Ouvi o som alto vindo de fora e depois de desligar a água no fogão, não resisti em não vir ver o que era. E a cena que encontrei mexeu comigo de um jeito assustador.
Daemon estava sem camisa, com os cabelos soltos espalhados pelo ombro, acertando o machado em pedaços de madeira e partindo-a como se fosse um mísero vidro – ao menos é assim que parece para mim, que ele não faz esforço algum. O suor escorria de seu corpo, deslizando pela pele bronzeada, entre os músculos rígidos com o movimento, as tatuagens a mostra.
Acendi a luz para ver melhor quando a claridade do céu diminuiu. Eu estava hipnotizada, ainda estou, estou ainda mais com ele parado em minha frente.
Sua altura, seu olhar carregado de desejo, os braços enormes e tatuados, o pe.ito largo e firme subindo e descendo com a respiração ofegante. O calor exala dele, é impossível sentir frio.
Sinto minhas pernas fracas, intimidada, é como se eu fosse minúscula e fosse despencar na frente dele a qualquer momento. Fica difícil para mim também respirar, e eu preciso espaçar os meus lábios para que o ar entre melhor. Meu coração bate em um ritmo descontrolado, difícil de estabilizar.
— Eu preciso de um banho. — Diz ele, já dando a volta e entrando em casa quase que correndo.
Fecho os olhos, enchendo meus pulmões de ar assim que ele sai de perto de mim. Levo uma mão ao pei.to, meu coração dói com a força que eu fazia para tentar mantê-lo quieto, e falhando. Acho que eu também preciso de um banho, mas terei que esperar ele terminar.
Quando entro de volta na cabana, Daemon não está nem na sala e nem na cozinha, então eu nem vou para o quarto, dando a ele privacidade pois sei que está lá e provavelmente foi para o banho tirar o suor do corpo.
Espero sentada na poltrona, distraída, sem conseguir tira-lo da minha cabeça em especial depois da cena que vi. Cada segundo repassa em meus pensamentos como se eu tivesse vendo novamente, cada movimento, cada balançar do cabelo dele, cada olhar, cada respiração.
Minhas bochechas ardem, minha pele inteira arde, e sinto umidade entre minhas pernas. É tão difícil assim estar com alguém do se.xo oposto? Isso é normal?
Eu não consigo me lembrar.
— Você deve estar precisando de um banho também. — Dou um salto no lugar, voltando de meus pensamentos quando ouço a voz dele. Seus cabelos estão molhados dessa vez, soltos. Meus olhos encaram os dele, envergonhada. Ele consegue perceber o quão necessitada eu estou? — Eu tenho te dado banho com algodão, deve estar sentindo falta de um banho de verdade.
— Ah! — Respiro aliviada, era por isso. — Esse banho, você...
— Eu não te toquei, Marian. — Ele entende, felizmente, porque eu não sabia quais palavras usar. — Mas eu troquei suas peças íntimas como pode perceber, não acho que seria muito higiênico você usar a mesma por três dias.
Sim, eu já tinha percebido que estou usando cueca e não calcinha. Acredito que não tenha sido eu que estava usando isso. Engulo seco.
Ele. Me. Viu. N.ua.
— Vai me dizer que foi tudo de forma inocente, não vai?
— Com certeza, foi. De qualquer forma não fiquei olhando, eu tenho respeito. — Volta a garantir seu caráter. Até agora eu não tenho motivos para duvidar dele.
— Tudo bem, eu confio em você. — Não acho que Daemon mentiria para mim, eu sinto verdade nele e além disso, se ele quisesse me fazer m*l, já teria feito. Ele dá de ombros, se mostrando agradecido mas não muito empolgado.
— Deixei outra camisa minha e cueca limpa na cama, pode usar e colocar a roupa suja no cesto no banheiro. Amanhã eu vou até a cidade novamente, trarei algumas roupas para você. Você pode ir comigo se quiser, mas não sei se vai estar forte o suficiente ainda. — Oferece.
— Sim, veremos amanhã. Obrigada. — Não me importo com seu pedido para não agradecer. Eu não posso simplesmente ignorar tudo que ele está fazendo por uma estranha.
Vou para o quarto, e finalmente tomo um banho. É bom sentir a água cair pelo meu corpo, quentinha mas não o suficiente para queimar minha pele. Meu corpo ainda está muito fraco, minhas colunas doem em especial do lado direito, o ferimento de fac.a incomoda bastante. Meu rosto ainda está com arranhões, agora cicatrizando.
Lavo meu cabelo também, aproveitando o shampoo de Daemon. Tenho trabalho para me secar, dói em várias partes e em especial nos ferimentos onde arde, faço uma careta enquanto passo gentilmente a toalha por cima dos pontos.
Quando saio do banheiro o quarto felizmente está vazio e consigo me vestir tranquilamente. Meu corpo está pedindo cama, já estou meio curvada para a direita graças a dor nas colunas, e eu não quero abusar mais do que já fiz, então deito.
Passa um tempo até que Daemon aparece. Seus olhos passam por mim, verificando como eu estou.
— O café e o chocolate estão prontos. — Avisa. Eu já tinha esquecido disso com tudo que aconteceu. — Mas deixe-me olhar esse machucado primeiro.
Daemon já vai pegar no banheiro a maleta de primeiros socorros e vem até mim. Ele para ao lado da cama e senta ao meu lado, sem nem esperar minha permissão.
— Eu posso fazer isso agora, você não precisa se preocupar.
— Levante a camisa. — Ele finge não ter ouvido. Eu abro a boca para contestar. — Levante, Marian, eu comecei e vou terminar.
Como se ele previsse minha resposta ele mesmo continua, e eu não tenho muito o que fazer. Ele já me trocou de qualquer forma, então me ver de cueca que é praticamente um short e um pouco da minha barriga não vai ser pior que isso. Faço como ele falou e ergo a camisa até acima do umbigo.
Daemon toca o cós da cueca e abaixa um pouco, seus dedos roçando a pele da minha barriga. Não consigo controlar o arrepiar que se espalha em meu corpo, me fazendo tremer sob a ponta dos seus dedos. Ele me encara, engolindo seco, e voltando a se concentrar no que precisa fazer. Felizmente, ele não diz nada.
Ele limpa a ferida, passando uma pomada cicatrizante em seguida e não coloca curativo dessa vez.
— Vamos deixar o machucado respirar um pouco. — Explica. — E as costelas quebradas, devem se recuperar em algumas semanas.
— Então era isso a dor. — Eu também tenho costelas quebradas além dos machucados visíveis e a concussão.
— Sentiu dores? Aonde?
— Aqui. — Aponto a lateral da minha barriga e ele vem com aquela mão enorme em direção, eu tremo. — Cuidado.
Daemon acena com a cabeça e toca, fecho os olhos, sentindo o calor de suas mãos, que apesar do frio permanece quente não sei como ou porque. Os dedos são ásperos, e a sensação deles na minha pele me faz apertar as coxas disfarçadamente – pelo menos eu espero que seja de forma disfarçada.
— Ah. — Gemo com a dor. Ele aperta os dedos entre meus ossos o mais delicadamente que consegue, mas ainda dói.
— Dói? — Concordo com a cabeça. — Eu já imaginava que você tinha fraturas pelo jeito que estava deitada e o inchaço. Como eu disse, vai melhorar mas precisa repousar algumas semanas, e vamos colocar bastante gelo. Vou pegar um pouco de água e te dar analgésicos.
— Você é médico, ou já foi um dia? — Franzo o cenho.
— Não. Eu só tenho muito tempo livre agora. Leio bastante. — Explica.
— Hum... — Penso.
— Eu já volto.
Abaixo a camisa novamente e espero. Daemon traz um copo com água e uma bolsa de gelo, tomo um analgésico e coloco a bolsa sobre as costelas. Depois, ficamos os dois deitados na cama, ele me fazendo companhia com uma xícara de café e um livro na mão. Eu preferi o chocolate quente mesmo, delicioso.
Olho para o livro dele algumas vezes, tentando ver sobre o que está lendo, e só consigo perceber que é algo sobre investimentos. Hora ele é médico, hora parece dono de empresa, e as vezes, uma fera raivosa.
Daemon é uma incógnita. Eu me sinto segura com ele, tranquila, sinto verdade. Mas ao mesmo tempo eu sei que há muito mais sobre ele, há algo que ele esconde. Não posso culpa-lo, eu sou apenas uma estranha. Mesmo assim, eu ainda sinto como se fosse algo que eu devesse me preocupar – uma espécie de sexto sentido.
O que está por trás da sua história, Daemon?
Será que tão r**m quanto a minha parece, ou pior?