Vão ter que morar juntos

1767 Words
Umut foi o primeiro a quebrar o silêncio. Passou a mão no cabelo, respirou fundo e soltou, claramente ofendido: — Só para constar… fiz o documento. Busquei ambas no aeroporto. Marquei o time certinho para a entrada triunfal de dona Samira. E mesmo assim, vocês estão me olhando como se eu tivesse abandonado o barco. Silvia virou o rosto devagar. — Você não ficou na porta impedindo que os homens do Yaman entrassem. Umut abriu os braços, indignado: — Eles pareciam três armários turcos! Eu ia virar suco em dois minutos! Alguém aqui prefere um herói morto ou um herói funcional? Demir resmungou, ainda com a mão no nariz: — Ele tem um ponto. — Obrigado! — Umut apontou para Demir. — Finalmente alguém lúcido nesse casamento forçado. — É melhor você nem imaginar o que pensamos de você. E temos coisas mais importantes para resolver agora. O abraço da minha tia ainda estava quente quando ela se afastou de mim. Silvia respirou fundo, como quem desliga o modo afeto e liga o modo guerra. — Tá. — Ela disse, olhando em volta. — Agora que todo mundo já chorou, riu e flertou em situação de risco, vamos ao que interessa. Umut abriu a boca. Ela levantou o dedo. — Você não. Ainda estou decidindo se gosto de você ou se só tolero porque salvou uma parte do dia. Não se esqueça de que Samira teve uma boa porcentagem na resolução dos problemas. — Eu só não sou adepto da agressividade. O papel é mais forte que a bala. Silvia estreitou os olhos, avaliando. — Covarde inteligente ainda é covarde. Umut sorriu torto. — Inteligente costuma viver mais tempo. — Veremos. — Se eu sobreviver a você, sobrevivo a qualquer bilionário com pose de mafioso. . Ela não respondeu, só sorriu de lado. Samira andou pelo restaurante devagar, observando portas, janelas, corredores, gente demais para um lugar que havia acabado de escapar de uma tragédia. — Yaman não foi embora. — Ela disse. — Ele só saiu da sala. O silêncio caiu pesado. — Meu marido é o tipo de homem que não aceita perder em público — continuou. — Ele recua, reorganiza… e volta com força dobrada. Fiquei olhando fixamente para minha mãe, ela acabou de falar meu marido. — Ele vai investigar cada detalhe — minha tia completou. — Cada rosto. Cada movimento. Samira virou para Demir pela primeira vez com atenção real. — E você… virou o centro do problema. Demir sustentou o olhar. — Já imaginei. — Senhora, sei que o momento não é propício, mas seja bem-vinda ao meu estabelecimento. — Fiz tudo isso para proteger minha filha. Vê se não estraga tudo, Samira respondeu, estreitando os olhos como uma leoa avaliando um pretendente digno de morrer devorado. Demir sorriu com aquele jeito dele: um canto de boca carregado de escárnio e charme perigoso. — Já entendi de onde minha querida esposa tirou toda a delicadeza. Samira arqueou uma sobrancelha, puro veneno. — Se você quiser delicadeza… vai ter que merecê-la. Demir engoliu seco. Umut, ao fundo, cochichou para Joaquim: — Se ele falar mais uma besteira, quem o mata dessa vez não é o Yaman. É a sogra ou a tia. Joaquim fez sinal de cruz. Demir pigarreou e disse. — Vou fazer o que for melhor para Isabella. — Ótimo. Então escuta bem. — Ela disse. — A única coisa que segura um homem como Yaman é um fato consumado. Senti o estômago apertar, minha mãe falou: fato consumado? — Casamento público. — Samira continuou. — Vida compartilhada. Rotina observável. Ela olhou para mim. — Se não parecer real… não sobrevive. Foi aí que entendi. A p******o agora vinha com preço, e pelo jeito eu quem teria que pagar. — Filha, você se enfiou num inferno… sem roupa de p******o, sem manual de instruções, sem guia turístico. Fez um carinho no meu rosto, suspirou e completou: — Vou te ajudar a sair disso, da melhor forma possível. Antes que eu pudesse falar que não me enfiei num inferno, me enfiaram, Samira olhou em volta e viu que todos estavam com medo de Yaman e deveriam mesmo, mas ela já estava acostumada a lidar com ele e assumiu o comando. Foi até a porta do restaurante, a fechou com força, e virou para os três homens (Umut, Demir e Joaquim) e soltou a bomba: — Agora, Demir e Isabella são marido e mulher. Vão ter que morar juntos e dormir no mesmo quarto. Você tem uma casa, rapaz? Fiquei sem palavras, olhando de minha mãe para minha tia que me olhava pedindo calma. Ela disse que meu pai é maluco, mas ela também não fica atrás, tentei questionar. — Mas, mãe… Samira ergue a mão num gesto dramático. — Sem “mas”. O documento é tão perfeito, nem eu… consigo achar defeito. E seu pai… bom… quando aquele homem quer saber algo, até as paredes falam. Demir engoliu seco, mas tentou manter a pose de pavão elegante. — Dormir no mesmo quarto não é tão complicado assim, afinal somos dois adultos e você é metade brasileira. Olhei para ele, desacreditada. Agora, porque morei no Brasil, tenho que ser descolada e dormir com qualquer um. — Você é um i****a! Acha que sabe tudo, mas no fundo não sabe de nada. — Eu não quero i********e nenhuma com você. Umut levanta o dedo: — Demir é um homem bom, meio lerdo, tenho que concordar, mas é bom de coração. Demir deu um suspiro alto e olhou para Samira. — Ela vai me m***r até o final da semana. Silvia dá um sorriso. — Se você fizer qualquer movimento em falso, não é com ela que tem que se preocupar. Samira dá um suspiro, coloca a bolsa em cima da mesa e explica como se estivesse narrando um sequestro diplomático: — Yaman tem gente dele espalhada pela cidade. Seguranças, amigos, vizinhos, até o padeiro deve ser informante. — Se vocês não viverem como casal… ele vai descobrir. — Se descobrir… ele anula essa palhaçada, arrasta Bell e casa ela com o escolhido dele. Agora você decide, filha. O que vai ser? Fechei os olhos, ouvi Demir se mexendo no lugar, incomodado. Minha tia soltou um resmungo e minha mãe terminou de enfiar a faca. — E o escolhido dele é um completo i****a, diga-se de passagem. Comentou Samira, revirando os olhos e forçando minha decisão. — Mãe, você nem conhece o sujeito. Vi o momento em que ela e minha tia trocaram um olhar, mas acho que foi impressão. — Querida, eu fui casada com seu pai. Sei exatamente o tipo de “i****a aceitável” que ele escolheria, mas a vida é sua, o que você quiser fazer, nós vamos te apoiar. — Isabella… é isso ou aceitar o destino que seu pai traçou para você. Pensa bem. Acho que seu pavão aqui é mais confiável. Minha tia falou como se estivesse vendendo tomates. Eu ainda tentei colocar um pouco de limite nesta loucura toda. — Eu não vou dividir a cama com esse pavão arrogante! Demir cruzou os braços, ofendido: — Sou um pavão muito confiável, são palavras de sua tia e não vou te tocar sem permissão. Joaquim, suando frio no canto: — Gente, eu li o documento três vezes e meu nome aparece em três páginas… se o senhor Yaman descobrir que isso é uma farsa, eu nunca mais volto para o Brasil. Minha avó vai achar que virei trabalhador da máfia turca… Samira dá dois tapas leves na mesa, como quem decide o destino de um país. E eu nem havia respondido se aceitava essa loucura ou não. — Bell, vamos ao seu apartamento fazer as malas. Hoje mesmo você se muda para o apartamento de Demir. — E sim, Bell… vão dormir no mesmo quarto. Porta aberta ou fechada? Tanto faz. O que importa é que as câmeras do prédio vão registrar vocês entrando e saindo juntos e, se possível, de mãos dadas, e a empregada… você tem uma empregada, não tem? E, sem esperar a confirmação, porque minha mãe acha que ter uma empregada é um item essencial, continua. — A empregada deve ver suas roupas no guarda roupa dele e vocês juntos pela casa. Fazendo coisas de casal. Olhei para o pavão e vi meu destino ligado ao dele, quase desisti, mas aí lembrei que ou com ele ou com outro terei que me casar, então que seja com ele. Demir ficou estático, acho que agora a ficha dele caiu. Vou para o interior do apartamento dele com toda a minha família. Umut só murmurou: — Meu Deus… virou novela turca mesmo. Olhei para Demir e tentei colocar em palavras o que estava pensando, mas não deu. Pensa em uma situação difícil: eu nunca dormi com um homem e não fiz outras coisas também, como vou fazer coisas de casal com Demir se nem sei o que é isso? — Só para deixar claro… você fica do seu lado da cama e não vai nem respirar para o meu lado, entendeu? Só falei para ter a impressão de que ainda tinha algum controle. Demir dá aquele sorriso torto que dá raiva e desejo ao mesmo tempo. — A gente vê isso depois, esposa. Revirei os olhos e senti meu coração dar um pulo que fingi não sentir de jeito nenhum. Demir ainda estava sorrindo quando Umut bateu palmas como quem anuncia um funeral: — Ótimo, agora que todo mundo já aceitou que a vida acabou… podemos ir? — Aceitei? Eu rosnei. — Fui arrastada emocionalmente para dentro desse acordo, e sem rota de fuga. Minha mãe olhou para mim e soltou sua teoria divina. — Eu te tirei daqui porque não queria te ver sendo forçada a se casar, mas olhando agora, acho que isso era seu destino, eu só adiei o inevitável. — E outra coisa, quando você viu a dimensão do problema que estava se metendo, porque não me chamou? — Eu não sei…achei… — Não fale mais nada, Isabella, você é tão culpada quanto eles, se tivesse contado quem era ou me chamado antes, eu tinha te tirado daqui sem problemas, agora a coisa virou pública e você terá que cumprir sua obrigação. Pois é, minhas amigas, agora minha mãe falou o que ninguém teve coragem de dizer até agora, nem eu. Eu não sei por que não a chamei. Talvez fosse orgulho. Ou talvez fosse vontade de provar que eu sabia me virar sozinha. Sei lá, talvez… eu já estivesse envolvida demais para pedir ajuda. Que Deus me proteja.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD