Fazendo Börek

1067 Words
Fui para o quarto e olhei para a cama como quem observa uma armadilha montada pelo próprio destino. Isso estava ficando muito perigoso. Muito mesmo. Não dava para confiar em mim com um homem daqueles respirando a menos de cinco metros. Voltei para a sala antes que minha sanidade pedisse demissão e encontrei um motivo perfeito para fugir da tensão: comecei a separar os ingredientes do Börek. Pastéis recheados, massa temperamental, que precisava descansar a noite inteira. A desculpa perfeita, praticamente aprovada pelo Ministério das Emergências Românticas. Enquanto cortava cebolas e mexia farinha, ouvi o chuveiro ecoando pelo apartamento. O barulho da água deixou um frio subindo pela minha coluna, lembrando que naquele exato instante existia um homem nu no banheiro… e eu estava completamente sozinha com ele. Se fosse um filme, aquela música sensual já teria começado. Deus me livre. DEMIR Saí do banho alguns minutos depois, esfregando o cabelo com uma toalha. E não tinha nada, a cama estava vazia. Estranhou ao não ver a tradicional fortaleza de travesseiros e nem a esposa encolhida até as orelhas na cama. Vestiu apenas a calça do pijama, com aquela tranquilidade irritante de quem sabe exatamente o que causa nos outros, e foi procurá-la. Achou Bell na cozinha, amassando algo com mais força do que a receita pedia. — O que você está fazendo? Perguntou, já desconfiando das intenções dela. — Vou fazer Börek, e você sabe que a massa tem que crescer a noite toda. Respondi como se estivesse explicando para alguém que nunca viu farinha na vida. Demir ficou me observando com aquela expressão que dava vontade de jogar farinha na cara dele. Ele estava pensando, eu sei que estava. “Será que ela acha que isso vai me manter longe? Eu também sou cozinheiro.” Ele começou a andar pela cozinha como se aquilo tudo fosse uma coreografia ensaiada. Abriu armários, separou ingredientes, até pegou o queijo certo sem perguntar. A audácia. Eu não aguentei e falei, tentando soar tranquila, madura e totalmente no controle da situação, o que era mentira. — Demir… pode ir se deitar. Vou fazer o Börek, você não precisa ficar aqui. Ele abriu um sorriso perigoso. Aquele sorriso que deveria vir com etiqueta de aviso: “Não chegar perto se tiver coração fraco”. Veio até mim. Muito perto. Imprudentemente perto. Vou ficar aqui com você. E vou te ajudar. Assim nos conhecemos melhor. Pegou um avental como quem pega uma arma secreta. Vestiu-me devagar, deslizando o tecido pelos meus ombros. Quando ele se abaixou para dar o laço atrás, a mão dele encostou levemente nas minhas costas e eu segurei a respiração como se dependesse da minha sobrevivência. E quando ele colocou o próprio avental e pediu para eu amarrar o dele… Aí eu quase desmaiei. Aquilo ali já não era cozinha. Era um teste de resistência emocional. Ele sabe o que está fazendo. Não pode ser coincidência. Amarrei devagar, sentindo a respiração dele nas minhas mãos, sentindo o calor que subia pelas minhas bochechas como se o forno tivesse ligado sozinho. Ele quer me enlouquecer. E o pior… está conseguindo. Por um tempo, parecia que a massa ia desandar com tanta tensão no ar. Mas amo cozinhar, e Demir também, então gradualmente encontramos um tipo estranho de harmonia: eu cuidava da massa e ele dos recheios. — De qual recheio você gosta mais? Ele perguntou. — Como o de espinafre e o de carne moída. — Por que você não come o pastel de queijo? É uma delícia. — Sou alérgica a alguns tipos de queijo… e como não dá para saber qual mistura tem o que me faz m*l, prefiro não comer nenhum. — É muito grave essa sua alergia? — Bastante. A última vez que tive uma crise foi na faculdade. Uma amiga fez um doce e pediu para eu experimentar. Eu nem imaginei que tinha queijo e comi. Acordei no hospital. — Então, se eu quiser ficar viúvo, é só te dar queijo? Eu ri, mesmo sabendo que sim… eu poderia morrer. Já era madrugada quando começamos a rechear os Börek. — Vou te ensinar um jeito mais fácil de fechar os pastéis — ele disse, já se posicionando atrás de mim. Ele pegou um garfo e, segurando as minhas mãos com as dele, foi pressionando a borda do pastel. — Assim é bem melhor… vê como ele fica bem fechado? Falou baixo, perto demais da minha orelha. Eu já não sabia se amassava a massa ou se saía correndo. O calor era demais, quase insuportável. Por um instante, eu quase deixei o garfo cair, porque ele estava atrás de mim como se fosse a coisa mais natural do mundo e segurando as minhas mãos. As duas. As dele eram quentes, grandes, firmes… e colocadas em mim com a maior inocência criminosa já vista na culinária otomana. Eu não sabia se amassava o Börek ou se rezava. Ele provavelmente achava que estava só… ajudando ou não, eu ainda não consigo entender Demir. Claro. Igual a uma fogueira, “ajuda” o palito de fósforo. — Assim, Bell… vê? A voz dele veio quente, quase encostando na minha nuca. A borda fica mais fechada. Falando como um professor que ensina uma técnica nova para um aluno. — Sim, Demir. Estou vendo. A borda do pastel. A minha já estava aberta em pânico. Ele continuou guiando minhas mãos e eu sentia cada movimento no meu corpo inteiro, como se o Börek tivesse virado um ritual pagão e eu fosse a oferenda. — Está com calor? Ele perguntou, ainda atrás de mim e tão próximo que eu não sabia onde eu acabava e ele começava. Eu queria rir, chorar, fugir ou beijá-lo. Nenhuma opção parecia segura. — A cozinha está quente. Respondi, tentando bancar a cientista. Fogo, forno… — Hum. Ele assentiu como se estivesse analisando um dado técnico. Deve ser isso. Claro, Demir. É o forno. Não tem nada a ver com o fato de você estar praticamente me abraçando enquanto respira no meu pescoço. Pensei em dizer, mas acho melhor não falar. Ele soltou minhas mãos… mas não se afastou. Se inclinou ao meu lado, pegou outro pedaço de massa e começou a selar as bordas com o garfo, igual tinha me mostrado. Eu já havia cozinhado com ele, mas não desta forma, a minha mente estava me pregando peça, me deixando mais vulnerável ainda.
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