Sou prisioneira sem algemas

1432 Words
Confirmei pela internet. Não por Demir, porque não o deixei falar. Nem por aviso. Por um link que uma colega me mandou com três pontos de exclamação e zero delicadeza. “Chef Demir Osman cria o Prato da Noiva e reacende rumores de casamento.” Rolei a tela devagar, como quem lê sentença. Foto do restaurante. Foto do meu prato. Texto inflado, cheio de “fontes próximas”, especulação barata e aquele tom nojento de quem acha que a vida alheia é entretenimento. Meu nome não estava ali, graças a Deus. Mas eu sabia exatamente quem havia começado aquilo. UMUT. — Filho da mãe… — murmurei sozinha, fechando o celular. Ele acha que descobriu meu segredo, que me tem nas mãos. No restaurante, o clima era outro. Gente comentando, rindo, apostando. O tipo de fofoca que cresce porque ninguém sente o impacto direto. Eu sentia. Joaquim se aproximou, cauteloso. — Bell… isso não tem a ver com você, tem? — Não. — Respondi rápido demais. — E mesmo que tivesse, não foi escolha minha. Ele me olhou preocupado. Odeio este tipo de olhar. — Vamos trabalhar, Joaquim, a fofoca vai esfriar, você vai ver. Mesmo contrariado, voltou para suas panelas e eu tentando entender como entrei nessa fria, minha mãe vai me m***r. --- Demir só apareceu à noite. E, quando apareceu, parecia… cansado. Não tenso. Nem arrogante. Cansado de verdade. Entrou na cozinha como se entrasse em um ringue, esperando minha explosão. — Eu não fiz isso. — Foi a primeira coisa que disse, antes mesmo de eu abrir a boca. Entrelacei os braços. — Eu sei que não partiu de você. — Mas partiu do mundo que te protege quando você fica em silêncio. Ele piscou, surpreso. — Sabe? — Sei reconhecer dedo sujo quando vejo. — respondi. — Umut. Só tem um problema, ele não sabe o que acha que sabe. Demir respirou fundo, passando a mão pelos cabelos. — Ele disse que estava “me ajudando”. — Claro. — Dei um meio sorriso ácido. — Pessoas adoram ajudar causando incêndios que não vão ter como apagar. O silêncio caiu entre nós, pesado, mas diferente. Não era mais desafio. Era dano colateral. — Vou consertar isso. — Ele disse. — Não vai. — Respondi, firme. — Porque agora virou narrativa. E a narrativa não se desfaz. Só se substitui. Ele me encarou. — Então você sabe como isso termina. Suspirei. Peguei o passaporte da bolsa e abri na página que eu já tinha decorado. — Sabe o que mais não se desfaz? — Virei o documento para ele. — Data de retorno. Ele leu. Entendeu. Na hora. — Você não pode ir embora. — Não antes do curso acabar. — confirmei. — E não porque quero ficar. Porque tenho que ficar. A não ser, é claro, que você me mande embora, mas não vai fazer isso, ou vai? Isso mudou o eixo. Vi no rosto dele. — Não vou, mas também não pretendo te prender em nada. — disse baixo. — Como imaginei. — Respondi. — Você poderia me mandar embora e encerrar isso. — Não faz porque sabe que, se eu sair agora, a história vira outra… e ninguém aqui controla mais nada. Silêncio. — Kaya vai aparecer. — Ele avisou. — E vai acreditar em tudo que dissermos. Fechei o passaporte devagar. — Então agora eu não estou aqui por escolha… nem por você. Levantei o olhar. — Estou aqui porque alguém decidiu brincar de estratégia com vidas reais. Demir assentiu. — Umut cruzou um limite. — E você vai pagar o preço. — Completei. — Assim como eu. E o senhor Kaya não é bobo, tome cuidado com ele. Nos encaramos. Não como inimigos e também não como aliados. Mas, como duas pessoas empurradas para o mesmo incêndio sem roupas de p******o. — Amanhã — ele disse — você não precisa fingir nada. Sorri, cansada. — Preciso sim. — Respondi. — Porque se eu não fingir, eu perco tudo. E isso… não está nos meus planos. Guardei o passaporte. — Mas não confunda. Eu não fico porque quero ou por você. Fico porque o mundo e seu amigo decidiram por mim. Afastei-me antes que ele respondesse. E, pela primeira vez desde que tudo começou, ficou claro: o problema não era o noivado falso. Era o fato de que ninguém ali estava jogando limpo. — Umut entrou no restaurante como fazia todo santo dia: direto pela porta dos fundos, direto na cozinha, como se aquele lugar fosse uma extensão da própria casa. Abriu a geladeira, mexeu em uma panela, cheirou um molho. Totalmente à vontade. Levantei o olhar. Ele percebeu na hora. Percebeu minha expressão. Percebeu Demir parado perto da bancada, rígido demais, escolhendo cada palavra como se o chão fosse feito de vidro. Umut sorriu. Ah, ele sorriu. — Boa noite! — disse, animado, ignorando completamente o clima pesado. — Só se for para você. — Respondi, seca, sem levantar a voz. Ele deu uma risada curta. — Para com isso, Bell. Você deveria estar feliz. Seu prato está famoso — apontou com o queixo na direção de Demir. — E vai ser a noiva do chef Demir Osman. Já pensou? Eu estava com uma faca na mão. Grande. Afiada. Por um segundo muito real, imaginei arrancando os olhos dele e largando na pia ao lado das cebolas. Terapêutico. — Você não faz ideia do que está fazendo. Falei baixo. — Não tinha o direito de me expor como fez. — Eu não expus você, expus o prato da noiva. — Umut respondeu sem hesitar, dando de ombros enquanto finalmente pegava algo para comer. — A única coisa que sei é que agora não tem mais volta. Demir se mexeu, desconfortável. — Umut… — começou. — Já chega disso. —… cresci com você. Dividi pão duro, chão frio e silêncio. — Mas não foi para isso. Não para usar alguém como moeda. Mas Umut não estava falando com ele. Estava falando comigo. — Você vai fingir ser a noiva dele. — continuou. — Ou então, coloco muito mais do que o prato no jornal. O ar sumiu da cozinha. Minha mão apertou o cabo da faca com força suficiente para os dedos ficarem brancos. — Você é um desgraçado. — murmurei. Foi aí que Demir entrou de vez. — Isso está errado. — disse firme, dando um passo à frente. — Você não pode ameaçá-la. — Se ela disser não, acabou. — Perdi muita coisa na vida, Umut. Não vou começar a perder caráter agora. Umut virou devagar. O sorriso ainda está lá. Mais frio agora. — Jura que agora vai ficar do lado dela? — Arqueou a sobrancelha. — Estou te defendendo. Defendendo o que construímos, você não pode estar tão cego. — Não desse jeito. — Demir rebateu. — Nós já fizemos coisas erradas para sobreviver. — Mas isso aqui não é sobrevivência. É uma escolha. — E essa escolha não fala por mim. Umut riu. Sem humor. — Você sempre colocou o restaurante na frente de tudo. — Depois, voltou os olhos para mim. — E por causa dela que você está mudando? Senti o estômago revirar. Umut continuou como se fosse o dono da história, ele ainda não entendeu que é um coadjuvante. — A única coisa que você tem que fazer, Bell — ele continuou, calmo demais — é fingir ser a noiva do meu amigo. Só isso. Sorrir, aparecer, não falar demais como uma boa mulher de um turco. Só isso. Como se “só isso” não fosse uma prisão inteira. Larguei a faca devagar sobre a bancada. O som seco ecoou na cozinha. — Você cruzou uma linha que ele nunca cruzou. — E é por isso que isso vai cair no seu colo, não no dele. Falei, olhando direto para ele. — E, quando isso explodir, não venha dizer que não foi avisado. Umut deu de ombros. — Explosões rendem manchetes. Demir fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, eu vi: culpa. Raiva. Medo. Ali ficou claro para mim, de uma vez por todas: Eu não estava lidando com um acordo. Nem com um favor. Muito menos com um jogo de aparências. Estava lidando com chantagem. E com um homem que havia passado do limite… Enquanto o outro pagaria o preço de não tê-lo imposto antes. Presa pela data no passaporte, pelo curso, pelo silêncio forçado… Eu era a única ali que não havia escolhido nada. E agora tinha uma bomba relógio nas mãos e, quando explodisse, ia sacudir a Turquia inteira.
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