Prosperidade

1149 Words
Umut bateu uma palma só, alta, seca, como se estivesse encerrando um leilão. — Tamam! (Pronto!) Ele anunciou, orgulhoso. — Está feito. Demir respirou fundo, como se tivesse acabado de firmar um pacto com Deus, o destino… ou o próprio ego, que no caso dele era mais poderoso que qualquer divindade. E então ele soltou, com a voz baixa e perigosa: — A partir de agora… você é minha noiva. Senti meu cérebro travar igual a computador velho rodando Windows 98. Minha NOIVA? Minha. Nossa! Dele. Me deu uma vontade súbita de bater com a bandeja na cabeça do Umut por começar essa palhaçada toda. Mas antes que eu pudesse reagir, Umut… aquele advogado que claramente fez pacto com o caos, se aproximou e falou no meu ouvido como se estivesse me ensinando a não tombar a coroa: — Bell… respire e sorria para as pessoas. — Estou respirando, sussurrei tensa. — Pensando em cometer um crime também. O desgraçado riu. — Bem-vinda ao noivado turco. Ele deu dois tapinhas no meu ombro. — Agora que acabou o ritual, vocês vão sair juntos, sorrir para as mesas, cumprimentar os convidados e fingir que estão apaixonadíssimos. Ele se aproximou mais. — E lembra: aqui dentro não existe “desfaz”. Só “aprofundar”. Meu estômago virou de cabeça para baixo. Demir estendeu o braço para mim como se fosse completamente natural me oferecer o cotovelo e eu, como boa prisioneira recatada recém-selada, fiz o quê? Apoiei a mão. Recatadíssima. Quase religiosa. Uma santa prestes a cometer homicídio qualificado. Mas murmurei baixinho só para ele: — Se você apertar meu braço, eu arranco sua mão. Ele sorriu. O i****a sorriu. Com aquele sorrisinho canalha de quem acha que ganhou alguma coisa. — Está nervosa, gelinim (minha noiva)? Respondi com a mais pura elegância internacional: — Shut up. (cala a boca.) E seguimos. Umut, ao lado, caminhava com a expressão de quem havia acabado de plantar uma bomba nuclear emocional no meio do restaurante e estava esperando para ver o efeito. No salão, os clientes começaram a bater palmas quando fomos nos aproximando das mesas. — Felicidades ao casal! — Que Deus abençoe! — Ela é linda! — Ele finalmente sossegou! Eu queria uma panela. Uma panela bem grande. Para colocar Demir dentro e ferver até virar caldo. Mas eu sorri. O famoso “sorriso de noiva feliz que está pronta para cometer crimes em silêncio”. E então, enquanto a avalanche de elogios e expectativas caía sobre nós, uma verdade me atingiu como um caminhão: Eu não tinha mais como retroceder. O café selou. A fita amarrou. O povo aprovou. E Demir… Demir estava olhando para mim como se tivesse acabado de ganhar a batalha mais saborosa da vida. Umut foi quem resumiu tudo, com aquele sorrisinho vitorioso: — Bell… — Que foi? Rosnei. — Agora você está oficialmente… Ele fez uma pausa dramática. — Num caminho sem volta… e com o noivo mais teimoso da Turquia. Respondi na mesma altura, com o sorriso mais doce e assassino: — Pois ele que se prepare. Sei morder e também sou teimosa. Umut quase engasgou rindo. E pronto. O destino não só riu… Ele gargalhou. E eu, que fugi da Turquia para não ser obrigada a me casar, estava fazendo exatamente isso. Sentei-me na mesa da noiva e estava distraída olhando o pedaço de fita em meu pulso. Ela ainda ardia no meu pulso, como se fosse uma algema de seda, e não era no bom sentido. O ritual terminou, mas as mesas estavam lotadas e ninguém parecia querer ir embora. Foi olhando os risos e os aplausos que não paravam que vi o tamanho do que estava acontecendo, pensei: Bell, parabéns. Você conseguiu se meter em um problema que nem o santo mais forte vai conseguir te salvar. Demir estava diferente. Não era só a empolgação pela encenação ter convencido a todos, era aquele brilho teimoso no olhar de quem, sem admitir, gostou da ideia de me chamar de noiva. E eu? Bom… eu fingia não perceber. O restaurante estava fervendo. Gente entrando, gente pedindo mesa, gente levantando para tirar foto do nosso “grande dia”. A equipe corria como se estivesse em final de campeonato. Panelas batendo, cheiro de especiarias, aquele caos organizado que só a cozinha turca entende. Demir, no meio de tudo, parecia um general zen. Nem o barulho, nem o calor, nem os olhares curiosos o tiraram do eixo. Ele estava no seu habitat e eu era só uma peça deste jogo. Até que ele parou, veio até onde eu estava, pegou minha mão como se isso já fosse um direito dele, respirou fundo e avisou: — Hoje ninguém paga. O restaurante inteiro congelou. Literalmente. Nem o garçom que estava servindo chá se mexeu. Arregalei os olhos, Umut quase teve uma síncope, e uma cliente deixou o garfo cair no prato. — Você tem certeza? Perguntei baixo, inclinando-me para ele. Demir não piscou. — Já tenho uma noiva. Agora quero prosperidade. “Prosperidade” Os clientes começaram a aplaudir. Uns emocionados, outros gravando stories, todos encantados com o “noivo generoso”. Ai, se soubessem… Como ele é o tipo de homem que serve o próprio reino. Umut virou para ele, horrorizado: — Demir… você enlouqueceu? Se a gente falir amanhã, eu quero deixar claro que vou estar de férias nas Maldivas. Demir apenas sorriu, aquele sorriso torto de quem sabe exatamente o que está fazendo… ou então está improvisando com estilo. E assim tudo virou festa. Ele serviu um prato especial a uma mesa, ouviu elogios, sorriu para uma criança e, quando passou por mim… …parou. Por um segundo. Curto demais para ser real, longo demais para ser ignorado. — Muito bom café. — Murmurou, baixo demais para ser educado. E seguiu. Me deixando com vontade de jogar a bandeja nele. Ou me esconder debaixo dela. Talvez ambas as coisas. Os minutos seguintes foram quase cinematográficos. Demir tirou o avental, afrouxou a gola e começou a servir os pratos pessoalmente. Nada teatral, ele fazia com naturalidade, como se tivesse esperado este momento a vida toda. E claro… serviu primeiro a minha mesa. Ele colocou o prato à minha frente com aquela calma irritante: — Você trabalhou muito hoje. Merece comer antes de desmaiar. — Não vou desmaiar. Respondi, mesmo sentindo minhas pernas meio bambas. — É obrigação do noivo servir sua futura esposa, coma gelinim (minha noiva). Ele sorriu de canto. Só de canto. Do jeito que fazem as mulheres que estão no restaurante suspirarem e me deixam sem saber se quero socar ou beijá-lo. E eu comi, claro que comi. Umut, passando atrás de nós, murmurou: Romance gourmet… socorro. Eu ainda fingia que aquilo era só teatro. Mas o problema de quando se brinca com rituais antigos. É que eles costumam levar a sério demais quem ri por último.
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