Demir revirou os olhos como quem já aceitou que perdeu completamente o controle da própria casa.
— Já que estão todos se servindo sem nem me pedir permissão, pelo menos sentem-se à mesa.
Não precisou repetir.
Umut, que tinha o talento natural de comer como se fosse sua última refeição, já estava enchendo o prato com absolutamente tudo que encontrava pela frente.
Joaquim, ainda meio receoso, provavelmente calculando quanto tempo de vida teria quando Yaman descobrisse tudo, também fez seu prato e sentou.
Samira pegou mais dois Börek e se instalou confortavelmente bem na nossa frente, como se estivesse prestes a assistir a um episódio inédito da novela favorita.
Silvia também se sentou, mas deu um cutucão na irmã, porque elas haviam vindo conversar com Isabella.
Foi quando Aisha entrou.
Ela parou na porta, olhos arregalados, encarando a mesa como se tivesse visto um portal para outra dimensão.
Demir levantou a mão, chamando:
— Vem, Aisha. Tem comida para todos nós. Sente-se conosco.
Ela apontou para si mesma, chocada.
— Eu?… Na mesa?… Acho melhor não.
— Vem, Aisha.
Demir sorriu… aquele sorriso que funciona até em gente que já o conhece bem demais.
— Fiz aquele omelete com pimentões que você gosta.
Os olhos da empregada brilharam de um jeito quase infantil.
— Se o senhor fez porque gosto, então… não posso recusar.
A mulher praticamente flutuou até a mesa. Mas antes de sentar, sacou o celular com a rapidez de um jornalista cobrindo um escândalo político.
Click.
— Pronto!
Digitou freneticamente no grupo antes mesmo de se sentar.
— “Olha a família reunida para o café! E o senhor Demir me chamou para sentar com eles!”
Eu quase afundei o rosto nas mãos.
Umut abriu um sorriso travesso.
Silvia começou a rir.
Joaquim sussurrou para Samira:
— Isso vai virar fofoca no bairro inteiro antes do meio-dia.
Samira respondeu tranquila:
— Ótimo. Assim, já preparam o terreno para o casamento real.
Bati o garfo na mesa.
— Mãe!!
Demir só bebeu um gole do chá, com cara de quem estava aproveitando cada segundo do caos.
Porque agora sim…
Aquilo havia se tornado uma família de verdade.
Logo depois do café, Samira não perdeu tempo. Chamou a mim e Demir para uma conversa particular, porque Aisha ainda acreditava que o casamento era real e, quanto menos gente soubesse da farsa, mais difícil seria para Yaman farejar a verdade.
Assim que a porta fechou, Samira cruzou os braços.
— Agora que somos só nós três, vamos conversar sobre o jantar com Yaman.
Ficamos tensos. E ela continuou.
— Vocês precisam parar de se olhar como se ainda estivessem se conhecendo. A data do casamento é de três meses atrás. Vocês já seriam… íntimos.
Quase engasguei com a própria saliva.
— Mas, mãe… como vamos enganar o papai? Ele é esperto.
— Bell, pare de bancar a virgem nervosa.
A mulher disse com a naturalidade de quem comenta sobre o tempo.
— Você já é mulher do Demir. Não abaixe a cabeça toda vez que ele te elogia.
Demir ficou tão quieto que parecia tentar desaparecer na parede.
Samira virou para ele.
— E você, meu filho… trate-a como esposa, não como namorada de colégio.
Apontou com firmeza.
— Fofíssimo você querer dar um tempo para minha filha se acostumar com você, mas na frente do pai dela você chega junto. Segura na mão, puxa para perto, beija na testa… como um bom marido turco, possessivo faz. Mostre que a mulher lhe pertence.
O silêncio que caiu foi tão pesado que dava para ouvir o fantasma da minha dignidade entrando em coma.
Eu estava vermelha. Não avermelhada. Vermelha, nível tomate da salada, pedindo socorro.
— Vou morrer antes do final do jantar, resmunguei, cobrindo o rosto.
Demir respirou fundo, consciente de que sua vida acabaria se falhasse na atuação.
Samira apenas sorriu como se fosse diretora de novela, preparando o casal protagonista para a cena mais polêmica do capítulo.
E aí sim, estava tudo pronto para a tragédia romântica turca chamada…
Jantar com Yaman.
Samira respirou fundo, encarou os dois como quem está prestes a reorganizar um país falido e finalizou o discurso:
— Muito bem. Vamos começar agora, Demir,… compre um vestido decente para Bell.
Meu marido é tradicional… ex-marido, enfim, detalhes… e o vestido precisa cobrir joelhos, cotovelos e, pelo amor de Alláh, coloque um véu nessa menina. Ah, e uma joia. Uma joia de verdade.
Todo noivo de respeito dá algo valioso para a noiva. Não esse anel vagabundo que parece prêmio de máquina de brinquedo.
Ela fez um gesto rápido com a mão, tipo “próximo”, e completou:
— E agora se preparem… e saiam daqui de mãos dadas, como um casal feliz começando a vida. Sem caretas. Sem tensão. Nem cara de funeral. Dois dias é o tempo que vocês têm para pararem de agir como se não fossem íntimos.
Pisquei, ainda tentando processar o turbilhão.
— Mãe… a senhora chamou o papai de “marido”.
Samira nem hesitou:
— Foi só uma forma de falar. Dizer “meu ex-marido” é muito comprido. E eu não vou gastar sílabas com quem não merece.
Demir tentou segurar o riso. Encostei o cotovelo nele como quem diz “não começa”. E Samira só meneou a cabeça, soberana, mandando sairmos com um aceno que misturava bênção e ameaça.
Levantamos para sair, tia Silvia entrou.
— Samira, você contou para eles?
Olhei para minha mãe que fuzilava minha tia com o olhar.
— Contou o quê?
Samira fez um gesto com as mãos.
— Nada importante, depois do jantar com seu pai eu conto.
Silvia colocou as mãos na cintura.
— Samira…
— Vão logo, não se preocupem com a Sílvia, ela está nervosa à toa.
Fomos saindo, mas ainda ouvi minha tia brava com minha mãe.
— Você precisa contar a eles… isso não tem como esconder.
Quase voltei, mas Demir já estava segurando minha mão e resolvi deixar para falar com minha tia depois.
—
Samira deu a arma que Demir precisava para se aproximar. Literalmente colocou o homem no meu colo… e, pior, com justificativa. Já que ele precisava bancar o marido apaixonado… é exatamente isso que ele estava fazendo.
Ele segurou minha mão, entrelaçando os dedos nos meus como se fosse a coisa mais natural do mundo, e saiu do quarto me arrastando junto.
Eu, que havia jurado manter distância de Demir, assistia meu plano morrer afogado, enquanto minha mãe afundava meu Titanic com meia dúzia de palavras bem colocadas.
E o pior? Vi nos olhos dele que ele adorou a ideia. Agora estou aqui, saindo do apartamento de mãos dadas com Demir, e nem se eu gritasse “fogo!” eu conseguiria descolar esse homem de mim.
Chegamos à sala e Aisha nos olhou como quem avalia móveis novos na vitrine. Antes que eu pudesse parecer normal, Demir entrou na parte dois da encenação: me puxou para mais perto e colocou a mão na minha cintura.
Pronto. Já nem sabia se eu respirava, pensava ou corria. Talvez tudo ao mesmo tempo.
— Aisha… — ele começou, cheio de confiança. Mais tarde virá um mestre de obras mexer na porta do banheiro. Tem mais alguma coisa que você queira trocar, hayatim (minha vida)?
Hayatim. Minha vida.
Meu cérebro deu tela azul.
Olhei para ele. Abri a boca. Nada saiu. Eu estava… bugada.
— Não, canim (meu amor), só a porta do banheiro já será ótimo. Respondi no automático, como uma pessoa que perdeu o controle da própria vida e ainda o chamei de meu amor.
Ele sorriu… aquele sorriso que só serve para desgraçar a cabeça de uma mulher… e me deu um beijo na testa. Ajeitou meu véu com cuidado, como se já tivesse licença poética para tocar em mim daquele jeito.
— Vamos, o trabalho nos espera.
— Claro… Tchau, Aisha.
— Tchau, senhora, ela respondeu, com respeito por mim que nem sei se tenho mais.
Quando estávamos na porta, percebi Samira parada no corredor, observando tudo. Ela deu um sorrisinho de quem já viu três casamentos começarem assim e um pequeno caos florescer em seguida.
— Esse rapaz aprende rápido — ela comentou baixinho. E vai fazer minha pequena Bell feliz.
— Isso se o Italiano não nos m***r a todos. Falou Silvia, irritada.
— Você é muito pessimista, ele vai desistir assim que ver o amor desses dois.
— Tomara que você esteja certa e eu esteja errada.
—
Entramos no elevador e Demir continuou segurando minha mão como se tivesse comprado ações nela.
Puxei um pouco, só para testar.
— Pode soltar agora, estamos sozinhos, Demir.
Ele nem piscou. Só se aproximou, ajeitou uma mecha do meu cabelo para o interior do véu com um cuidado que me desmontou inteira.
Hayatim… eu não estou fazendo isso porque sua mãe mandou.
Respirei fundo, tentando parecer firme, mas por dentro eu estava mais para pudim mole.
— Para com isso. Nós dois somos como água e óleo. Não se misturam.
A porta do elevador abriu, mas Demir não saiu. Pelo contrário: segurou minha mão com mais força, me puxou de volta e me virou de frente para ele. O elevador agora parecia menor do que uma gaveta.
— Vou te provar que você está errada. Somos como os melhores temperos… ficamos mais fortes quando usados juntos.
Por um segundo, eu esqueci meu nome, minha missão, a existência de Samira e até do vestido até o joelho que eu teria que usar.
Ele falava como quem tem plena certeza de que vai vencer, e o pior é que eu conseguia sentir que ele ia mesmo.
O elevador começou a fechar de novo e eu, completamente perdida, só consegui pensar:
E assim meu dia caótico começou.