Vicenzo Florentino

907 Words
Fiquei encarando minha mãe. Conheço aquele sorriso. E conheço o jeito exato como ela tenta transformar tragédia em piada quando a coisa é séria demais para ser dita em voz alta. — Mãe… — chamei, firme. — O que a senhora sabe e não está me contando? — Nada! — Ela riu, nervosa demais. — Preciso falar com sua tia. Virou-se já andando. — Continuem fazendo o que estavam fazendo. Ela saiu tão rápido que o vento quase me atingiu o rosto. Fiquei parada, sentindo o peso do silêncio que ela deixou para trás. — Ela está escondendo alguma coisa. — murmurei. Demir continuava ao meu lado. Não tentou me acalmar. Isso eu respeitei. — Só nos resta descobrir o que é. — disse. — Eu só não sei como… — respondi, sentindo o estômago apertar. — Quando minha mãe acha que está me protegendo, ela não conta nada. E isso sempre significa que o perigo já passou da porta. Samira saiu do restaurante direto para o hotel. Não olhou para trás. Nem respirou direito até fechar a porta do apartamento e trancá-la. Uma vez. Duas. Sílvia se levantou no mesmo instante. — O que aconteceu agora? — perguntou, tensa. — Yaman descobriu a farsa? Samira passou a mão pelo rosto. — Pior. — respondeu. — Vicenzo está aqui. Engoliu em seco. — Foi ao restaurante. Sílvia empalideceu. — Meu Deus… o que vamos fazer? Samira caminhou até a janela, olhando a cidade como se calculasse rotas de fuga. — Eu ainda não sei. — Admitiu, a voz baixa. — Mas se Yaman descobrir que Isabella não está casada… Fechou os olhos por um segundo. — Ou se Vicenzo descobrir isso… Virou-se de volta para a irmã. — Vou ter que sumir com Isabella de novo. — Não vou deixar minha filha virar moeda de troca da máfia italiana. O silêncio que caiu foi absoluto. E pela primeira vez… Nem Samira tinha certeza de que conseguiria vencer essa guerra. ___ A luz da tarde entrava pela janela ampla do escritório de Yaman, dourada demais para o tipo de conversa que estava prestes a acontecer. Vicenzo Florentino observava o ambiente com calma, como se avaliasse um território que em breve lhe pertenceria. — Passei no restaurante hoje — disse, enfim. — Hora do almoço. Fez uma pausa curta, estratégica. — Fui conhecer minha prometida. E confesso… você não exagerou. Linda, inteligente e geniosa. É exatamente o tipo de mulher que se destaca. A mulher perfeita para estar ao meu lado. Yaman não se deu ao trabalho de convidá-lo a sentar. Ficou de pé, com os braços apoiados na mesa. — Eu te mandei uma cesta de frutas e uma explicação. — Rebateu. — Pedi para esperar. Disse estar resolvendo alguns assuntos. Vicenzo sorriu de canto, tranquilo demais. — Se você chama de “assuntos” minha prometida estar casada com outro homem, então não. — Aproximou-se um passo. — Eu já estou resolvendo isso. — E você achou mesmo que uma cesta de frutas e um bilhetinho educado iam me manter longe? — completou, quase com pena. Yaman respirou fundo. — Eu só não quero que minha filha me odeie. Se ela estiver realmente casada com o cozinheiro, eu arrumo outro jeito de quitar minha dívida com você. O olhar de Vicenzo escureceu por um segundo. Só um. — É simples. — respondeu, como se explicasse um cálculo óbvio. — É só fazer dela uma viúva. O silêncio caiu pesado. — Não. — Yaman foi direto. — Não faça nada. Se minha filha estiver apaixonada pelo marido, ela vai nos odiar. E você não vai querer uma mulher que pode te m***r enquanto você dorme. Vicenzo riu baixo. — Você sempre teve esse defeito… — ajeitou o paletó. — Acreditar que amor muda contratos. Antes de sair, lançou o golpe final: — Eu não tenho pressa, Yaman. Mas as dívidas não desaparecem. E sua filha… já entrou no jogo. A porta se fechou devagar, deixando Yaman sozinho, encarando o entardecer como quem entende tarde demais que o dia ainda está longe de acabar. Ahmet se aproximou, mas não disse nada. Conhecia aquele olhar. Era o mesmo de quando Yaman precisava decidir entre mandar m***r alguém ou cometer suicídio corporativo enfrentando Vicenzo Florentino. — Ahmet… — Yaman falou por fim, passando a mão pelo rosto. — Chame todos os meus advogados. Todos. — Com todo respeito, senhor… — Ahmet hesitou, medindo cada palavra — não acredito que exista advogado capaz de resolver isso. Yaman soltou um riso curto, sem humor. — Então me diga você. — Virou-se, o olhar duro. — O que eu faço? Deixo Vicenzo m***r meu genro e corro o risco de minha filha me odiar pelo resto da vida? Ahmet respirou fundo. — Talvez seja o momento de chamar dona Isabella. Contar tudo. Deixar que ela participe da decisão. Encontrar o melhor caminho… juntos. O silêncio caiu como um t**a. — Eu? — Yaman endireitou a postura, indignado. — Yaman Karaman pedindo ajuda a uma mulher? Ele caminhou até a janela, encarando a cidade como se pudesse intimidá-la. — Nunca. — Concluiu. — Vou dar um jeito. E, se possível… sem ninguém morrer. Ahmet abaixou levemente a cabeça. Sabia que, quando Yaman dizia “se possível”, significava apenas uma coisa: Alguém ia pagar essa conta. Ele só esperava que não fosse ele próprio, porque são sempre os peões que caem antes dos reis.
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