Yaman Karaman

786 Words
A Itália estava cinzenta naquele dia, o céu carregado sobre Milão. Yaman Karaman, impecável em um terno escuro, assinava papéis como quem decide o destino de um país inteiro. O secretário dele, Ahmet, entrou apressado, meio nervoso. — Senhor… acho que o senhor precisa ver isto. Ele leu a legenda e estreitou os olhos. “O chef cinco estrelas Demir Osman finalmente apresentou sua noiva ao mundo.” O vídeo começou a rodar. A música. O salão em silêncio atento. E então, Demir abriu os braços. Dançou. Não era uma brincadeira. Nem era um gesto solto. Era um homem seguro, no centro do próprio território, exibindo controle, presença… convite. Isabella permaneceu sentada por um segundo longo demais. Depois levantou. Aceitou o convite, olhou nos olhos do noivo e sorriu. Ela aceitou dançar. Aceitou ser vista. Agora só me resta chegar antes que ele a leve por completo. A expressão de Yaman mudou no mesmo instante. Não de surpresa — mas de compreensão. — Ela aceitou dançar… — murmurou, a voz baixa, densa. — Isso não é nada bom. O salão vibrou ao redor deles, mas Yaman só enxergava uma coisa: A filha dele se permitiu ser conduzida. Em público. Por um homem que não era ele quem havia escolhido. A expressão de Yaman mudou devagar. Primeiro incredulidade, depois indignação, depois um fogo silencioso que fazia qualquer um dar dois passos para trás. — Ele é um cozinheiro… Murmurou, a voz grave. — Não tem qualidade para ser meu genro. Ahmet respirou fundo. Ele trabalhava com Yaman há alguns anos, mas conhecia a família desde sempre. Cresceu aprendendo a profissão com o pai, que aposentou, deixando-o no lugar. Já tinha enfrentado reuniões sangrentas, tempestades financeiras… mas nada era tão perigoso quanto notícias envolvendo Isabela. — Senhor… Demir é o dono do restaurante e tem três livros de culinária publicados. Sua filha também é cozinheira, tentou suavemente. Yaman ignorou completamente. Ampliou a imagem. Tocou no rosto da filha com o dedo, como um pai que ainda não aceitou que a menina cresceu. — Olha, Ahmet… como minha menina está bonita. E ela ter um hobby culinário não significa que é cozinheira. Acha mesmo que ela merece um marido cozinheiro? Porque acho que não. Ergueu a mão, impedindo o homem de responder. — Não responda. Yaman levantou-se de uma vez. — Vamos acabar logo essa reunião. Preciso voltar para a Turquia. E num tom que faria qualquer império se calar: — Tenho uma loucura para impedir. --- No restaurante Demir, não conseguia esquecer o olhar de medo de Isabella quando Umut ameaçou publicar a foto dela no jornal. O restaurante estava em festa, mas no escritório, Demir mexia no celular, inquieto. Curiosidade. Intuição. Um incômodo que não sabia nomear. Clicou no perfil de Isabella Silva, apareceu um K. no sobrenome. Rolou. E então viu. Uma foto dela ao lado de Yaman Karaman. O magnata, rei do petróleo. Homem que controla regiões inteiras com um telefonema. A legenda escrita pelo próprio Yaman: “O homem que se casar com minha filha terá que ser tão inteligente quanto eu, porque reinará ao meu lado.” Demir sentiu o estômago afundar como se tivesse levado um soco. K… Karaman… A ficha caiu tão pesada quanto a panela de ferro no chão. Umut abriu a porta sem bater, como sempre, e foi direto olhar pela tela do amigo. Porque ele parecia paralisado, olhando para ela. E praguejou. — Ih… problemão. — Problemão? Demir repetiu, sem tirar os olhos da foto. — Isso é suicídio, ele vai me m***r. — É, irmão… Rei do petróleo não entrega sua herdeira para qualquer um. Umut passou a mão no rosto. — Quando descobri que ela era turca, eu pensei que era só… turca. Não, filha do Yaman Karaman! — Agora não tem mais volta. Demir murmurou. — Está nas redes. O mundo já sabe. Dancei para ela e ela aceitou. E eu não sou um qualquer, eu sou o chef Demir Osman. Pela primeira vez, Umut ficou em silêncio. Ele tinha realmente ferrado com tudo. Demir encostou o celular na mesa e ficou ali, parado. Os olhos fixos em nada. Ele não tinha medo de trabalhar. Não tinha medo de fama. Nem tinha medo de homens poderosos. Mas tinha medo, profundo, inesperado de perder Isabella antes mesmo de tê-la. E aquela sensação o acertou como um raio. Isabella não era só uma farsa. Ela não era só um acordo. Estava entrando na vida dele como tempestade… e ele sabia que o furacão Karaman estava chegando. E chegando rápido. Dizem que sempre após uma tempestade vem a bonança, o problema é a destruição que ela causa antes de ir, e essa que estava se anunciando era gigantesca.
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