Que comecem os jogos

1645 Words
Entrei na cozinha com uma decisão firme. Firme mesmo. Nada aconteceu. Nada foi dito. Ele não escutou nada. Delete permanente. O beijo. A confissão involuntária. O pavão ouvindo tudo. Nada disso existia. Exceto que… Demir estava sentado à mesa. Cabelo solto. Camisa branca com dois botões abertos — revelando aquele V indecente no peito. Postura relaxada, pernas abertas, sorriso de quem já acordou ganhando. — Vem… sente-se, Isabella. — disse, saboreando meu nome como quem morde um Börek quente. Respirei fundo e sentei do outro lado. Ele se levantou imediatamente. — Não precisa… — tentei. Inútil. Demir puxou a cadeira para ficar ao meu lado. Perto demais. Como se a mesa fosse apenas um detalhe decorativo. Pegou o pão. A faca. Cortou lentamente, no meio, com precisão cirúrgica. — Demir, eu sei cortar pão. — falei seca. — Eu sei, querida. — respondeu, impassível. — Mas, como bom marido… devo te alimentar. Bufei. Meu verbo oficial da manhã. Ele colocou o pão no meu prato, depois esticou o braço até o outro lado da mesa para pegar a manteiga. O bíceps dele roçou meu ombro. Meu corpo travou como se tivesse levado um choque direto de testosterona pura. — Você está me esmagando. — Reclamei. — Desculpa… — murmurou. Não se afastou. Nem mudou a postura. Só sorriu. Aquele sorriso criminoso. Passou manteiga no pão. Para mim. Claro. Serviu o chá. Para nós dois. — Você está impossível hoje. — Murmurei. Ele analisou meu rosto vermelho com calma excessiva. — Deve ser a empolgação da lua de mel. Me ofereceu outro pedaço de pão, segurando pela ponta, como se estivesse alimentando um animal arisco. Tudo em mim gritava: não se apaixona, criatura! Mas aceitei o pão. Porque estava divino. Nosso olhar ficou preso por um momento, Demir ameaçou chegar mais perto, pensei: Ele vai me beijar, mas fui salva pela porta. Que se abriu com violência. — EU NÃO VOU! — Samira entrou disparada. — NÃO ME LEVEM! — NÃO ME ARRASTEM! — NÃO ME COLOQUEM NO MESMO ESPAÇO QUE AQUELE HOMEM! Eu e Demir trocamos um olhar perfeitamente sincronizado. — Uhum. — Respondemos juntos, tomando chá. Ela parou, ofegante. — ESTOU FALANDO SÉRIO! — Aquela ilha vai ser uma TORTURA! Demir, calmo como quem comenta o preço do café: — Já terminou de arrumar suas malas? — Arrumar minhas… ma — EU NÃO VOU, DEMIR! — Uhum. Ela se virou para mim, desesperada: — Bell, minha filha… você sabe que eu não posso ficar uma semana respirando o mesmo ar que seu pai! — Relaxa, mãe. — respondi. — O máximo que pode acontecer é você se apaixonar de novo. Samira empalideceu. — Você quer que eu MORRA? E não sabe o que está dizendo. Demir riu baixo. — NÃO SE META! — Ela apontou para ele. — Por sua causa, vou ter que mentir para meu ex-marido por uma semana! — Eu só queria um café da manhã em paz. — respondeu, erguendo as mãos. — PAZ?! — Samira riu, histérica. — Vocês forjaram um casamento e querem PAZ?! Nós dois: — Uhum. — Dois loucos. — bufou ela. — Só lembrando que quem falsificou os documentos foi você… — Demir comentou. — Eu só queria um noivado falso. — Fiz pela minha Belinha, seu pavão e******o! Antes que a briga escalasse, a porta abriu novamente e Aisha entrou, e com ela entraram Umut, Silvia e Joaquim. Joaquim parecia alguém pedindo asilo político. — Eu não vou. — anunciou, trêmulo. — Se eu pisar naquela ilha, vou desaparecer em 48 horas. — O que aconteceu agora? — Arqueei a sobrancelha. — O QUE ACONTECEU?! — ele gritou. — Yaman disse que, se a escuta falhasse, ia me caçar como um coelho! — Foi só para te assustar. — Tentei. — E CONSEGUIU! — ele berrou. — É UMA ILHA PRIVADA! — QUEM SOBREVIVE A UMA ILHA PRIVADA?! Demir quase cuspiu o chá. — Joaquim… meu sogro não vai te m***r. — Quero meus órgãos completos! E, se possível, dentro do meu corpo. Umut surgiu atrás dele comendo uma torrada. — Eu vou. — disse feliz. — Ilha linda, piscina, jet ski, comida farta… e Silvia, minha deusa loira. — Não inventa. — Silvia resmungou. — Tenho alergia a turco. — Se você namorar comigo, viro carioca da gema. — Ele respondeu em português, confiante. — Mesmo sem saber o que isso significa. Silvia riu, rendida. — Cala a boca, ou vou te mostrar como sei ser brava. — Aceito. — Umut piscou. Samira abriu um mapa da ilha na mesa. — Vamos organizar. Quartos, horários, rotas, comportamentos adequados. Demir analisou. — Precisamos ficar juntos. Manter o teatro de casal perfeito e manter nossos órgãos no lugar. — Não adianta. — Respondi. — A ilha é do meu pai. Ele decide tudo. Samira levantou a mão. — Quero ficar LONGE dele. — Se possível, na ala feminina. — Ele nunca deixou você usar a ala feminina. — Silvia lembrou. — Nem quando eram casados. — Mas agora não sou esposa! — Mesmo assim… — Demir suspirou. — Vamos ficar todos juntos. Samira cedeu, derrotada. — ENTÃO QUERO UMA PORTA TRANCANDO MEU QUARTO! — E a Silvia comigo! — Quero um colete à prova de balas. — Joaquim levantou a mão. — E vou dormir com o Umut. — Sem problema, tendo buffet liberado para mim. — Umut sorriu. — Quartos grandes ajudam. Olhei para Silvia. Ela sorriu de volta. Sabia que aquela viagem ia ser pior que qualquer novela turca. Demir respirou fundo. — Está decidido. — Depois de amanhã… missão lua de mel. Samira chorou. Joaquim gritou. Umut bateu palmas. Joguei a cabeça na mesa. Demir observou o caos como se fosse só mais um dia normal. E eu, narradora honesta, só posso afirmar: A ilha não vai sobreviver a essa família. Demir colocou o mapa novamente sobre a mesa como se estivesse planejando invadir um país — e não visitar uma ilha paradisíaca com quatro adultos emocionalmente instáveis e uma futura… talvez… quase esposa que fingia não estar completamente entregue ao charme dele. Eu. Sou essa pessoa. Respirei fundo, tentando me concentrar no mapa, mas o homem cheirava a sabonete caro, café turco e… destruição emocional. — Isabella, concentre-se. — Ele disse, sem sequer olhar para mim. Ah, claro. Ele conseguia sentir que eu estava encarando o pescoço dele como se fosse patrimônio tombado pela UNESCO. — Estou concentrada. — respondi, ofendida. “A mentira mais descarada já contada dentro de uma cozinha.” Samira arrancou o mapa das mãos dele, como se realmente acreditasse naquele pedaço de papel. — Aqui! — apontou para um ponto aleatório. — Me coloca neste canto. Demir inclinou a cabeça, analisando. — Sogra… isso é uma pedra no meio do mar. — Ótimo. — Ela rebateu. — Companhia perfeita. Joaquim levantou metade do corpo da cadeira, pálido, tremendo. — Onde fica a saída? — A saída de quê? — perguntei, já rindo. — DA ILHA, BEL! DA ILHA! — Joaquim… é uma ilha, não um supermercado. — Respondi. Umut terminou a torrada, limpou os dedos na calça e bateu palmas. — Tem praia, sol, mulheres brasileiras… biquíni. Quero andar de jet ski. Demir passou a mão no rosto como quem sente dor física. — Não. — disse, com a calma perigosa de um monge armado. — Por quê? — Umut perguntou, genuinamente confuso. — Porque você causaria um incidente internacional. — Verdade. — Concordei, dando apoio para Demir. Samira abriu a bolsa. Juro que pensei que ela ia tirar um lenço. Mas não. Ela tirou um terço. Minha mãe recorreu a Deus. A situação estava oficialmente grave. — Eu não tenho estrutura emocional para isso. — Murmurou. — Vou morrer naquela ilha. Seu pai vai me olhar com aquele ar turco arrogante… e eu vou ter uma síncope. Silvia entrou na conversa, firme: — Se controle, Samira. Ou quem vai colocar tudo a perder será você. Demir apontou para ela, como um advogado citando cláusulas invisíveis. — Sogra, você só precisa seguir três regras: Não fuja. Nem grite. Não ameace ninguém com o chinelo. Samira cruzou os braços. — Então vai ser impossível. Vou bater no Yaman no primeiro dia. Principalmente se ele ameaçar a Bell. — Não vai. — Demir respondeu, seco. — Você precisa demonstrar controle. É isso ou não saímos vivos de lá. Joaquim levantou a mão outra vez. — Posso levar pimenta? — Pra quê? — perguntei. — Autodefesa. — Contra meu pai? — perguntei, horrorizada. — Sim. — Ele afirmou, sério. — Você pode até não saber, mas seu pai é da máfia. Silvia riu, incapaz de se segurar. — Joaquim é mais esperto do que imaginei. — Joaquim… — suspirei. — Isso é suicídio. Ele ia rir e te carregar no braço igual a um saco de arroz. — É isso que estou dizendo! — ele gritou, desesperado. — EU NÃO QUERO VIVER NADA DISSO! Demir fechou o mapa. Com força. — Acabou. — decretou. — O momento de reclamações terminou. — Nós vamos. — Vai dar tudo certo. — E ninguém vai morrer. Samira enxugou lágrimas inexistentes. Silvia não pareceu convencida. Joaquim rezou em espanhol. Umut pediu panquecas. E eu… olhei para Demir. Ele cruzou os braços. O peito se movendo daquele jeito irritantemente hipnótico. E o sorriso… ah, aquele sorriso. — Preparada, Isabella? — ele perguntou. — Pra quê? — respondi, desconfiada. Ele se inclinou devagar. Perto demais. Quente demais. Perigoso demais. — Para sobreviver… à nossa lua de mel. Engasguei com o próprio oxigênio. Samira desmaiou no sofá — por puro drama. Joaquim começou a ligar para o seguro de vida. Umut desenhou um jet ski num guardanapo e mostrou para Silvia, orgulhoso. E eu concluí, com absoluta certeza: Essa lua de mel vai fazer história. A ilha que se prepare. Porque nós? Nós já estamos condenados.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD