Celebridade Turca

915 Words
Cheguei com Demir no térreo e, quando o elevador abriu, senti o cheiro da humilhação antes mesmo de pisar no saguão. Aisha conseguiu mobilizar o prédio inteiro. Todas as empregadas do condomínio estavam lá, enfileiradas como se estivessem esperando a entrada de um ator de novela turca e sua co-protagonista. Só um detalhe precisava ser corrigido: Eu não era co-protagonista. Eu era a… invasora de território. As empregadas, que eram até ontem discretas, agora pareciam um fã-clube profissional m*l organizado. Estavam todas juntas no saguão como se estivessem indo para o tapete vermelho do Festival de Cannes. Cada uma mais surtada que a outra. Algumas choravam. Outras riam como se tivessem ganhado na loteria. E três… três me olharam como se eu tivesse roubado o homem delas. Respirei fundo. E lembrei de uma regra básica da vida: Se enfrentei Yaman, eu enfrento um batalhão de funcionárias apaixonadas. Demir, claro, entrou no modo protagonista. Passou a mão pelos cabelos com aquele gesto treinado de pavão em época de acasalamento. A camisa aberta mostrava exatamente o que não deveria estar mostrando num dia estressante. Ele praticamente anunciava: olhem como sou irresistível, até casado. Fui andando ao lado dele porque minha mãe praticamente selou minha alma com o mandamento: caminhe como uma esposa em lua de mel ou eu te deserdarei. Passei pelo corredor de mulheres suspirantes como quem atravessa uma guerra silenciosa. Todas encarando meu véu. Meu vestido. Minha mão presa na dele. E Demir só apertava mais os meus dedos, como se estivesse gostando demais da plateia. O pavão s****o. Mantive a postura. Que é o que uma mulher criada na Turquia e treinada no Brasil sabe fazer muito bem: parecer calma enquanto planeja mentalmente dar um t**a em alguém. Ainda bem que eu não era mulher dele. Se fosse, já teria distribuído ordens — ou tapas. Mas… Quando Demir olhou para mim, aquele olhar quente, satisfeito, orgulhoso. Alguma coisa se mexeu dentro de mim. Fora do controle. Um troço estranho. Forte. Tipo alguém batendo na porta do meu peito e dizendo: Ei, abre aqui que esse casamento falso não vai continuar tão falso assim. Engoli seco, virei o rosto e fingi que estava irritada com as empregadas. Mas não era só isso. Tinha algo crescendo ali. Algo que eu não queria nomear ainda. Algo que ele também parecia sentir. Porque não largou minha mão nem por decreto. E Yaman, lá longe, seu exército de olhos e ouvidos, certamente já estava recebendo cada detalhe. Ótimo. Que ele veja. Porque eu mesma não sei mais onde isso vai dar. Chegamos ao restaurante e a loucura estava enorme. Umut abriu a porta do carro e eu tive certeza, absoluta, definitiva. Eu tinha me casado com uma celebridade turca. E ninguém tinha me avisado. Foi tudo tão rápido que o ar pareceu sumir. Do nada, um mar de gente. Luzes piscando. Gritos. Microfones surgindo de todos os lados. Câmeras me seguindo como se eu fosse a nova queridinha das novelas. Eu sabia que Demir Osman era um “chef famoso”. Eu mesma vim do Brasil para fazer estágio no restaurante desse homem. Mas esse circo? Essa histeria coletiva? Isso aí ninguém me contou. Assim que cheguei à porta do restaurante e senti o primeiro flash na cara, minha alma saiu do corpo e voltou correndo antes que eu caísse dura no chão. Demir entrou no modo estrela. Sorriso pronto. Postura ensaiada. Público garantido. Abriu o sorriso de propaganda de perfume, passou a mão no cabelo e ajeitou a gola da camisa como se tivesse nascido para esse tipo de atenção. Eu já ia me afastar. Fugir para o meu canto. Fazer de conta que ele era só um chef aleatório e não meu… marido. Mas aí eu vi. Do outro lado da rua. Encostado no veículo como uma sombra treinada para m***r sem fazer barulho… O homem de confiança do meu pai. Meu estômago virou. O sangue ficou gelado. E meu cérebro gritou EMERGÊNCIA, o meu corpo reagiu antes de mim. Abri um sorriso tão convincente que daria inveja à atriz de Hollywood. E peguei na mão de Demir. A mão dele estava quente. Firme. E, quando ele olhou para mim, não parecia o chef famoso, o pavão, o irritante que rouba meu travesseiro. Parecia um homem que não entendeu nada. Assustado. Mas… não recuou. Pelo contrário. Ele levou minha mão até os lábios. Sem perguntar. E beijou. Não um beijo rápido, protocolar. Nem um toque de fachada. Um beijo lento. Fino. Seguro. Tão flex que perdi o ar. Perdi o eixo. Perdi a linha. Até a consciência momentaneamente, porque o mundo sumiu e só ficou o toque dele na minha pele. E aí sim, entendi por que as empregadas queriam me m***r. Entramos no restaurante e o barulho lá dentro estava tão insano quanto lá fora. Gente subindo em cadeira, celular levantado, elogios misturados com surto coletivo. Eu me agarrei ao braço dele porque era isso ou eu ia tropeçar no meu próprio pé. Aí, no meio do caos, reparei num detalhe que deveria ser pequeno. Mas não era. Joaquim não estava ali. E isso era errado demais. Acendeu uma luz vermelha no fundo da minha nuca. Porque com tanta coisa acontecendo, ele jamais teria perdido essa cena. Respirei fundo. Segurei mais firme a mão do meu marido de mentira e caminhei para o interior da tempestade de flashes. Depois penso no Joaquim. E depois penso em tudo. Agora… Eu só precisava sobreviver ao show. ##
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