A rotina tem uma crueldade própria. Ela não pergunta se você tá pronto. Ela simplesmente volta. Na segunda-feira, o despertador tocou no mesmo horário de sempre. O mesmo som irritante, a mesma luz atravessando a cortina, o mesmo teto branco acima de mim. Por alguns segundos — aqueles segundos suspensos entre o sonho e a vigília — eu não lembrava exatamente onde estava, nem quem eu era naquele momento. Só sentia um peso. Não era tristeza clara. Também não era culpa explícita. Era como se algo tivesse sido acordado dentro de mim e, agora, se recusasse a voltar a dormir. Virei o rosto devagar e vi Manuela ainda dormindo. O cabelo espalhado no travesseiro, o rosto sereno, a respiração calma. Minha esposa. A palavra ainda parecia nova demais para caber inteira na boca. Esposa. Ela pare

