Entrei na cozinha com uma decisão firme.
Firme mesmo.
Nada aconteceu.
Nada foi dito.
Ele não escutou nada.
Delete permanente.
O beijo.
A confissão involuntária.
O pavão ouvindo tudo.
Nada disso existia.
Exceto que…
Demir estava sentado à mesa.
Cabelo solto.
Camisa branca com dois botões abertos — revelando aquele V indecente no peito.
Postura relaxada, pernas abertas, sorriso de quem já acordou ganhando.
— Vem… sente-se, Isabella. — disse, saboreando meu nome como quem morde um Börek quente.
Respirei fundo e sentei do outro lado.
Ele se levantou imediatamente.
— Não precisa… — tentei.
Inútil.
Demir puxou a cadeira para ficar ao meu lado. Perto demais.
Como se a mesa fosse apenas um detalhe decorativo.
Pegou o pão.
A faca.
Cortou lentamente, no meio, com precisão cirúrgica.
— Demir, eu sei cortar pão. — falei seca.
— Eu sei, querida. — respondeu, impassível.
— Mas, como bom marido… devo te alimentar.
Bufei.
Meu verbo oficial da manhã.
Ele colocou o pão no meu prato, depois esticou o braço até o outro lado da mesa para pegar a manteiga.
O bíceps dele roçou meu ombro.
Meu corpo travou como se tivesse levado um choque direto de testosterona pura.
— Você está me esmagando. — Reclamei.
— Desculpa… — murmurou.
Não se afastou.
Nem mudou a postura.
Só sorriu. Aquele sorriso criminoso.
Passou manteiga no pão.
Para mim.
Claro.
Serviu o chá.
Para nós dois.
— Você está impossível hoje. — Murmurei.
Ele analisou meu rosto vermelho com calma excessiva.
— Deve ser a empolgação da lua de mel.
Me ofereceu outro pedaço de pão, segurando pela ponta, como se estivesse alimentando um animal arisco.
Tudo em mim gritava: não se apaixona, criatura!
Mas aceitei o pão.
Porque estava divino.
Nosso olhar ficou preso por um momento, Demir ameaçou chegar mais perto, pensei:
Ele vai me beijar, mas fui salva pela porta.
Que se abriu com violência.
— EU NÃO VOU! — Samira entrou disparada.
— NÃO ME LEVEM!
— NÃO ME ARRASTEM!
— NÃO ME COLOQUEM NO MESMO ESPAÇO QUE AQUELE HOMEM!
Eu e Demir trocamos um olhar perfeitamente sincronizado.
— Uhum. — Respondemos juntos, tomando chá.
Ela parou, ofegante.
— ESTOU FALANDO SÉRIO!
— Aquela ilha vai ser uma TORTURA!
Demir, calmo como quem comenta o preço do café:
— Já terminou de arrumar suas malas?
— Arrumar minhas… ma — EU NÃO VOU, DEMIR!
— Uhum.
Ela se virou para mim, desesperada:
— Bell, minha filha… você sabe que eu não posso ficar uma semana respirando o mesmo ar que seu pai!
— Relaxa, mãe. — respondi. — O máximo que pode acontecer é você se apaixonar de novo.
Samira empalideceu.
— Você quer que eu MORRA? E não sabe o que está dizendo.
Demir riu baixo.
— NÃO SE META! — Ela apontou para ele.
— Por sua causa, vou ter que mentir para meu ex-marido por uma semana!
— Eu só queria um café da manhã em paz. — respondeu, erguendo as mãos.
— PAZ?! — Samira riu, histérica. — Vocês forjaram um casamento e querem PAZ?!
Nós dois:
— Uhum.
— Dois loucos. — bufou ela.
— Só lembrando que quem falsificou os documentos foi você… — Demir comentou.
— Eu só queria um noivado falso.
— Fiz pela minha Belinha, seu pavão e******o!
Antes que a briga escalasse, a porta abriu novamente e Aisha entrou, e com ela entraram Umut, Silvia e Joaquim.
Joaquim parecia alguém pedindo asilo político.
— Eu não vou. — anunciou, trêmulo.
— Se eu pisar naquela ilha, vou desaparecer em 48 horas.
— O que aconteceu agora? — Arqueei a sobrancelha.
— O QUE ACONTECEU?! — ele gritou.
— Yaman disse que, se a escuta falhasse, ia me caçar como um coelho!
— Foi só para te assustar. — Tentei.
— E CONSEGUIU! — ele berrou. — É UMA ILHA PRIVADA!
— QUEM SOBREVIVE A UMA ILHA PRIVADA?!
Demir quase cuspiu o chá.
— Joaquim… meu sogro não vai te m***r.
— Quero meus órgãos completos! E, se possível, dentro do meu corpo.
Umut surgiu atrás dele comendo uma torrada.
— Eu vou. — disse feliz.
— Ilha linda, piscina, jet ski, comida farta… e Silvia, minha deusa loira.
— Não inventa. — Silvia resmungou. — Tenho alergia a turco.
— Se você namorar comigo, viro carioca da gema. — Ele respondeu em português, confiante. — Mesmo sem saber o que isso significa.
Silvia riu, rendida.
— Cala a boca, ou vou te mostrar como sei ser brava.
— Aceito. — Umut piscou.
Samira abriu um mapa da ilha na mesa.
— Vamos organizar. Quartos, horários, rotas, comportamentos adequados.
Demir analisou.
— Precisamos ficar juntos. Manter o teatro de casal perfeito e manter nossos órgãos no lugar.
— Não adianta. — Respondi. — A ilha é do meu pai. Ele decide tudo.
Samira levantou a mão.
— Quero ficar LONGE dele.
— Se possível, na ala feminina.
— Ele nunca deixou você usar a ala feminina. — Silvia lembrou. — Nem quando eram casados.
— Mas agora não sou esposa!
— Mesmo assim… — Demir suspirou. — Vamos ficar todos juntos.
Samira cedeu, derrotada.
— ENTÃO QUERO UMA PORTA TRANCANDO MEU QUARTO!
— E a Silvia comigo!
— Quero um colete à prova de balas. — Joaquim levantou a mão. — E vou dormir com o Umut.
— Sem problema, tendo buffet liberado para mim. — Umut sorriu. — Quartos grandes ajudam.
Olhei para Silvia.
Ela sorriu de volta.
Sabia que aquela viagem ia ser pior que qualquer novela turca.
Demir respirou fundo.
— Está decidido.
— Depois de amanhã… missão lua de mel.
Samira chorou.
Joaquim gritou.
Umut bateu palmas.
Joguei a cabeça na mesa.
Demir observou o caos como se fosse só mais um dia normal.
E eu, narradora honesta, só posso afirmar:
A ilha não vai sobreviver a essa família.
Demir colocou o mapa novamente sobre a mesa como se estivesse planejando invadir um país — e não visitar uma ilha paradisíaca com quatro adultos emocionalmente instáveis e uma futura… talvez… quase esposa que fingia não estar completamente entregue ao charme dele.
Eu.
Sou essa pessoa.
Respirei fundo, tentando me concentrar no mapa, mas o homem cheirava a sabonete caro, café turco e… destruição emocional.
— Isabella, concentre-se. — Ele disse, sem sequer olhar para mim.
Ah, claro.
Ele conseguia sentir que eu estava encarando o pescoço dele como se fosse patrimônio tombado pela UNESCO.
— Estou concentrada. — respondi, ofendida.
“A mentira mais descarada já contada dentro de uma cozinha.”
Samira arrancou o mapa das mãos dele, como se realmente acreditasse naquele pedaço de papel.
— Aqui! — apontou para um ponto aleatório. — Me coloca neste canto.
Demir inclinou a cabeça, analisando.
— Sogra… isso é uma pedra no meio do mar.
— Ótimo. — Ela rebateu. — Companhia perfeita.
Joaquim levantou metade do corpo da cadeira, pálido, tremendo.
— Onde fica a saída?
— A saída de quê? — perguntei, já rindo.
— DA ILHA, BEL! DA ILHA!
— Joaquim… é uma ilha, não um supermercado. — Respondi.
Umut terminou a torrada, limpou os dedos na calça e bateu palmas.
— Tem praia, sol, mulheres brasileiras… biquíni. Quero andar de jet ski.
Demir passou a mão no rosto como quem sente dor física.
— Não. — disse, com a calma perigosa de um monge armado.
— Por quê? — Umut perguntou, genuinamente confuso.
— Porque você causaria um incidente internacional.
— Verdade. — Concordei, dando apoio para Demir.
Samira abriu a bolsa.
Juro que pensei que ela ia tirar um lenço.
Mas não.
Ela tirou um terço.
Minha mãe recorreu a Deus.
A situação estava oficialmente grave.
— Eu não tenho estrutura emocional para isso. — Murmurou. — Vou morrer naquela ilha. Seu pai vai me olhar com aquele ar turco arrogante… e eu vou ter uma síncope.
Silvia entrou na conversa, firme:
— Se controle, Samira. Ou quem vai colocar tudo a perder será você.
Demir apontou para ela, como um advogado citando cláusulas invisíveis.
— Sogra, você só precisa seguir três regras:
Não fuja.
Nem grite.
Não ameace ninguém com o chinelo.
Samira cruzou os braços.
— Então vai ser impossível. Vou bater no Yaman no primeiro dia. Principalmente se ele ameaçar a Bell.
— Não vai. — Demir respondeu, seco. — Você precisa demonstrar controle. É isso ou não saímos vivos de lá.
Joaquim levantou a mão outra vez.
— Posso levar pimenta?
— Pra quê? — perguntei.
— Autodefesa.
— Contra meu pai? — perguntei, horrorizada.
— Sim. — Ele afirmou, sério. — Você pode até não saber, mas seu pai é da máfia.
Silvia riu, incapaz de se segurar.
— Joaquim é mais esperto do que imaginei.
— Joaquim… — suspirei. — Isso é suicídio. Ele ia rir e te carregar no braço igual a um saco de arroz.
— É isso que estou dizendo! — ele gritou, desesperado. — EU NÃO QUERO VIVER NADA DISSO!
Demir fechou o mapa.
Com força.
— Acabou. — decretou.
— O momento de reclamações terminou.
— Nós vamos.
— Vai dar tudo certo.
— E ninguém vai morrer.
Samira enxugou lágrimas inexistentes.
Silvia não pareceu convencida.
Joaquim rezou em espanhol.
Umut pediu panquecas.
E eu… olhei para Demir.
Ele cruzou os braços.
O peito se movendo daquele jeito irritantemente hipnótico.
E o sorriso… ah, aquele sorriso.
— Preparada, Isabella? — ele perguntou.
— Pra quê? — respondi, desconfiada.
Ele se inclinou devagar.
Perto demais.
Quente demais.
Perigoso demais.
— Para sobreviver… à nossa lua de mel.
Engasguei com o próprio oxigênio.
Samira desmaiou no sofá — por puro drama.
Joaquim começou a ligar para o seguro de vida.
Umut desenhou um jet ski num guardanapo e mostrou para Silvia, orgulhoso.
E eu concluí, com absoluta certeza:
Essa lua de mel vai fazer história.
A ilha que se prepare.
Porque nós?
Nós já estamos condenados.