O Altar E A Prisão

1389 Words
DIEGO NARRANDO A vida inteira me disseram quem eu devia ser. Rafael — Você é separado, Diego Mariana — Escolhido desde o ventre — aceno — Teu ministério vai longe, meu filho.. E eu fui acreditando. Cada versículo decorado, cada madrugada de oração, cada lágrima derramada no altar… era como se eu estivesse tentando provar que sim, que eu era mesmo aquilo que todo mundo via. Mas tinha dias , dias como hoje , em que eu acordava e não sabia nem quem eu era sem a gravata no pescoço ou o amém na boca. Meu pai é pastor há trinta e seis anos. Minha mãe, presbítera desde os vinte e três. Cresci sentado no banco da frente, com a Bíblia debaixo do braço e o inferno pintado no quadro n***o da escola dominical. Nunca bebi, nunca fumei, nunca fui pra balada. Nunca fui “do mundo”. Mas também nunca fui livre. Aos tinta e oito anos , sou pastor titular de uma congregação com mais de duzentos membros. Todos me admiram. Todos me seguem. Mas ninguém me enxerga. Estou noivo da missionária Gabriele. Filha de obreiros, formada em teologia, canta no louvor com voz doce e roupa longa. Todos dizem que somos perfeitos juntos. Casal de propósito, casal de aliança. Mas só Deus , e talvez o espelho , sabe o quanto esse casamento me sufoca. Não é que ela seja r**m. Gabriele é boa. Boa demais. E talvez por isso mesmo, seja tão difícil pra mim. Eu não a amo. Nunca amei. Nem sei o que é isso, amar. Só sei que disseram que era a vontade de Deus. “União ministerial”, chamaram. “Casamento que fortalece o Reino.” Mas o que fortalece o Reino tá matando meu coração. Todo dia um pedaço de mim morre nesse teatro santo. Hoje de manhã, enquanto ela falava sobre os convites do casamento, eu só conseguia ouvir o barulho do vento batendo na janela. Um vento que parecia me chamar pra longe. Longe dessa vida planejada. Longe da obediência cega. Longe desse altar que pesa mais do que sustenta. Tem uma frase que meu pai sempre repete no púlpito “Quem põe a mão no arado e olha pra trás, não é digno do Reino.” Mas e se a mão treme? E se o arado corta mais o peito do que a terra? Deus, me perdoa… mas às vezes eu só queria fugir. Nem que fosse por um dia (…) A gravata estava apertada demais, como se ela soubesse de tudo que me sufocava por dentro. Encostei na parede do quarto, já vestido, Bíblia na mão, e respirei fundo. O espelho na minha frente mostrava um homem admirado por muitos… mas conhecido por ninguém. Respirei mais uma vez. Desci as escadas, peguei as chaves do carro. Antes do culto, como de costume, passaria na casa da Gabriele. Ela morava com os pais. Uma casa simples, mas ajeitada, com flores na varanda e uma plaquinha de “O Senhor é meu pastor” pendurada no portão. Estacionei na frente e buzinei de leve. Ela saiu poucos minutos depois, com um vestido azul-escuro que ia até os tornozelos. Cabelos presos num coque discreto. Sorriso no rosto. Bíblia debaixo do braço. Gabi — Boa noite, meu amor — disse, entrando no carro. — Boa noite, Gabi — respondi, com um meio sorriso. Gabi — Tá tudo bem? — Tudo, tudo sim — Ela não percebeu que meu “tudo” era só fachada. Gabriele não percebia quase nada de mim. Mas não por m*l. É que ela via o que queriam que ela visse. Um pastor. Um noivo. Um homem de Deus. E eu… eu aprendi a caber nesse molde, mesmo quando ele me feria por dentro. No caminho até a igreja, ela falava animada sobre os detalhes do casamento. Centro de mesa, cor das flores, lista de convidados. Eu apenas dirigia. Concordava. Murmurava algo de tempos em tempos. Sentia que cada quilômetro até a igreja era também um passo em direção ao meu altar de sacrifício. Chegamos. A igreja já estava com as luzes acesas, os obreiros nos esperando na porta. Assim que descemos do carro, eles abriram sorrisos, estenderam mãos, abraços. Xxx — Paz do Senhor, pastor Diego! — A paz, irmã Rosângela. A paz, irmão Cléber. Entramos juntos. Ela de braço dado comigo. O casal de aliança, como chamam. O exemplo do “relacionamento com propósito”. Eu só não sabia se esse propósito era o Reino ou a prisão. O louvor começou. As vozes se levantaram. Os instrumentos tocaram. A presença de Deus… ela veio. Eu senti. Mesmo com tudo que me atravessava por dentro, Ele veio. Na terceira música, meus olhos começaram a encher. O refrão dizia: “Seja feita a Tua vontade, Senhor, mesmo quando eu não entender.” E ali eu soube. Eu não entendia nada. Mas estava ali. Me entregando, mesmo despedaçado. Minutos depois, o pastor visitante subiu ao altar. Começou a ministrar. Uma palavra forte. Falava sobre renúncia. Sobre carregar a cruz. Sobre dizer não para si mesmo e sim para o Céu. Foi nesse momento que não aguentei. Desci discretamente do altar. Me ajoelhei na primeira fileira. Baixei a cabeça. E desabei. Chorei. Chorei como uma criança que perdeu o caminho de casa. — Deus… — sussurrei, com a voz engasgada — …eu não tô vivendo a minha vida. Eu tô vivendo a vida que esperam de mim. Eu não te conheço como Pai… só como patrão. Só como ordem. Só como medo — As lágrimas escorriam pelo rosto — Mas se obedecer é Te agradar… se esse casamento, essa missão, essa cruz… se isso tudo for a Tua vontade… então eu renuncio a mim. Eu abro mão do que eu queria sentir. Do que eu queria ser. Eu fico aqui. Eu obedeço. Porque a Tua palavra diz: “Honra teu pai e tua mãe para que se prolonguem os teus dias…” Levantei os olhos para o altar, onde o pastor pregava com autoridade. E eu, ajoelhado, era só poeira. Mas uma poeira que ainda clamava por direção. O culto terminou com uma oração forte. Muitos choraram. Outros deram glórias. Mas eu, eu saí daquele culto mais leve… e ao mesmo tempo mais preso. Do lado de fora, os irmãos se reuniam em pequenos grupos. Gabriele me esperava no carro. Mas antes que eu pudesse me aproximar, a mãe dela me parou com um sorriso largo. Ângela — Pastor Diego! A paz! — A paz, irmã Ângela — respondi, tentando sorrir. Ângela — Que palavra linda, né? E que presença de Deus, meu filho. Olha… até me arrepiei. — Foi forte, sim. Glória a Deus. Ângela — Mas olha, Diego… — ela deu um passo mais perto e abaixou o tom — …quando vocês vão marcar essa data, hein? — Desculpa? Ângela — O casamento, filho. Você sabe que a gente já desmarcou duas vezes. A família tá começando a comentar. As irmãs da igreja também. A Gabi tá toda ansiosa… — se eu não me engano a sua filha já cuido disso — disse mas rude do que imaginei Angela — A que bom — ela sorrir — já estava achando que você estava enrolando minha filha .. Ela falou rindo… mas os olhos não riam. Ela me deu um tapinha leve no ombro e seguiu em direção à filha. Fiquei parado ali por alguns segundos. Olhei para o céu. Estava estrelado. Uma brisa leve passava pelas folhas da árvore do estacionamento. Dentro de mim, um vento mais forte gritava. Eu não queria mentir pra ninguém. Nem pra mim. Mas também não queria desonrar os meus pais. Desobedecer a Deus. Ou seria desobedecer aos homens que diziam falar por Deus? A porta do carro se abriu. Gabriele me esperava. Gabi — Vamos, amor? — Assenti. Entrei no carro. Dei partida. Enquanto ela falava sobre o culto, o vestido, a irmã que desafinou no louvor, eu só pensava numa frase que o pastor havia dito naquela noite: “Quem se cala diante do próprio chamado, assina sua própria prisão.” E eu me perguntava, com o coração já cansado: Será que fui chamado pra obedecer ou pra viver? OBS : PARA MAIS CAPÍTULOS COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA.. NÃO SE ESQUEÇAM DE VOTAR AMORES ..
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