O rapaz da limpeza entrou no escritório assobiando baixinho, pronto para pegar o lixo e fugir antes que Demir aparecesse bufando. Mas, quando viu o prato… parou.
O prato estava vazio.
Não só vazio… parecia até polido, como se alguém tivesse passado a língua para garantir que nada tivesse sobrado ali.
Ele arregalou os olhos.
Aquilo, sim, era notícia.
Daquelas boas. Daquelas que valiam promoção.
Ou, pelo menos, um sorriso de aprovação de Umut.
Pegou o celular e ligou na hora.
— Senhor Umut, o senhor disse que era para eu te contar qualquer novidade que acontecesse.
A voz do outro lado veio imediata, curiosa:
— Sim… me diga. O que aconteceu?
O rapaz respirou fundo, dramatizando como se estivesse prestes a revelar um segredo de Estado.
— O senhor Demir pediu desculpas para a senhorita Bell.
Silêncio.
Depois, um “Como é?” quase engasgado.
— Verdade? Perguntou Umut, cheio de orgulho. — E ela aceitou?
— Ela… O rapaz coçou a cabeça. — Ela não disse nem sim, nem não. Mas fez um prato com as pontas de aspargo… sabe, da briga de mais cedo? E deu para ele. Disse que era para ele fazer bom proveito.
Do outro lado da linha…
Umut caiu na gargalhada. Gargalhada real, alta, quase indecente.
— E ele comeu? Perguntou entre risos.
— Fui ao escritório para limpar e… o prato está vazio, senhor. Parece até lavado. Nem cheiro sobrou.
Umut ficou em silêncio por alguns segundos. Mas era aquele silêncio de quem está sorrindo de canto de boca, a mente trabalhando.
— Hm… Murmurou, satisfeito. — Então, acho que o meu plano vai dar certo.
O rapaz da limpeza arregalou os olhos.
— Que plano…?
Umut olhou para o telefone exatamente como olhava para Demir quando ele fazia burrada: com um carinho quase paternal… e uma grande dose de deboche.
— Nenhum. Respondeu, como se fosse óbvio. — Continue vigiando e me conte tudo. E eu… vou dar um jeito de falar com o Demir para te passar para garçom.
O rapaz quase gritou de alegria.
— Pode deixar! Eu vigio! Vigio tudo!
E desligou, tão empolgado que quase tropeçou no próprio esfregão.
Do outro lado, Umut recostou-se na cadeira, olhando para o teto com aquele sorriso malandro de quem sabe que duas pessoas estão se aproximando… e que ele não precisará mover uma única peça no tabuleiro.
Porque Bell cozinhava com a alma.
E Demir comia com fraqueza.
Com certeza, isso, meu amigo… sempre dá caldo.
—
Umut observou por três dias.
Três longos dias em que seu melhor amigo, o grande Demir Osman, o terror dos fornecedores, o pesadelo dos estagiários… parecia um adolescente apaixonado fingindo odiar sentir o coração bater.
Ele via tudo.
Via Demir chegando mais cedo.
*Demir inventando desculpas para entrar na cozinha em horários que não costumava entrar.
*Demir “fiscalizando” o corte dos legumes da Bell, mesmo estando perfeito.
*Demir tentando disfarçar o sorriso quando ela chegava e a irritação quando saía acompanhada por Joaquim.
Mas admitir?
Ha! Demir ia morrer antes disso.
E Bell…
Ah, Bell.
Que mulher.
Brava de um jeito silencioso, daquele que faz um homem repensar a vida inteira com uma sobrancelha levantada.
E ainda assim… engolia todas as grosserias dele. Uma por uma.
Para Umut, essa era a maior bandeira vermelha do universo.
Nenhuma mulher com o sangue quente que ele sabia que ela tinha iria deixar um chef turco falar como Demir falava… a não ser que tivesse um motivo sério. Daqueles que deixam cicatriz.
E ele jura até hoje que ouviu ela resmungar, em turco, enquanto cortava cebolas e Demir colocava defeito em seu serviço.
“Lanet olsun(d***a), se ele falar isso de novo, eu o afogo no molho.”
Mas Bell seguia lá.
Carinha de turista.
Inglês torto.
“Eu não entendo.”
“Sorry.”
“Yes, chef.”
Tinha história aí.
E história pesada.
Por isso… Umut fez o que qualquer melhor amigo completamente irresponsável faria.
Na quinta-feira chuvosa, pegou o telefone.
— Gazete? Quero fazer um anúncio. Coloque na capa.
A respiração animada do jornalista veio na mesma hora.
— Qual anúncio?
Umut sorriu como quem sabe que está prestes a criar uma lenda urbana.
— Demir Osman vai mostrar sua noiva para o mundo até o final da próxima semana. — Fez uma pausa dramática. — Ele vai apresentá-la no restaurante.
— Me dê uma dica de quem será a escolhida. Ela é turca ou estrangeira?
— Eu não posso citar nomes, mas ela veio de fora e foi amor à primeira vista.
— Então, é estrangeira, trabalha para ele?
— Não posso revelar mais nada, só posso garantir que a Turquia será abalada pela beleza da noiva de Demir Osman e que o prato que ela cozinha é um manjar dos deuses.
Pronto.
A fofoca foi lançada, agora é esperar virar uma verdade.
Silêncio do outro lado.
— Tem certeza? — perguntou o jornalista. — Isso vai virar notícia.
— É isso mesmo que quero — disse Umut, satisfeito. — Coloque bem claro para solicitarem o prato da noiva.
Desligou, ajeitou o casaco e saiu na rua parecendo um vilão latino cheio de charme.
Agora era esperar.
Esperar a cidade farejar romance.
E as fofoqueiras conectarem os pontos.
As clientes darem aquele sorrisinho cúmplice.
Os funcionários cochicharem pelos cantos e, por último, a casamenteira aparecer para aprovar o relacionamento.
Porque ele disse onde Demir mostraria a noiva:
No restaurante.
E mencionou o prato dela, o prato da noiva.
Ou seja:
Bingo.
Em poucas horas, metade da cidade estaria entrando no estabelecimento igual caçador de pista, batendo o olho na estrangeira brava e, claro… concluindo:
“É ela.”
Umut chegou ao restaurante e empurrou a porta com um sorriso torto porque sabia que a tranquilidade duraria pouco.
— Ah… isso vai render.
E foi para a cozinha comer um pedaço de baklava e esperar a explosão.
Não demorou muito para os garçons começarem a trazer os pedidos, um atrás do outro, com a mesma expressão de “onde eu fui amarrar meu burro?”.
— As pessoas querem o prato da noiva?
Demir olhou para todos e, com as mãos na cintura.
— Que brincadeira é essa? De que prato estão falando?
Umut, como se fosse a coisa mais natural, disse.
— Deve ser o manti que a Bell preparou, eu ouvi um boato no mercado que aqui tem o melhor manti turco/brasileiro de Istambul.
E assim, Umut acabou de selar o destino.
Bell começou a preparar o manti.
O cheiro tomou a rua como um convite indecente.
Nem discreto, nem educado.
Cheiro de “entre aqui AGORA ou nunca se perdoará na vida”.
E as pessoas continuaram a entrar.
Não “entrar”.
Invadir.
Como se fosse Black Friday culinária.
Um senhor levantou a mão, indignado de fome:
— Quero o prato que cheira a céu!
Uma moça atrás dele, quase salivando:
— O prato que tem o aroma apimentado, por favor!
Outro cliente, já empurrando a cadeira:
— O prato brasileiro! Quero aquele: o prato da noiva!
Demir olhou aquilo incrédulo.
Ninguém pedia o tradicional kebab dele.
Ninguém queria o prato do dia.
NADA dos pratos do chef cinco estrelas, formado, premiado, idolatrado em revistas gastronômicas.
Só o manti da estagiária brasileira.
Doce, simples, de humildade zero, mas sabor infinito.
O ego dele começou a derreter igual manteiga quente no pão.
Umut, óbvio, não perdeu a chance de cravar a faca e girar:
— Você deveria mudar essa cara, Demir. Seu restaurante está bombando de novo.
Demir fechou a cara ainda mais.
— Eu não estou entendendo isso. Até ontem, eles estavam me boicotando, e agora querem o prato da noiva.
Umut ajeitou o paletó com a pose de quem acabou de cometer um crime socialmente aceitável.
— Bem… eu meio que falei que você vai apresentar sua noiva dentro de alguns dias e que ela faria um prato especial.
Demir virou a cabeça tão rápido que quase desalinhou duas vértebras da coluna.
— O QUE VOCÊ FEZ?!
Umut abriu um sorriso de “fiz m***a, mas olha como brilhei”.
— Relaxa. Foi o único jeito que encontrei de acalmar seus clientes e tentar trocar sua imagem de mulherengo.
Demir esfregou o rosto, desesperado.
— Onde diabos vou arrumar uma noiva?!
Umut deu dois tapinhas no ombro dele como quem consola um homem prestes a ser atropelado pela própria vida:
— Essa é a parte divertida.
Demir estreitou os olhos.
— Estou ouvindo…
Umut respirou fundo, fez pose e anunciou como se fosse a revelação final de um reality show culinário:
— Bom… ela já está trabalhando na sua cozinha.
Demir congelou.
Literalmente congelou.
E, do outro lado do salão, Bell passava com uma bandeja cheia de mantis perfeitos, com aquele sorriso tímido, educado… totalmente capaz de colocar um homem de joelhos sem perceber.
Era quase poético.
Ou trágico.
Se preferir, ambos.
Umut se inclinou, malicioso como sempre:
— E as famílias tradicionais estão AMANDO o fato de ela ser estrangeira, eu achei que o prato da noiva ia te dar a dica sem que eu precisasse falar.
Demir arregalou os olhos.
— Você quer que eu finja estar noivo da BRASILEIRA?
Umut abriu o maior sorriso da noite.
— Ah, Demir… você já está metade ferrado. Melhor ir até o fim.
— E como você, com sua inteligência paranormal, quer que eu a convença a aceitar essa proposta?
— Use seu charme, você sempre foi bom com as mulheres.
— Ela não é qualquer mulher.
Umut deu um tapinha no ombro de Demir.
— Eu sei. Exatamente por isso que vai dar certo.
Se tem uma coisa que aprendi cedo, é que homem adora decidir por mulher.
O que eles nunca calculam… a dimensão do estrago quando a mulher decide jogar junto.
E eu posso lhes garantir que não serei coadjuvante na minha história.