A mansão de Yaman estava silenciosa, elegante, impecável… até o portão se abrir de um jeito tão brusco que parece que alguém chutou a alma do ferrolho.
Samira surge na entrada como uma deusa da fúria, vestindo salto, bolsa atravessada no ombro e a escuta arrancada no punho, balançando como arma do crime.
O segurança na guarita pensou seriamente em pedir demissão.
Samira passou por ele sem nem respirar na direção correta.
A porta principal abriu e Yaman apareceu no topo da escada interna, com seu terno escuro perfeito, parecendo um gângster que fez MBA em charme. O sorriso dele surgiu quando viu Samira, aquele sorriso de “vai dar r**m, mas estou feliz”.
— Amor da minha vida… você chegou.
Samira subiu as escadas como se cada degrau estivesse devendo dinheiro para ela. Não olhou para o lado. Nem olhou para baixo. Só mirou direto no marido.
— Você… OUSOU… colocar ESCUTA… no Joaquim?
A cada palavra, ela balança a escuta arrancada como se fosse um chicote.
Yaman abriu os braços, completamente calmo.
— Eu precisava entender nossa filha.
— Entender? ENTENDER?!
Samira parou de repente, bem próxima de Yaman.
— Yaman… me diz que isso é uma piada.
— Porque se for sério, você realmente perdeu o juízo.
O rapaz quase desmaiou ali na sala! Arranquei a pele dele com isso aqui! OLHA ISSO!
Ela esticou a mão com a escuta bem na direção dos olhos dele. Yaman observou como se estivesse avaliando uma obra de arte.
— Sim… exatamente isso. Uma escuta de excelente qualidade.
— Pegou até os aplausos.
— Aqueles… um pouco exagerados, não acha?
SAMIRA FAZ UM SOM QUE NEM A FÍSICA CONSEGUE EXPLICAR.
Aplausos? Você ouviu aqueles barulhos ridículos e achou que eram aplausos?
— Claro. Joaquim é um rapaz muito emocionado. Ele bateu panelas comemorando o amor deles. Muito sensível, aquele menino.
Samira trava.
Pestaneja.
Inclina a cabeça devagar, tipo animal prestes a atacar.
— Você… você realmente ouviu aquilo e achou que era AMOR?
— Sim, minha flor. — Não era isso que você queria que parecesse?
Ela respirou fundo. Muito fundo. Perigosamente fundo.
— Vou te bater.
Yaman abriu um sorriso apaixonado.
Eu sei.
Ela ergueu a bolsa.
Ele fechou os olhos.
Ela desceu a bolsa — PÁ! — no ombro dele.
— i****a.
PÁ!
— Cabeça dura.
PÁ!
— Rei do petróleo com cérebro de feijão.
Ele aceitou cada golpe como quem está vivendo um reencontro romântico.
Quando enfim terminou, Samira jogou a escuta no peito dele.
— Da próxima vez que você colocar alguma porcaria de aparelho em alguém da minha família, Yaman… vou mandar arrancar seus ouvidos.
Yaman segurou a escuta com as duas mãos, com a reverência de quem segura a primeira flor que a esposa lhe deu em 1987.
— Sabe o que me incomodou, Samira?
— Minha filha nunca amou em silêncio.
Ele chegou tão perto que Samira sentiu a respiração dele na pele. Manteve a voz baixa e continuou.
— Quando você me amava… o palácio inteiro sabia.
— Agora eu só ouço barulho demais.
— NÃO ME IRRITE, YAMAN.
Ela vira as costas e desce a escada com a dignidade de uma rainha que venceu todas as batalhas.
Yaman a observa, completamente encantado, completamente tonto, completamente ferrado.
Ahmet aparece de trás da coluna, sempre atento.
— Senhor… o aviso para o noivo… envio a cesta de frutas agora?
Yaman ajusta o terno, recupera o ar e responde:
— Ainda não, Ahmet. Acho melhor esperar a Samira esfriar. Isso está ficando interessante. Vamos fazer um jantar para o casal.
— Um jantar, senhor? Ahmet falou desconfiado.
— Sim… Ahmet. Sou o pai da noiva. Devo dar um jantar e um presente à altura do casal.
—
A noite passou e o dia começou como se fosse uma continuação, clima tenso, Demir ainda querendo defender seu território. E eu tentando controlar um turco teimoso.
Ele continua andando de um lado para o outro como um touro preso num cercadinho.
O homem está puro nervo, tipo panela de pressão com a válvula solta.
— Eu não posso aceitar isso. Isabella, você ouviu o que eu disse? Eu não posso aceitar isso. Foi uma afronta direta à minha masculinidade. A minha casa.
Fiquei olhando para ele, tentando entender se ele está falando sério ou só teve o ego atropelado por um brasileiro desesperado tentando abafar a briga com panela.
— Demir, respira.
Ele ignora completamente.
Passa a mão no cabelo, ajeita a camisa… e continua bufando.
— Outro homem ficou sem camisa na sua frente. NA MINHA frente.
No meu apartamento.
Ele travou por um segundo.
No único lugar onde achei que você estava segura.
— Segura… — suspirei.
— Demir, Joaquim não me prejudicou e nem colocou sua honra em risco.
O que me assusta é você achar que precisa virar um leão para defender algo que não precisa de defesa.
Ele não riu.
Nem piscou.
— Vou ter que brigar com o Joaquim.
— O quê? Você não está me escutando.
— Pelo bem da sua honra.
Ele fala, como se estivesse prestes a entrar num duelo medieval por causa de um mamilo acidental.
Meu cérebro ainda está tentando processar tudo que aconteceu.
Meu pai colocando escuta no Joaquim.
Joaquim virando carro de som humano.
Eu e Demir, discutindo a cada dez minutos.
E, claro, o tomate que imaginei voando na cara do Demir, mas não fiz porque o tomate não tem culpa por Demir ser tão teimoso.
Passei a mão no rosto, cansada.
— Demir… ele não fez nada demais. Ele só estava tentando impedir meu pai de ouvir nossos surtos. Aliás, foi genial da parte dele. Você poderia agradecê-lo.
— Agradecer? Por ficar sem camisa dentro da minha casa?
— Você ia preferir que ele mostrasse para quem, Demir? Para o Papa? Para o presidente da Turquia? Ele só não queria morrer e nem nos entregar.
Ele parou na minha frente.
Muito perto.
Perto demais.
E eu percebo: ele não está bravo.
Ele está com… receio? Não!
Ciúme.
E ciúme daquele tipo que só aparece quando já passou do ponto.
— Eu não consigo explicar. Ele falou baixo, rouco, quase perdido.
Mas quando vi você olhando… senti algo dentro de mim que eu não sei controlar.
Fiquei parada.
O coração tropeçou.
A respiração se embaralhou.
Ele continuou, agora mais tenso.
— Isso não é lógico. Não faz sentido, eu sei. Mas… Isabella, você é minha esposa agora. Mesmo que seja por contrato. E seja só fachada. Mesmo que eu não entenda nada do que estou sentindo. Não quero que você veja homem nenhum sem camisa.
E também não quero dividir nem um milímetro do seu olhar.
Ele continuou parado sem me tocar, mas nem precisava, eu sentia cada músculo tenso dele, cada respiração fora do lugar e isso me assustou.
— Isabella, eu estou nervoso porque…
Estou com ciúmes.
— E eu odeio isso. — Completou, num fio de voz. — Eu não quero ser esse tipo de homem.
E justamente quando eu ia responder, Joaquim apareceu na porta da cozinha abraçado a uma panela, olhando para nós com cara de quem quer voltar para o Brasil, se possível, ontem.
— Vocês… hum… já terminaram de brigar? Porque se forem brigar de novo, eu posso ligar o exaustor no máximo. Também funciona para abafar o som, assim não ouço suas brigas.
Demir fechou os olhos, respirou como quem está invocando paciência divina.
— Acho que… agora vou ter que brigar com ele MESMO.
— A escuta já foi tirada… Joaquim.
— Mas seu pai ainda quer saber a verdade.
Pois é minha querida amiga.
Se alguém ainda tinha dúvidas de que essa família precisava mais de terapia do que de jantares elegantes, agora não tem mais.
Meu pai espionava, meu marido de mentira queria duelar por um mamilo alheio, e eu… eu só queria silêncio.
Spoiler: silêncio não era uma opção.