O resto do show foi maravilhoso, terminamos ele por volta das duas da manha. O lugar já estava fechando e nós arrumando as coisas para podermos ir embora. Voltaram as mesmas pessoas que foram. No carro a Manu já estava cansada, sua cabeça estava encostada no vidro e com os olhos fechados, aquilo era a coisa mais linda que eu já vi. A Rua estava vazia, deserta na verdade. Eu fiquei olhando pra ela como se fosse à coisa mais importante que eu tivesse pra fazer no momento. Em um minuto eu estava acariciando o seu rosto e no outro tudo estava preto
Quando abri os olhos minha visão estava toda embasada, mas foi melhorando aos poucos, eu conhecia aquele lugar, uma sala branca com alguns detalhes em azul claro. Virei minha cabeça para um lado e minha mãe dormia na poltrona, olhei pro outro e uma enfermeira mexia no soro
-senhor Castiel, que bom que acordou- eu não respondi- já estou saindo- disse, pegou sua prancheta, olhou algumas coisas e depois saiu
Assim que ela fechou a porta a minha mãe acordou, devo admitir ela estava linda grávida. A barriga estava começando a aparecer, essa mulher é muito forte, essa deve ser a pior fase da gravidez, enjôos, desejos etc. e ela nunca me pediu nada, ao contrario está aqui comigo. Ela se levantou e se sentou na ponta da cama me olhando com toda a atenção do mundo
-está bem?
-estou, mas... O que aconteceu?- ela suspirou
-você sofreu um acidente
-onde?
-na a.v São José (a.v Fictícia, ou melhor, não sei se ela existe)
De repente eu me lembrei de tudo, olhei pros lados, mas só a minha cama estava ali, meu coração começou a acelerar com o pensamento de a Manu ter morrido
-ei- minha mãe- calma
-onde está a Manu- ela suspirou novamente
-no quarto ao lado
-eu quero vê-la- eu disse tentando me levantar
-filho- ela disse segurando o meu braço
-eu quero falar com ela- me levantei e comecei a andar até a porta
-filho espera- minha mãe me alcançou, mas eu com uma tremenda dificuldade me soltei dela e abri a porta
Minha cabeça girou, mas eu me apoiei no batente e fiquei ali por um segundo antes que minha mãe me alcançasse novamente e sai. Fui no primeiro quarto que vi e abri a porta, eu vi ela, por uma frestinha, atrás de médicos e mais médicos. Ela tinha tubos na boca e nas veias, seus olhos estavam fechados como na noite anterior, mas ela não estava calma e serena, eu sentia sua dor e seu sofrimento. Eu fiquei paralisado ali sem saber o que fazer
-ei, não pode entrar aqui- uma mulher seria me disse
Eu não respondi, nem se quer me mexi, continuei ali, parado só olhando para o rosto pálido da Manu. Como eu pude deixar isso acontecer? Como eu pude fazer isso com ela? Meu Deus eu sou um mostro. Eu não conseguia movem nenhum músculo sequer. Eu conseguia ver a enfermeira gritando com o dedo apontando para porta atrás de mim, eu sentia meu coração apertar cada vez mais, minha visão foi ficando embaçada até eu sentir meu corpo cair mole no chão. Mesmo eu sentindo e ouvindo médicos e enfermeiros a minha volta, me levantando, eu não conseguia pensar em mim, a única coisa em que eu pensava era *como pude fazer isso com a Manu?*
Eu ouvia tudo, sentia tudo, via tudo, por mais que tivesse tudo borrado eu ainda via. Vi a minha mãe na porta do quarto aflita e depois ficou me olhando enquanto um enfermeiro me colocava na cama, alguém me deu algum remédio pelas veias e depois disso meu olho foi pesando e pesando até se fecharem por completo e eu me ver num lugar escuro
-ei, o que faz ai? Vem!- uma voz conhecida me dizia bem longe- Castiel! O que esta esperando?
Eu estava num campo de flores, la longe eu via alguém acenando freneticamente pra mim, era a Manu. Seus cabelos cacheados dansavam conforme o vento os conduzia, seu vestido leve e verde fazia o mesmo. Ela tinha flores nas mãos. Eu corri até la e assim que demos as mãos ela evaporou
-vem, Cast eu estou aqui- e la longe ela de novo me chamava
Isso aconteceu várias e várias vezes. Toda vez que eu a tocava por um milésimo de segundo ela sumia e aparecia ainda mais longe. Isso me irritava toda vez mais um pouco, chegou uma hora em que eu estava explodindo, eu pensei em desistir de ir atrás dela e voltar, cheguei até virar as costas, mas toda vez que isso acontecia eu escutava gritos, não me chamando e sim gritos de dor, eu me virava e la estava ele, o Viktor lhe dando uma surra, e eu voltava a correr, corria com todo o meu fôlego, com toda a minha vontade, mas isso me desgastava
Eu corri tanto que cheguei a um lago e quando vi meu reflexo eu quase cai para trás, já estava velho, com cabelos brancos. Quanto tempo eu passei correndo atrás dela? Quando tempo eu vou ter que esperar? Eu olhei para o lado e a vi, com uma família linda e grande. Também de idade, mas com filhos e netos ao seu redor e eu... sozinho, sem nada e nem ninguém
Cada vez que eu ouvia a sua risada meu coração se apertava, chegou uma hora em que a dor era insuportável, era como se meu coração pegasse fogo, então eu cai para trás, o campo que outrora era lindo e colorido, agora era pálido e cinza, as flores quase todas murchas, o céu estava nublado ameaçando uma chuva forte. Meu corpo não se mexia, eu vi um raio e depois pingos de chuva me acertarem como tiros de uma metralhadora, minha visão foi se ofuscando cada vez mais e quando se apagou por completo eu acordei num pulo