A escuta

1725 Words
Quando os seguranças do senhor Yaman me largaram na porta do restaurante, eu já tinha decidido meu plano. Simples. Brasileiro. E eficiente. Entrar. Correr para a cozinha. Lavar panela. Bell estaria cozinhando. Demir, preso no aquário de vidro dele. Portas fechadas. Vapor, barulho, faca batendo, panela chiando. Ninguém escuta nada na cozinha. Nem Deus. Estaríamos protegidos. Era só isso. Só que o universo, esse desgraçado criativo, decidiu mudar o roteiro. Assim que atravessei a porta do restaurante, dei de cara com o caos. Não um caos qualquer. Caos brasileiro-turco diplomático. A tia Silvia estava no meio do salão com uma vassoura na mão, avançando em um repórter como quem defende território. — FALEI PARA SAIR! — gritava, empurrando o homem para trás. — ISSO AQUI NÃO É SAFÁRI! O repórter tropeçou numa cadeira. Dois fotógrafos recuaram. A vassoura subiu de novo. Eu congelei. Do outro lado, Samira observava tudo em silêncio, postura impecável, mãos cruzadas à frente do corpo, expressão calma demais. Foi aí que caiu a ficha. Agora que eu conhecia Yaman, eu reconhecia aquele olhar. O mesmo olhar predador. Não o de quem grita. O de quem espera. Umut tentava conter Silvia com palavras rápidas, nervosas demais para surtirem efeito. — Silvia, por favor, isso não é o momento… Ela nem piscava. E, como se não bastasse, Bell e Demir discutiam perto do balcão. — Avisei que aquele cutelo não era pra usar daquele jeito! — Demir falava baixo, tenso. — SEI USAR UMA FACA, DEMIR! — Bell rebateu, irritada. — Ele que não aguentou. — Você quebrou um cutelo de estimação! — QUEBREI UM OBJETO, NÃO UM CASAMENTO! Perfeito. Era isso. O inferno completo. Meu plano de invisibilidade morreu ali, pisoteado pela vassoura da tia Silvia. Fingi naturalidade. O clássico brasileiro: se eu fingir que está tudo bem, talvez fique. Já estava passando direto, em direção à cozinha, quando ouvi a voz que podia me m***r. — Joaquim! Travei por dentro. Sorri por fora. Bell se virou para mim com aquele sorriso perigoso de quem sabe demais. — Onde você se enfiou? — ela disse. — Perdeu nossa chegada triunfal no salão… e o pavão com a cauda aberta. Dei uma risada exagerada. Alta. Desnecessária. Calculada. Tia Silvia parou. Dona Samira me encarou desconfiada. — Nossa, Bell… — falei, abrindo os braços. — Isso sim, que é amor! Admiro o carinho com que você fala do seu marido. Demir franziu a testa. Bell estreitou os olhos. Ela deu dois passos na minha direção. — Joaquim… — disse baixo. — Do que você está falando? Você sabe que— Era isso. Ela ia falar. Ia corrigir. Ia dizer exatamente o que Yaman queria ouvir. Meu cérebro entrou em modo de emergência. Movimento. Sempre em movimento. Comecei a andar rápido em direção à cozinha, falando alto demais: — DESCULPA! — anuncie. — Tô atrasado pro meu turno e as panelas não esperam! Bell piscou, confusa. Demir me observava como quem começa a desconfiar de um incêndio invisível. Passei por eles sem parar. Não podia parar. Porque colada nas minhas costas, queimando como promessa de morte, estava à escuta. E, enquanto eu andava, só pensava uma coisa: Se eu conseguir levar todo mundo para a cozinha. E se eu conseguir transformar esse caos em barulho… Talvez. Só talvez. Eu ainda saísse vivo dessa novela. E atrás de mim, no salão, a vassoura da tia Silvia desceu com força na mesa de um repórter. — EU NÃO MANDEI SAIR?! O barulho ecoou. Graças a Deus. Entrei na cozinha e, por um breve milagre, consegui respirar. Eles estão no salão. Estou na cozinha. Aqui, Yaman só ouviria o barulho das panelas, o choque do metal, o vapor subindo. Nada além disso. Nenhuma verdade. Nenhuma palavra perigosa. Por alguns segundos, me senti seguro. Quase otimista. Parecia que ia dar tudo certo. A porta da cozinha abriu. Bell entrou primeiro. Logo atrás, Demir. Pronto. O universo havia acabado de rir da minha cara. — Você é um grosso. — Bell disparou. — Vou cozinhar e acabou a discussão. — Isabella, eu não vou permitir que você fique no meio de um bando de homens. — E desde quando você tem autoridade para me dizer o que fazer? — Desde que me tornei seu marido. Meu estômago afundou. Eu já sabia exatamente onde aquela conversa ia terminar. Encostei discretamente as costas na caixa de som da cozinha. Ativei o Bluetooth. Escolhi a primeira coisa que apareceu no celular. Uma palestra motivacional. Até ali, tudo sob controle. Então, eles começaram a gritar. — Eu não me casaria com você nem que disso dependesse a minha vida! — Bell explodiu. Meu coração parou. — Mas sua mãe pensa diferente… — Demir rebateu. — E fez aquele maldito documento— Subi o volume ao máximo. Yaman não podia ouvir aquela parte. Os dois pararam de falar ao mesmo tempo e me encararam como se eu tivesse enlouquecido. Talvez eu tenha mesmo. A voz da palestra ecoou pela cozinha, alta demais, absurda demais: — Você é forte! — Você é invencível! — Você consegue superar qualquer obstáculo! Se Yaman estivesse ouvindo, ia achar que eu tinha entrado num culto. Bell arqueou a sobrancelha, desconfiada. Demir franziu o cenho com a exata expressão de quem pensa: Esse menino está passando m*l ou é doido? Mas eles voltaram a discutir. E eu, suando frio, aumentei o volume de novo. — Não deixe que nada te VENÇA! — O universo trabalha A SEU FAVOR! Beleza. Quase chorei ouvindo aquilo. Eu não estava buscando evolução pessoal. Eu estava tentando sobreviver à máfia. Trabalhando contra Yaman. Com uma palestra de autoajuda. Se isso não fosse desespero brasileiro… Eu não sei mais o que era. Eles saíram e eu relaxei, por mais algumas horas estou vivo e cuidando do meu couro. Quando chegou a hora de fechar, eu já tinha decidido. Eu precisava dar um jeito de mostrar a eles a escuta. Assim entenderam que não podiam falar livremente perto de mim. O problema? Não dava para ir no veículo com os dois. Bell e Demir estavam num nível: gato e rato profissional. Se arranhavam o tempo todo. Qualquer frase atravessada ali virava confissão gravada. — Vamos fechar e ir para casa. — anunciou Silvia, já com o tom de quem manda mais que o gerente. Eu paralisei. — Podem ir na frente… — falei rápido. — Eu ainda não acabei aqui. Mentira. Eu já tinha acabado fazia horas. Bell entrou na cozinha com aquela expressão de “eu mando”. — Para com isso, Joaquim. Vamos ao apartamento organizar os planos para amanhã. — E você faz parte disso. Meu peito apertou. Eu queria chorar. Queria gritar: NÃO FALEM EM PLANO. TEM UMA ESCUTA NAS MINHAS COSTAS. Mas não podia. Passei por ela sem responder e fui direto para a frente do restaurante. Samira estava ali. Ela me encarou por um segundo longo demais. E eu entendi tudo. Agora que eu conhecia Yaman, eu sabia: Aquele olhar predador, ela aprendeu com ele. Ela não disse nada. E isso foi ainda pior. Quando vi, já estava no automóvel de Umut, com ele e com Sílvia. Vitória pequena. Mas vitória. Pelo menos a única briga que Yaman ia ouvir agora era… desses dois. O veículo saiu. Umut não tirava o olho de Silvia nem por decreto. — Umut, olha pra frente! — ela ralhou. — Você vai nos m***r! — Eu não consigo parar de olhar pra você, minha deusa loira… Silvia virou o rosto lentamente, doce e mortal. — Cala a boca, Umut. — Ou arranco a sua língua. Afundei no banco, fingindo ser só mais um brasileiro exausto. Por dentro, só uma coisa martelava: Ok, Joaquim… um passo de cada vez. Agora falta o mais difícil: Contar a verdade sem dizer uma palavra. Chegamos ao prédio e entramos no elevador. Tentei ficar para trás. Literalmente dei meio passo para fora. Não deixaram. As portas se fecharam com aquele plim que soa exatamente como: agora você morre, Joaquim. O silêncio durou dois segundos. — Qual lado da cama você vai querer hoje? — Demir perguntou, seco. Bell nem piscou. — Aquele em que fique mais fácil te sufocar com o travesseiro. Respirei fundo. Respirei errado. Se alguém estivesse escutando isso, ia achar que era um casamento real… Porque casal fake não se odeia com tanta naturalidade. Eu precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa. — Nossa… — soltei alto demais. — Como o amor turco é quente, olhem só para vocês. — Quem escuta essa conversa acha que vocês se odeiam, mas vejo o amor em seus olhos. Bell virou o rosto devagar. Aquele olhar. — Você está muito estranho hoje, Joaquim. Demir completou, desconfiado: — E você parece conhecê-lo muito bem, não é? O elevador subia. E minha alma descia. — Ele é meu amigo, Demir. — Bell rebateu. — Coisa que você não sabe o que é. — O único amigo que você tem é o Umut. E ainda assim… é discutível. Demir deu um meio sorriso venenoso. — Vamos parar com isso. — Samira cortou, firme… — Vocês precisam demonstrar amor, não essa guerra fria. E aí… falei demais. — Isso tudo é disfarce, dona Samira. — soltei, rindo nervoso. — Tenho certeza de que, quando estão na cama, essa agressividade acaba. Silêncio. Silêncio do tipo: parabéns, você ultrapassou a linha da sobrevivência. Demir virou num reflexo. O punho dele veio rápido demais. Eu só tive tempo de pensar: Morri! Defendendo casamento fake. Mas Sílvia entrou no meio. — Nem pense nisso, Demir. O rapaz não falou nada demais. — Pois é bom ele segurar seus pensamentos dentro da cabeça, ou eu não respondo por mim. BELL Fiquei olhando para Demir por um momento e aquele jeito possessivo me lembrou meu pai. O elevador apitou, eu já estava suando frio. E rezando para conseguir chegar vivo no final da noite. As portas abriram. Entramos no apartamento. E foi ali… Ali mesmo… Que o pânico me pegou de verdade. Porque portas fechadas significam assuntos particulares. Planos, confissões e provas que não queremos que uma certa pessoa possua. Eu sentia a escuta queimar nas costas. Eu precisava resolver isso. Agora. Antes que alguém dissesse uma única frase errada. Antes que Yaman escutasse o que não devia. E antes que esse casamento falso virasse sentença de morte… Para mim, primeiro.
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