Os dias seguintes deveriam ter voltado ao normal.
Mas não voltaram.
Heloísa sentia isso.
Nos corredores silenciosos da mansão. Nos olhares discretos dos funcionários. Na maneira como os seguranças pareciam mais atentos quando ela passava.
E principalmente…
Na presença constante de Henrico De Luca.
Ela raramente o via diretamente, mas sempre sabia quando ele estava por perto. O ambiente mudava. O silêncio aumentava. Os funcionários ficavam tensos instantaneamente.
Era estranho.
Porque Henrico quase nunca permanecia na mansão durante o dia. Entrava e saía acompanhado de homens armados, carros pretos e telefonemas em italiano que sempre terminavam em ameaças baixas e ordens secas.
Mesmo assim…
Ela começou a sentir os olhos dele sobre si.
Constantemente.
Na primeira vez, estava limpando a biblioteca.
Subiu na pequena escada de madeira para alcançar as prateleiras mais altas enquanto cantarolava baixinho uma música brasileira. O vestido rosado da faxineira subiu alguns centímetros em suas pernas sem que percebesse.
Então sentiu.
Aquela sensação estranha.
Como se alguém a observasse.
Heloísa virou o rosto lentamente.
E encontrou Henrico parado na porta.
Imóvel.
Vestido inteiramente de preto, com uma das mãos no bolso da calça social. Os olhos escuros percorriam ela lentamente.
Sem vergonha alguma.
Ela quase perdeu o equilíbrio na escada.
— Senhor De Luca… eu não vi o senhor aí.
Ele não respondeu imediatamente.
Continuou olhando.
Aquilo a deixou nervosa demais.
— Você estava cantando?! — comentou finalmente.
A voz grave ecoou pela biblioteca silenciosa.
— Desculpa… isso incomoda?
— Não.
O olhar dele desceu lentamente pelas pernas dela.
— Continue.
O rosto de Heloísa aqueceu instantaneamente.
Ela desceu da escada rápido demais, quase tropeçando no último degrau.
Henrico segurou sua cintura antes que ela caísse.
Os dedos grandes apertaram sua pele por cima do uniforme fino.
O ar sumiu dos pulmões dela.
— Cuidado ,não vai se machucar.
Heloísa afastou-se rapidamente.
— Obrigada.
Henrico continuou olhando para ela em silêncio.
Como se estivesse pensando coisas perigosas.
Então simplesmente saiu da biblioteca sem dizer mais nada.
E aquilo deveria ter sido o fim.
Mas não foi.
Porque depois disso, Henrico começou a aparecer em todos os lugares.
Na cozinha. Nos corredores. Na sala de jantar. Na biblioteca.
apenas aparecia sem falar uma única palavra ...
Como se procurasse motivos para desconfiar dela.
Ou talvez…
Motivos para continuar olhando.
Os funcionários perceberam rapidamente.
Especialmente Bianca.
Naquela tarde, enquanto Heloísa organizava flores na enorme sala principal, a governanta aproximou-se discretamente.
— O senhor De Luca nunca repara nas funcionárias.
Heloísa ergueu os olhos rapidamente.
— Eu não fiz nada.
— Eu sei.
Bianca suspirou.
— E talvez esse seja exatamente o problema.
Antes que Heloísa pudesse perguntar o que aquilo significava, vozes masculinas ecoaram pelo corredor principal.
Homens de terno entraram na mansão acompanhados de seguranças armados.
O ambiente mudou imediatamente.
Os funcionários abaixaram os olhos automaticamente.
Henrico apareceu logo depois.
A expressão fria. Os passos lentos. A postura dominante.
Os homens começaram a conversar em italiano rápido demais para Heloísa entender.
Mas uma palavra chamou sua atenção.
Polizia.
Polícia.
Ela tentou continuar limpando sem prestar atenção, exatamente como sempre fazia.
Porque aquela não era sua vida.
Não queria problemas. Não queria saber de nada. Só queria trabalhar.
Então algo caiu no chão.
Um envelope.
Os homens imediatamente ficaram em silêncio.
Heloísa congelou ao perceber que o envelope havia parado perto dos seus pés.
Ninguém se moveu.
O clima ficou pesado instantaneamente.
Ela ergueu os olhos devagar.
Todos estavam olhando para ela.
Inclusive Henrico.
O coração dela começou a bater forte.
Muito forte.
Sem pensar demais, apenas pegou o envelope do chão e caminhou calmamente até Henrico.
não abriu pois não era da sua conta , qualquer outra pessoa teria ficado curiosa ..
Entregou diretamente nas mãos dele.
— Caiu, senhor.
O silêncio permaneceu absoluto.
Os homens pareciam surpresos.
Henrico olhou para o envelope. Depois para ela.
Longamente.
— obrigado .
Os homens trocaram olhares discretos.
Como se aquilo fosse incomum.
Henrico continuou encarando ela por alguns segundos.
Então pegou o envelope lentamente.
— Vá terminar seu trabalho.
Ela assentiu imediatamente.
Mas antes que saísse completamente da sala, ouviu um dos homens rir baixo.
— que bonita e ainda e " certinha"
Outro respondeu em italiano:
— será? ...eu não confiaria tanto .
Heloísa fingiu não ouvir.
Porém, quando levantou os olhos rapidamente antes de sair…
Encontrou Henrico ainda olhando para ela.
E daquela vez…
Não havia raiva em seu olhar.
Havia algo muito pior.
Interesse, oque era muito pior.