Os dias que antecederam a gala foram uma loucura. Reuniões, telefonemas, entrevistas… parecia que todos queriam um pedaço de mim. Eu deveria estar no auge da minha confiança, mas, em vez disso, sentia um peso enorme sobre os ombros.
A cada novo contato da imprensa, a cada número que meu contabilista apresentava, a mesma pergunta martelava na minha cabeça: Será que vou dar conta de tudo?
E, como se não bastasse, havia Lara. Ela se esforçava para parecer calma, mas eu conhecia cada detalhe dela — o jeito como mordia o lábio quando estava nervosa, como evitava meu olhar quando não queria me preocupar. Eu sabia que a gravidez a deixava mais sensível e, mesmo assim, não conseguia parar de arrastá-la para esse furacão que era minha vida.
Naquela tarde, Leonardo apareceu no meu escritório.
— Você vai ter que aprender a lidar com os holofotes, Theo. — disse, acendendo um charuto sem pedir licença. — Hoje, você não é só o jovem gênio da tecnologia. Você é um símbolo.
Revirei os olhos.
— Não quero ser símbolo nenhum. Só quero proteger a Lara e o nosso filho.
Ele riu, balançando a cabeça.
— E vai proteger, mas precisa entender: quanto maior você fica, mais pessoas vão tentar te derrubar.
As palavras dele ecoaram fundo. Eu sabia que era verdade.
Em casa, encontrei Lara escolhendo vestidos com ajuda da mãe e da estilista que Leonardo havia recomendado. Ela experimentava um modelo vermelho, longo, que realçava suas curvas suaves.
Fiquei parado na porta, sem conseguir respirar por alguns segundos.
— Meu Deus, Lara… — murmurei. — Se aparecer assim na gala, ninguém vai olhar pra mais ninguém.
Ela riu, corando.
— Para, Theo… você fala como se eu fosse uma celebridade.
— Pra mim, você é. — respondi, sem pensar.
A estilista sorriu, meio constrangida, e saiu discretamente da sala, nos deixando a sós. Eu me aproximei, deslizei os dedos pela cintura dela e encostei minha boca no ouvido dela.
— m*l posso esperar pra mostrar ao mundo que você é minha.
Ela suspirou, mas logo afastou meu rosto com as mãos.
— Theo, lembra do que combinamos. Não quero que sua riqueza ou seu status apaguem quem você é. Nem quem nós somos.
Assenti devagar.
— Eu sei. E é justamente por isso que preciso de você lá. Porque, se um dia eu esquecer quem eu sou, você vai me lembrar.
A noite da gala se aproximava, e, com ela, o turbilhão de emoções. Eu estava prestes a ser reconhecido como o empresário mais jovem e bem-sucedido do país. Mas, ao mesmo tempo, sentia que algo maior estava em jogo.
Não era só sobre negócios. Não era só sobre dinheiro.
Era sobre o que eu e Lara estávamos construindo juntos.
E eu sabia, no fundo do meu coração, que aquela noite mudaria tudo.
A noite havia chegado. O carro preto deslizou suavemente pela entrada do luxuoso hotel onde a gala seria realizada, e, do lado de fora, flashes explodiam como pequenos relâmpagos. O motorista abriu a porta para mim, e logo em seguida para ela.
Lara surgiu, e naquele instante, eu tive certeza de que nenhuma câmera no mundo seria capaz de captar a verdadeira beleza que eu via.
Ela usava um vestido longo, de seda azul-marinho profundo, que se ajustava perfeitamente ao seu corpo. O decote delicado em formato de coração realçava a feminilidade dela, enquanto as costas nuas, levemente cobertas por um tule transparente cravejado de cristais, a deixavam ao mesmo tempo elegante e sensual. Seus cabelos estavam presos em um coque baixo, com algumas mechas caindo suavemente e emoldurando o rosto. O brilho sutil da maquiagem destacava ainda mais os olhos que sempre me desmontavam.
Eu, de smoking preto sob medida, gravata borboleta de seda e sapatos de verniz, segurava sua mão como se fosse a jóia mais valiosa de toda aquela noite.
— Está perfeita — murmurei em seu ouvido, e vi o rubor colorir suas bochechas.
— E você… está parecendo saído de um sonho — ela respondeu, e apertou minha mão.
Entramos juntos no salão principal, e a sofisticação do ambiente parecia ter sido projetada para impressionar reis e rainhas. Lustres gigantes de cristal iluminavam o espaço com um brilho dourado. O teto, alto e trabalhado em arabescos, refletia as luzes como se estivessem em um palácio. Mesas redondas com toalhas de seda branca estavam dispostas com arranjos de flores raras e velas flutuantes. Os garçons circulavam discretamente com bandejas de champanhe francesa e pratos finos.
O ar cheirava a perfume caro, e o burburinho de vozes misturava-se ao som delicado de um quarteto de cordas.
Todos pareciam olhar para nós, e Lara ficou levemente tensa, como se não estivesse acostumada a ser o centro de tanta atenção. Inclinei-me e disse baixinho:
— Hoje, amor, você não é apenas a mulher mais linda da sala. Você é a razão de tudo isso existir.
Ela sorriu, tímida, mas seus olhos brilhavam de emoção.
Quando meu nome foi anunciado, subi ao palco. O microfone me aguardava, e centenas de olhos também. Respirei fundo, não por nervosismo profissional, mas porque aquele momento tinha muito mais valor do que qualquer discurso de negócios.
— Senhoras e senhores — comecei, a voz firme. — Quando eu decidi criar minha empresa, muitos disseram que era loucura, que era arriscado demais, que era impossível. Hoje, diante de vocês, anuncio que o impossível se tornou realidade.
Pausas estratégicas. Olhares atentos. Eu continuei:
— Ontem, a nossa empresa atingiu o marco histórico de se tornar oficialmente milionária. E não vamos parar por aqui. Em breve, abriremos nossas primeiras filiais na Itália e na Inglaterra. Este é apenas o começo.
O salão explodiu em aplausos, brindes e assobios. Eu sorri, agradeci, mas, no fundo, só procurava um olhar: o dela. Lara estava em pé, batendo palmas, com os olhos marejados de orgulho.
Aquele era o meu verdadeiro prêmio.
Após discursos, fotos, cumprimentos e um jantar que parecia saído de revistas de alta gastronomia, eu segurei a mão de Lara e disse:
— Preciso te mostrar uma coisa.
Ela riu, desconfiada:
— Outra surpresa? Você já me surpreendeu demais hoje.
— Confia em mim — respondi, guiando-a até o elevador privativo que nos levou ao topo do edifício.
Quando as portas se abriram, vi seu rosto se transformar.
O terraço estava completamente decorado. Flores brancas — suas preferidas — enfeitavam cada canto, espalhadas em vasos altos e delicados arcos florais. Lanternas de cristal pendiam, iluminando o espaço com uma luz suave. O vento noturno trazia o perfume das flores misturado ao frescor da cidade vista do alto. Ao fundo, um quarteto de cordas tocava discretamente, a melodia suave preenchendo o ar.
Lara levou as mãos ao rosto.
— Theo… isso é… é mágico.
Segurei-a pela cintura e sussurrei em seu ouvido:
— Nada é mágico demais comparado com você, meu amor.
Dei o sinal, e o céu escuro se iluminou. Drones começaram a voar, desenhando formas com luzes cintilantes. Primeiro, um coração gigante. Depois, lentamente, as letras começaram a se formar, brilhando contra a noite estrelada:
“LARA, QUER SE CASAR COMIGO?”
Ela ficou sem palavras, lágrimas rolando pelo rosto. Eu me ajoelhei diante dela, abrindo a pequena caixa de veludo azul. O anel, um diamante lapidado rodeado de pedras menores, refletia a luz dos drones.
— Lara… — minha voz falhou, mas continuei. — Desde que entrou na minha vida, eu soube que nada seria igual. Você me mostrou o que é amar de verdade, o que é ter um lar, mesmo sem paredes ao redor. Eu não prometo perfeição, mas prometo estar ao seu lado em cada passo, em cada conquista, em cada dor, em cada riso. Você e o nosso filho são os meus bens mais preciosos. Casa comigo e me deixa ser o homem que vai te amar por todos os dias da vida?
Ela soluçou, incapaz de conter a emoção.
— Sim… sim, Theo! Eu quero casar com você!
O quarteto aumentou o tom, e os drones formaram fogos de luz no céu. Levantei-me e a beijei com paixão, como se naquele instante todo o mundo tivesse desaparecido, restando apenas nós dois e o infinito acima de nossas cabeças.
E naquele beijo, naquele abraço, eu soube: nossas vidas jamais seriam as mesmas.