas ela é minha filha. E eu sou a mãe dela.
A sala permaneceu em silêncio absoluto. Até Dante, por um segundo, pareceu paralisado.
— Provas serão analisadas — continuou a juíza. — E as próximas audiências trarão laudos, testemunhos e acompanhamento.
Mas por ora, concedo o direito de visitas supervisionadas à mãe, iniciando imediatamente.
Lis engoliu o choro. Era pouco. Mas era o suficiente para reacender a esperança.
Fora do tribunal, Dante desceu as escadas sem olhar para trás. Mas Beatrice o esperava no carro.
— Perdeu o controle? — ela provocou.
— Ainda não. Mas ela está jogando alto.
— E vai jogar mais.
Dante fechou a porta com força. Mas o vidro de sua bolha começava a rachar. E ele sentia — pela primeira vez — que o império Lucchesi não era tão inabalável assim.