Não machuque meus amigos

1033 Words
Terceira noite de casa cheia. TERCEIRA. Se meu pai fosse uma lenda urbana, eu já estaria quase acreditando que ele não existia. Tentei falar com minha mãe, que também não me respondeu, parecia tudo calmo demais. A cozinha estava um caos delicioso, cheiro de cordeiro, gente rindo, Joaquim contando histórias do Brasil e eu, finalmente, começando a respirar sem sentir um elefante na nuca. Aí começou o burburinho. Primeiro baixo, depois crescendo como uma onda prestes a arrancar a porta. Olhei pela janelinha da cozinha… e pronto. Minha paz evaporou. Lá estava meu pai. E não veio sozinho. Trouxe a caravana do apocalipse: secretário, três seguranças e a polícia. O restaurante, que minutos antes fervia de vida, encolheu. Meu pai tinha esse dom: sugar o oxigênio de qualquer lugar. Demir estava de pé, postura digna, esperando ser o alvo, mas Yaman Karaman nem olhou para ele. Os olhos dele varriam o salão como se estivessem caçando. Respirei fundo, empurrei a porta e saí. — Boa noite, senhor Ahmet. Cumprimentei o secretário do meu pai, que ao menos tinha humanidade no olhar. Depois virei para o meu pai. Ele estava com a mão na cintura. Pose de ditador. — É assim que cumprimenta seu pai? Perdeu o respeito? Me aproximei, segurei a mão dele e dei um beijo. — Bença, pai. Eu sabia exatamente o efeito daquela palavra nele. Respeito público. Autoridade preservada. Guerra adiada por alguns segundos. Ele fez um carinho rápido na minha cabeça. Afeto calculado. Primeiro olhou para as pessoas que assistiram ao meu martírio e, com voz de comando, disse. — Saiam todos, isso é assunto de família. As pessoas quase se mataram saindo correndo do restaurante, até que só sobramos nós e… cadê o Umut que jurou que impediria meu pai? Claro que sumiu… o que eu poderia esperar de um amigo do Demir. Aí, meu querido pai se virou para os policiais e disse: — Podem prender este homem que se atreveu a forçar minha filha a ficar noiva dele. Demir deu um passo à frente, voz firme: — Senhor Yaman, eu amo sua filha. E vou me casar com ela por amor. Meu pai soltou uma gargalhada que fez a parede tremer. — Rapaz, você sabe quem eu sou? — Sei, sim, senhor. — E você acha que tem cacife para ser meu genro? — Não, senhor… mas para ser marido da Isabela eu tenho. E vou ser. Aquilo foi gasolina no fogo. — Seu moleque insolente! Yaman rosnou. — Minha princesa não vai casar com um plebeu que fede a gordura. Pronto. Chega. Até minha paciência turca tem limite. — Eu vou me casar com o plebeu e gosto bastante do cheiro de gordura. Falei, encarando meu pai sem piscar. E se o senhor não quiser seu nome ligado ao dele, pode me deserdar. Eu não quero seu dinheiro e não faço questão de usar seu nome. Foi como dar um t**a no ego dele. Yaman Karaman jamais aceitaria ser contrariado por uma mulher. Ele estalou os dedos. Maldito hábito. E os seguranças começaram a vir na minha direção. Demir entrou na frente antes que eu pudesse reagir. E aí o mundo girou. Um dos seguranças acertou um soco no rosto dele. O som foi seco. Feio. Definitivo. Meu corpo reagiu antes da cabeça. O ar sumiu. O chão pareceu inclinar. Meu pai não estava discutindo. Ele estava marcando território. Meu pai… meu pai ia m***r qualquer um que atravessasse o caminho dele. Inclusive o homem que estava me protegendo. Então fiz a única coisa que poderia impedir um banho de sangue. — Eu vou com o senhor! A palavra saiu da minha boca como se eu tivesse mordido metal. Não era submissão. Era sacrifício. Eu não estava escolhendo meu pai. Estava salvando todo mundo. — Mas tem que me prometer que não vai machucar ninguém daqui. E não vai perseguir nenhum deles. Meu pai parou. Olhou para mim. Silêncio mortal. — E você virá comigo sem reclamar? — Vou. — E vai aceitar o noivo que eu escolhi? Olhei para o caos. Demir sangrando. Meus amigos, assustados. Eu estava encurralada. Abaixei a cabeça. — Vou… O gosto da palavra era ferro. Mas eu falei. Fui para o lado dos seguranças que me cercaram. Demir tentou protestar. Claro que tentou, mas ninguém deu atenção ao homem que havia acabado de levar um soco por minha causa. — Vamos sair logo dessa espelunca, Yaman anunciou, porque ele não sabe entrar em lugar nenhum sem humilhar o ambiente. Mas antes do tirano dar o primeiro passo rumo à porta, ela se abriu. Entraram minha mãe e Umut. Aquele que achei que havia fugido como um rato abandonando o barco. Meu pai empinou o queixo, aquele sorriso venenoso escorrendo no canto da boca. — Agora a família está completa. Samira, meu amor, você está muito bonita. Minha mãe cruzou os braços. Ela sempre parece calma… até você olhar nos olhos. — Soltem minha filha. Os homens olharam, de um para o outro. — Ela é minha filha também. Ele rebateu. — E estava prestes a cometer o maior erro da vida. — Erro, quem cometeu fui eu, ao ter aceitado me casar com você. Ela devolveu, tão seco que senti até vergonha alheia. — Nossa filha sabe exatamente o que faz. Meu pai aproximou-se dela, postura de autoridade absoluta. — Ela vai comigo. Sou o pai e sou a autoridade aqui. Minha mãe nem piscou. Virou-se para Umut com a calma mortal de quem está prestes a derrubar um rei com uma colher de chá. — Umut… entregue o documento do casamento de Isabela e Demir para Yaman. O ar sumiu do salão. Yaman arregalou os olhos. Arregalei os olhos. Demir arregalou os olhos. — Que documento? De que casamento você está falando? Minha mãe sorriu com o veneno doce que só ela consegue manejar. — Bel se casou em segredo com Demir. Ela sabia que você faria exatamente essa cena patética. Eu disse para ela esperar eu chegar para anunciar o compromisso, mas… você conhece a impulsividade dos jovens, não conhece, Yaman? Umut, com a cara mais inocente e cínica do mundo, entregou a pasta para meu pai.
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