Demir praticamente voou escada acima quando chegamos ao prédio.
Se alguém tivesse filmado, diria que era um atleta olímpico fugindo da própria dignidade.
— Vou na frente só para garantir que está tudo… hã… apresentável, ele anunciou, sem olhar para ninguém, suando frio.
Samira cruzou os braços, encarando o genro que continuava correndo em direção ao elevador.
Silvia soltou um sorriso. -- Homens… mudam de país, mas não mudam os modos.
— Ele está com medo. Ela declarou, com orgulho. — O homem que corre assim só pode estar escondendo alguma sujeira.
Joaquim, carregando duas malas enormes, quase tropeçou.
— Sujeira tipo… sujeira emocional ou sujeira literal?
— As duas, minha mãe respondeu. — Mas vamos descobrir em cinco minutos, tem coisas que não temos como esconder.
Chegamos à porta do apartamento e, pelos ruídos internos… parecia estar travando uma batalha contra a própria bagunça.
Dava para ouvir:
— Meu Deus… não, não, isso não… Isso vai para o lixo.
— Por que isso está molhado?
— Santo Alcorão, por que tem dois copos de café aqui?
— Essa camisa existe desde 2012?! Meu Deus, que nojo de mim mesmo…
Umut soltou uma gargalhada.
— Isso é o som de um solteiro prestes a morrer por dentro.
Silvia lançou um olhar reprovador para ele, mas teve que segurar o riso por pensar a mesma coisa.
—Vocês homens, são todos iguais, um bando de depravados.
Umut puxou a gravata e olhou para Silvia com adoração.
— Eu não sou assim, sou homem de uma única mulher.
Troquei um olhar com minha mãe porque nunca havia visto minha tia ficar sem palavras, ela deu de ombros e olhou para os dois.
— Vão buscar as compras, mas cuidado com o que vão fazer, ouviram? Apago um incêndio por dia.
Entramos.
Demir estava parado no meio da sala, ofegante, segurando um saco de lixo preto, o cabelo bagunçado e o rosto de quem acabou de passar por um apocalipse doméstico.
O apartamento estava… apresentável.
Não impecável, mas bem melhor do que eu imaginava para um homem criado com dinheiro e zero obrigações.
Dei dois passos, respirei fundo, tentei me convencer de que aquilo não seria tão traumático quanto parecia…
… e, inocente, sentei no sofá.
Relaxeiiii. Suspireiiii. Quase agradeci aos céus.
Até que minhas mãos ergueram uma almofada.
E eu congelei.
Porque ali, estendida como uma bandeira nacional da vergonha alheia…
Uma calcinha vermelha.
Levantei a calcinha com dois dedos, como se fosse radioativa.
— Mãe… Olhe isso.
Samira olhou. Arqueou a sobrancelha. Coçou o queixo como se estivesse analisando provas num tribunal.
— Ah, isso deve ser de quando ele era solteiro, disse com naturalidade criminosa.
Revirei os olhos tão forte que quase vi meu cérebro. E ri de nervoso.
— Solteiro? Mãe, isso aqui é praticamente uma bandeira olímpica do mulherengo que ele é.
Demir, quando viu o que eu segurava, quase engoliu a própria língua.
— NÃO É MINHA! Ele disse rápido demais, desesperado demais, culpado demais.
— Quer dizer, não é minha atualmente… é… é uma relíquia. Uma… uma memória… uma coisa antiga… que eu não sabia que… OLHA SÓ, EU NÃO USO CALCINHA, ISABELLA!
Enfiei a calcinha no bolso da calça e fiquei olhando para ele, como se dissesse: “isso será uma prova contra você no futuro.”
— Seja sincero comigo: quantas mulheres já passaram por aqui? Só para eu saber quantas almas infelizes estão vagando por este sofá.
Demir pousou a mão no peito, dramático como uma viúva turca na novela da tarde.
— Eu não sou mulherengo, Isabella. Sou… sociável. Elas gostavam de conhecer o apartamento do chef celebridade.
— Sociável? E precisava de calcinha vermelha. Retruquei.
Umut e minha tia entraram nesse momento, carregando quatro sacolas enormes do mercado.
Arranquei a calcinha do bolso e mostrei para eles, e apontei para o sofá.
— Gente, trouxe mantimentos! Ele parou e ficou olhando para minha mão e para o sofá.
— … Nossa, achei que o supermercado era caro, mas pelo visto o apartamento do Demir é ainda mais. Isabella dá um desconto, isso deve ser da época em que ele era solteiro.
Fiquei olhando para minha tia, tentando segurar o riso, e depois para Umut.
Minha vontade era enforcá-lo com a peça, mas simplesmente coloquei no bolso de volta e sentei de novo.
Samira bateu palmas, retomando o controle como um general entrando em campo.
— Vamos organizar isso direito.
— Você, Demir, joga fora tudo que tiver cheiro de testosterona acumulada.
— Umut e Silvia abastecem a geladeira, despensa, armários…
— Bell, vá para o quarto e veja se tem espaço para suas coisas.
— E Joaquim…
Ela virou para ele com olhar de comandante.
— …não desmaie.
Joaquim endireitou a postura como se tivesse sido promovido no exército.
— Sim, senhora.
Samira começou a rondar o apartamento como inspetora sanitária.
— Esse tapete precisa ser batido. Esse quadro é h******l. Essa mesa é torta? Por que é torta? Homem sozinho vive como se fosse criado por lobos.
Demir estava vermelhíssimo.
— Senhora Samira, eu… sei viver sozinho. E tenho uma empregada que cuida da casa para mim.
Falou como se isso justificasse algo.
— Vou ter que conversar com sua empregada. Ela respondeu, sem olhar para ele. — Ou ela não sabe fazer o serviço ou o trabalho dela aqui era outro.
Demir ficou ainda mais vermelho… sem ter como explicar. Mas Aisha era mesmo só sua empregada e agora teria que enfrentar uma sogra que ela ainda não sabia que ele tinha.
Umut ajudava Silvia a armazenar a comida e minha tia sorria demais.
— Vocês vão cozinhar, então a geladeira precisa estar cheia.
— Farinha, azeite, arroz, legumes… proteína.
— E café, porque vocês dois têm cara de casal que discute às três da manhã e adoram fazer café e disputar quem faz o melhor.
— Umut, você gosta de café? Minha tia perguntou, encarando-o de um jeito estranho.
— Se você quiser que eu goste, eu gosto, senão vou tirar das minhas necessidades.
— Não precisa, eu também gosto.
Que nojo desses dois, m*l se conhecem e já estão se paquerando.
Joaquim observava tudo boquiaberto.
— Dona Samira… a senhora é um fenômeno.
Ela ajeitou o cabelo.
— Obrigada. Sou um furacão de funcionalidade, Yaman sempre me elogiou pela minha organização.
Fui até o quarto e, claro, me arrependi imediatamente. Só de olhar o armário dele já me deu palpitação. Ele tem uma cueca com um gatinho na frente.
— Demir! Gritei. — Tem mais cueca do que espaço no armário! Por acaso, você coleciona?
Ele apareceu na porta, sem graça.
— Eu não esperava uma mulher… invadindo meu ecossistema. E sou um cara higiênico.
Eu cruzei os braços.
— A partir de hoje, seu ecossistema tem regras.
— E quais são? Ele perguntou, tentando não sorrir.
Porque eu ainda segurava a cueca de gatinho.
— Regra número um: nada que envolva calcinha vermelha.
— Regra número dois: nada que envolva você respirar alto perto de mim.
— Regra número três: se roncar, eu te afogo com o próprio travesseiro.
Ele apoiou o braço no batente da porta, me olhando daquele jeito irritante e deliciosamente provocador.
— Nossa vida de casados será divertida, esposa. E a parte da calcinha vermelha, nós podemos negociar? Porque e se for você usando? Eu não terei como impedir.
— Vai ser curta, Rebati — se você continuar sorrindo assim. E pode ficar tranquilo que nem nos seus sonhos me verá de calcinha e muito menos vermelha.
Ele continuou sorrindo.
Porque Demir é assim:
Um pavão convencido que acha graça da minha fúria.
E o pior?
Senti o coração bater mais forte.
E fingi que não.
Eu não estava confortável.
Não estava feliz.
E definitivamente não estava cedendo.
Aquilo não era um começo de nada bonito.
Era uma sucessão de decisões ruins empilhadas com mobília alheia.
Demir era culpado.
Minha mãe, um perigo público organizado.
Minha tia, claramente se divertindo demais.
E eu… eu havia aceitado sentar no sofá errado, no apartamento errado, com o homem errado.
Se isso desse errado — quando desse errado — ninguém poderia dizer que eu não vi o desastre chegando.
Eu vi.
Entrei mesmo assim.
E esse era o problema.