Jantar com Yaman Karaman

1244 Words
O dia do jantar chegou. Demir passou o dia inteiro arquitetando o plano como quem organiza um golpe de estado… só que emocional. A joia, o vestido, a sandália… cada detalhe era uma peça do quebra-cabeça que ele precisava montar antes do jantar com Yaman, o pai de Isabella. E, se tinha algo que ele não podia fazer, era dar bandeira de que aquele casamento ainda era… digamos… mais papel do que prática. As alianças ficaram prontas no fim da tarde. Ouro 18k, símbolo do infinito, pedra azul. Ele guardou a caixinha no bolso interno do paletó, como quem guarda um segredo que pesa mais que chumbo, mas brilha mais que um céu limpo. Parte daquilo, talvez a maior parte, era teatro para o sogro. Mas o resto… ah, o resto era vontade pura. — ISABELLA Entramos no apartamento e Demir foi para a cozinha. Eu precisava de um banho relaxante e me preparar para o bendito jantar. Quando cheguei ao quarto, encontrei sobre a cama um vestido absolutamente fora do que imaginei que ele escolheria para eu usar. — Demir… o que é isso? Perguntei, erguendo o vestido com a ponta dos dedos, como se estivesse tocando num animal selvagem que podia morder. Era lindo. Tradicional. Elegante. Branco, abaixo dos joelhos, mangas rendadas até o pulso. Exatamente como manda a tradição turca para um jantar formal de família. — É para você usar hoje, tradicional, como sua mãe pediu. Ele disse, tranquilo, mexendo no relógio como se não tivesse acabado de jogar uma bomba no ambiente. — E desde quando você escolhe minha roupa? — Desde que precisamos convencer seu pai de que o casamento é real e que sou o homem que você ama. Ele deu um passo, chegando mais perto, me olhando com um ar de quem já sabia que eu ia chiar. — E esse vestido… Isabella… só falta você dentro dele. Abri a boca para retrucar, mas foi então que vi a sandália. Delicada. Fina. Tiras longas que subiam pela perna como um sussurro atrevido. — Demir… isso aqui não combina nem com o vestido, nem com tradição nenhuma! Falei, já nervosa. — Combina comigo. Ele deu aquele sorriso que deveria ser proibido por lei. — E com o que eu quero. Entrelacei os braços. — E o que exatamente você quer? Ele só apontou para a sandália. — Amarrar isso em você. Perdi o ar. — Oi? — Na hora de sair. Sem discussão. Ele disse como se estivesse falando da previsão do tempo. Depois completou, com aquele tom grave que atravessava até a parede: — Ainda não tive a proximidade que queria ter com você. A sandália… vai ajudar. Virei as costas antes que ele percebesse que meu rosto estava pegando fogo. --- Perto da hora de sairmos para o jantar, já pronta, caminhei até onde ele me esperava na sala. O vestido parecia ter sido feito para mim… e o olhar de Demir quase denunciou isso. — Vem aqui, esposa. Ele pediu baixo, chamando-me com apenas dois dedos. Cheguei perto, devagar, como quem sabe que está entrando numa zona de perigo emocional. Ele se ajoelhou sem aviso, pegou a sandália e começou a amarrar as tiras pela minha perna, devagar demais para ser inocente, levou a mão até a junta do joelho e desceu até o pé. — Demir… tentei protestar, mas a voz saiu fraca. — Só fica. Ele respondeu, olhando para o nó que fazia, como se aquele gesto fosse um juramento silencioso. Quando se levantou, eu quase caí com a intensidade do olhar dele. — Falta só uma coisa. Ele murmurou. Abriu a caixinha das alianças. — Hoje, para o seu pai… somos marido e mulher. Mas você precisa saber que eu não comprei isso só por causa dele. Engoli seco. — Então… por quê? — Para você notar o que ainda não percebeu. Ele disse, colocando a aliança em meu dedo com uma segurança que deixou minhas pernas bambas. — Que quero que isso seja real. Eu não consegui responder. Não sem trair o que estava sentindo. E então a porta abriu: — Estão prontos? — A voz de Samira nos trouxe para a realidade. Demir sorriu. — Mais do que nunca. Ele estendeu o braço para mim. Eu aceitei Mas ali, naquele gesto que deveria ser só encenação… algo muito real se mexeu no meu peito. A Mercedes parou diante da mansão Karaman, como se estivesse estacionada no meio das minhas memórias. Era ali. A casa onde cresci. A casa onde aprendi a andar, a cair, a levantar… e a obedecer antes mesmo de pensar. Casa de um pai que me amou como um rei ama sua herdeira, e cobrava como um general treinando um soldado. Assim que desci do veículo, o ar bateu em meu rosto com cheiro de infância: jasmim, mármore úmido e disciplina. — Bell? Demir me chamou baixinho, percebendo o jeito como travei por um segundo. Eu só respondi segurando a mão dele. Firme. Firme demais para ser casual. Samira saiu do veículo também, arrumando o véu, com aquele olhar calculado de quem já entrou em muitas guerras familiares e venceu todas. — Vamos. Ela disse, começando a subir as escadas. Fiquei mais um segundo parada, respirando. E ali, naquele instante, tudo voltou: Yaman segurando minha mão para ensinar a andar. Ele me levando para a escola com seguranças porque “minha filha não pisa em qualquer lugar”. Meu pai, com aquela cara dura, mas coração mole escondido tão fundo que às vezes eu mesma duvidava da existência. Yaman dizendo: “Karaman não mente.” Eu… prestes a mentir como nunca na vida. Demir apertou minha mão… sem força, só o suficiente para me dar apoio. — Eu tô aqui. Ele murmurou, aquele grave que fazia besteira com meu sistema nervoso. Respirei fundo. Subi o primeiro degrau. O segundo. No terceiro, minha mãe virou de lado, aproximou o rosto e sussurrou: — Lembre-se: vocês são apaixonados. Ela gesticulou como quem ensina alguém a cortar cebola. — Toque a mão do seu marido com naturalidade, sorria com cara de boba… e deixe que ele aja como o pavão que ele é. Eu estava sem fôlego, ia ter que mentir para o homem que mais me conhecia na vida e aceitar as atenções do outro como se fôssemos íntimos. — Pavão? Perguntei baixinho. Samira assentiu como quem afirma que o sol nasce no leste. — Um pavão de primeira. Se deixar, ele até abre a cauda para desfilar. Demir, ouvindo só a palavra “pavão”, deu um sorriso e murmurou: — Ouvi meu nome? — Não. Respondi rápido demais. Samira suspirou fundo, impaciente: — Minha filha, você vai conseguir. Ou… Ela virou o rosto com uma calma assassina — sai daqui comprometida com outro homem. E Deus sabe o que seu pai fará com Demir. Arregalei os olhos. Demir ergueu uma sobrancelha. — Isso foi uma ameaça? Ele perguntou. — Não. Samira sorriu daquele jeito maternal e mortal. — Foi um aviso. Engoli seco. E então… subimos o último degrau. A porta abriu sozinha. Um dos seguranças anunciou: — Bey, sua filha, esposa e genro chegaram. Senti o chão sumir por um segundo. Demir puxou minha mão um pouco mais perto, como se dissesse sem palavras: Eu não largo você… mesmo que isso deixe de ser mentira. E ali estavam. Prontos, ou nada prontos… para encarar Yaman Karaman. E ele sabe ser assustador quando quer.
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