07 - Cão de Raça

1010 Words
Cão de Raça Narrando Eu tava de boa na minha goma, largado no sofá, celular na mão, mente meio desligada, quando a Diene me ligou. Atendi já sabendo qual era a intenção. Diene é daquelas mulher que chama atenção onde passa, bonita pra Carälho, corpo que provoca até santo, zero frescura. Vive dizendo que só dá pra mim. Trabalha lá na loja do asfalto, mas quando eu chamo ou quando precisa de alguma coisa, corre. Ela sabe que comigo não falta nada. — Tá aonde? — ela perguntou, voz cheia de manha. — Em casa. Qual foi? — Tô com saudade, daquelas. Não pensei duas vezes. Desci pra encontrar com ela. Sempre uso um dos barracos vazios, é mais seguro. Na casa dela não rola, mora com a vó, a tia e um priminho pequeno. Na minha casa eu não levo ninguém. Regra é regra. Chegamos no barraco e foi aquele clima de sempre. Não preciso entrar em detalhe. Diene é intensa, não trava, não faz cena. Gosta de sentir que tá comigo, que eu tô no controle. Eu sei conduzir, sei o que faço. Mas uma coisa é certa: camisinha sempre. Depois da Jane, nunca mais dei mole com isso. Vacilo custa caro demais. Quando acabou, ela ficou ali, deitada, respirando fundo, querendo prolongar aquele momento. Eu já tava em pé, resolvendo minhas coisas, descartando o preservativo, vestindo a roupa. — Vai embora já? — ela perguntou, meio emburrada. — Vou. — Poxa, custa ficar um pouco? Deita aqui comigo, troca uma ideia. Parei, olhei pra ela sério. — Custa — respondi seco. — Não sou homem de frescurinha. Não tenho tempo pra ficar deitado curtindo nada. Fica tu aí. Ela bufou, virou pro lado, pegou a chave do barraco. — Depois eu entrego pro Memeu ou pro Carioca. Nem respondi. Vesti a camisa e saí. Sem olhar pra trás. Não é frieza, é sobrevivência. Sentimento demais atrapalha. Apego enfraquece. Fui direto pra casa. O caminho todo com a cabeça cheia. Quando cheguei, tirei a roupa, tomei um banho demorado, água fria pra esfriar a mente. Vesti só um calção e me joguei na cama. Mas nem foi aquele descanso tranquilo. Deitei virado pro lado, mandíbula travada, pensamento acelerado. Vida de chefe é assim. Ninguém vê o peso, só vê o topo. A responsa não dorme. A gente nunca sabe que hora a bomba vai estourar. Pode ser madrugada, pode ser de manhã, pode ser agora. Então tem que estar sempre alerta. Sempre pronto. Fechei os olhos, mas o sono não vinha fácil. Barulho lá fora, rádio ligado baixo, celular do lado da cama. Um olho fechado, outro aberto. Porque no meu mundo, relaxar demais é pedir pra cair. Levantei cedo, como sempre. Corpo acostumado, mente em alerta. Nada de preguiça. Fiz minha rotina certinha: acordei, lavei o rosto na água fria pra espantar qualquer resto de sono, dei uma alongada básica e fui direto pro café. Café forte, preto, daquele que acorda até defunto. Caneca cheia, sem açúcar. Disciplina é isso aí, não importa se tu é chefe, soldado ou rei do morro. Quem relaxa demais vira estatística. Peguei a moto e fui pro QG. O dia já começou com BO. Um dos pontos tava com problema, vapor querendo crescer mais do que devia, confundindo hierarquia. Cheguei chegando. Chamei o cara no canto, troquei ideia firme, sem grito, sem show. Aqui funciona assim: quem respeita, permanece. Quem atravessa o caminho, cai. Resolvido. Dei ordem, ajustei escala, cobrei resultado. Ser chefe não é mandar por mandar, é manter tudo girando sem deixar a máquina travar. Quando já era quase meio-dia e quarenta. Memeu encostou do meu lado. — Bora almoçar, cão. Parmegiana de carne hoje no bar do Bil. Aquela que tu gosta. Levantei uma sobrancelha. Parmegiana daquele lugar é sacanägem de boa. Não pensei muito. — Vambora. Eu, Memeu e Carioca descemos juntos. Assim que parei a moto e desci, vi. Ela. Em pé, atendendo uma mesa onde tava um dos meus vapores. Postura reta, avental, cabelo preso, concentrada. Aquilo me pegou desprevenido. Memeu me olhou e abriu um sorriso de mërda. — Para de babar, pörra. Mostrei o dedo do meio pra ele. — Vai tomar no cü. Carioca fez cara de quem não tava entendendo nada. — Tô boiando. — O chefe tá xonadinho na morena — Memeu falou, rindo. Os dois começaram a rir feito dois palhaços. Eu fiquei sério. Não tinha graça nenhuma. Memeu gritou chamando ela. — Isadora! Ela veio na nossa direção. Quando levantou os olhos e cruzou com os meus, eu senti. Vacilo puro. Um segundo só, mas senti. Ela respirou fundo, se recompôs e anotou os pedidos. Educada, profissional nota dez. Saiu, voltou com minha cerveja e a dos moleques, colocou tudo certinho e saiu de novo. Enquanto isso, eu de ouvido atento, mas os olhos, os olhos não desgrudavam dela. Os caras tudo se derretendo, jogando gracinha, e ela ali, firme, sem dar a******a. Isso diz muito. Nem sei o que os dois Pateta estavam falando na mesa. Minha cabeça tava em outro lugar. Ela voltou com os pratos. Parmegiana perfeita, cheiro absurdo. Memeu, abusado como sempre, mandou: — Valeu, Isa. Quando ela saiu, eu encarei ele. — Se toca, Carälho. O nome dela é Isadora. Chama a mina pelo nome, babaca. Ele começou a rir mais ainda. Carioca perdeu o controle e gargalhou. Comemos. Eu mäl senti o gosto, de verdade. Quando terminamos, falei: — Memeu, tu vai pagar minha conta. — Não vou. — Vai. No fim, ele pagou. Meti a mão no bolso, puxei os 300 conto que tinha, entreguei pro Carioca. — Deixa de gorjeta pra Isadora. Memeu arregalou o olho, pagou a comida dele e a minha. — Amanhã a gente volta. Tu paga a minha. — Não. A gente volta, eu pago só a minha. E se tu falar demais, tu paga de novo. Voltei pro QG. Mas a cabeça ficou lá. Aqueles olhos castanhos assustados, aquela boca carnuda. Mano, eu tô pecando demais desejando essa mina. E isso, pra mim, é perigoso.
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