Umut bateu uma palma só, alta, seca, como se estivesse encerrando um leilão.
— Tamam! (Pronto!) Ele anunciou, orgulhoso.
— Está feito.
Demir respirou fundo, como se tivesse acabado de firmar um pacto com Deus, o destino… ou o próprio ego, que no caso dele era mais poderoso que qualquer divindade.
E então ele soltou, com a voz baixa e perigosa:
— A partir de agora… você é minha noiva.
Senti meu cérebro travar igual a computador velho rodando Windows 98.
Minha NOIVA?
Minha.
Nossa! Dele.
Me deu uma vontade súbita de bater com a bandeja na cabeça do Umut por começar essa palhaçada toda.
Mas antes que eu pudesse reagir, Umut… aquele advogado que claramente fez pacto com o caos, se aproximou e falou no meu ouvido como se estivesse me ensinando a não tombar a coroa:
— Bell… respire e sorria para as pessoas.
— Estou respirando, sussurrei tensa. — Pensando em cometer um crime também.
O desgraçado riu.
— Bem-vinda ao noivado turco. Ele deu dois tapinhas no meu ombro. — Agora que acabou o ritual, vocês vão sair juntos, sorrir para as mesas, cumprimentar os convidados e fingir que estão apaixonadíssimos.
Ele se aproximou mais. — E lembra: aqui dentro não existe “desfaz”. Só “aprofundar”.
Meu estômago virou de cabeça para baixo.
Demir estendeu o braço para mim como se fosse completamente natural me oferecer o cotovelo e eu, como boa prisioneira recatada recém-selada, fiz o quê?
Apoiei a mão.
Recatadíssima. Quase religiosa. Uma santa prestes a cometer homicídio qualificado.
Mas murmurei baixinho só para ele:
— Se você apertar meu braço, eu arranco sua mão.
Ele sorriu. O i****a sorriu. Com aquele sorrisinho canalha de quem acha que ganhou alguma coisa.
— Está nervosa, gelinim (minha noiva)?
Respondi com a mais pura elegância internacional:
— Shut up. (cala a boca.)
E seguimos.
Umut, ao lado, caminhava com a expressão de quem havia acabado de plantar uma bomba nuclear emocional no meio do restaurante e estava esperando para ver o efeito.
No salão, os clientes começaram a bater palmas quando fomos nos aproximando das mesas.
— Felicidades ao casal!
— Que Deus abençoe!
— Ela é linda!
— Ele finalmente sossegou!
Eu queria uma panela.
Uma panela bem grande.
Para colocar Demir dentro e ferver até virar caldo.
Mas eu sorri. O famoso “sorriso de noiva feliz que está pronta para cometer crimes em silêncio”.
E então, enquanto a avalanche de elogios e expectativas caía sobre nós, uma verdade me atingiu como um caminhão:
Eu não tinha mais como retroceder.
O café selou.
A fita amarrou.
O povo aprovou.
E Demir…
Demir estava olhando para mim como se tivesse acabado de ganhar a batalha mais saborosa da vida.
Umut foi quem resumiu tudo, com aquele sorrisinho vitorioso:
— Bell…
— Que foi? Rosnei.
— Agora você está oficialmente…
Ele fez uma pausa dramática.
— Num caminho sem volta… e com o noivo mais teimoso da Turquia.
Respondi na mesma altura, com o sorriso mais doce e assassino:
— Pois ele que se prepare. Sei morder e também sou teimosa.
Umut quase engasgou rindo.
E pronto.
O destino não só riu…
Ele gargalhou.
E eu, que fugi da Turquia para não ser obrigada a me casar, estava fazendo exatamente isso.
Sentei-me na mesa da noiva e estava distraída olhando o pedaço de fita em meu pulso.
Ela ainda ardia no meu pulso, como se fosse uma algema de seda, e não era no bom sentido.
O ritual terminou, mas as mesas estavam lotadas e ninguém parecia querer ir embora.
Foi olhando os risos e os aplausos que não paravam que vi o tamanho do que estava acontecendo, pensei:
Bell, parabéns. Você conseguiu se meter em um problema que nem o santo mais forte vai conseguir te salvar.
Demir estava diferente. Não era só a empolgação pela encenação ter convencido a todos, era aquele brilho teimoso no olhar de quem, sem admitir, gostou da ideia de me chamar de noiva.
E eu? Bom… eu fingia não perceber.
O restaurante estava fervendo. Gente entrando, gente pedindo mesa, gente levantando para tirar foto do nosso “grande dia”.
A equipe corria como se estivesse em final de campeonato. Panelas batendo, cheiro de especiarias, aquele caos organizado que só a cozinha turca entende.
Demir, no meio de tudo, parecia um general zen. Nem o barulho, nem o calor, nem os olhares curiosos o tiraram do eixo. Ele estava no seu habitat e eu era só uma peça deste jogo.
Até que ele parou, veio até onde eu estava, pegou minha mão como se isso já fosse um direito dele, respirou fundo e avisou:
— Hoje ninguém paga.
O restaurante inteiro congelou.
Literalmente.
Nem o garçom que estava servindo chá se mexeu.
Arregalei os olhos, Umut quase teve uma síncope, e uma cliente deixou o garfo cair no prato.
— Você tem certeza? Perguntei baixo, inclinando-me para ele.
Demir não piscou.
— Já tenho uma noiva. Agora quero prosperidade.
“Prosperidade”
Os clientes começaram a aplaudir. Uns emocionados, outros gravando stories, todos encantados com o “noivo generoso”.
Ai, se soubessem…
Como ele é o tipo de homem que serve o próprio reino.
Umut virou para ele, horrorizado:
— Demir… você enlouqueceu?
Se a gente falir amanhã, eu quero deixar claro que vou estar de férias nas Maldivas.
Demir apenas sorriu, aquele sorriso torto de quem sabe exatamente o que está fazendo… ou então está improvisando com estilo.
E assim tudo virou festa.
Ele serviu um prato especial a uma mesa, ouviu elogios, sorriu para uma criança e, quando passou por mim…
…parou.
Por um segundo.
Curto demais para ser real, longo demais para ser ignorado.
— Muito bom café. — Murmurou, baixo demais para ser educado.
E seguiu.
Me deixando com vontade de jogar a bandeja nele. Ou me esconder debaixo dela. Talvez ambas as coisas.
Os minutos seguintes foram quase cinematográficos.
Demir tirou o avental, afrouxou a gola e começou a servir os pratos pessoalmente. Nada teatral, ele fazia com naturalidade, como se tivesse esperado este momento a vida toda.
E claro… serviu primeiro a minha mesa.
Ele colocou o prato à minha frente com aquela calma irritante:
— Você trabalhou muito hoje. Merece comer antes de desmaiar.
— Não vou desmaiar. Respondi, mesmo sentindo minhas pernas meio bambas.
— É obrigação do noivo servir sua futura esposa, coma gelinim (minha noiva).
Ele sorriu de canto. Só de canto. Do jeito que fazem as mulheres que estão no restaurante suspirarem e me deixam sem saber se quero socar ou beijá-lo.
E eu comi, claro que comi.
Umut, passando atrás de nós, murmurou: Romance gourmet… socorro.
Eu ainda fingia que aquilo era só teatro.
Mas o problema de quando se brinca com rituais antigos.
É que eles costumam levar a sério demais quem ri por último.