Eu teria que voltar

514 Words
​— Sou nova, senhor. Desculpe qualquer inconveniente — falei, desviando o olhar. ​Minha voz soou estranha para mim mesma, como se estivesse vindo de um lugar muito distante. Eu peguei a lixeira e comecei a esvaziá-la, mas a pergunta dele — "Quem é você?" — continuava ecoando na minha mente. Aquilo doeu na alma. Doeu porque a resposta que eu queria dar estava guardada há dezesseis anos, mas o homem diante de mim não parecia pronto para ouvi-la. ​Enquanto eu amarrava o saco de lixo, uma lembrança me abateu com força, tão nítida que quase pude sentir o cheiro do vento frio. ​Era outono no orfanato. As folhas secas voavam pelo pátio, dançando em redemoinhos. Jean estava lá. Ele usava umas luvas de lã sem dedos, uma roupa que parecia grande demais para o corpo magro dele. Eu não tinha roupas de inverno suficientes; minhas mãos estavam duras, congelando, ficando vermelhas de frio. ​Ele percebeu. Jean sempre percebia. ​Sem dizer muito, ele tirou as luvas e as estendeu para mim. Eu neguei com a cabeça, encolhendo os ombros. ​— Pega. Eu já tô quente, tu não pode adoecer — ele disse, com aquela teimosia gentil, colocando as luvas nas minhas mãos quase à força. ​As folhas da árvore voavam ao nosso redor. O céu estava cinza, anunciando a tormenta que viria, e apenas o marrom e o amarelo das folhas mudavam o cenário triste daquele pátio. ​— Jean! Vem jogar! — gritaram lá longe. ​Ele se despediu de mim com um aceno e saiu correndo para o pátio, os cabelos balançando no vento. Eu fiquei sentada, olhando-o partir, sentindo o calor da lã dele nos meus dedos. Jean era o meu ponto de paz naquele inferno. ​Voltei à realidade com o som seco de Jean fechando uma pasta sobre a mesa. O estalo me trouxe de volta para o 12º andar do Edifício Manssoni. O luxo, o mármore e a indiferença. ​O Jean que dava as luvas tinha morrido. O homem que estava ali agora não se importaria se eu estivesse congelando. ​Terminei de recolher o material. Olhei para o relógio de pulso: faltavam apenas quinze minutos para o meu turno acabar. Eu precisava descer rápido para não perder a van da empresa. ​Saí de fininho, como um fantasma que termina sua assombração. Não olhei para trás. Empurrei meu carrinho de limpeza pelo corredor silencioso, sentindo o peso do carrinho de madeira no meu bolso. Eu tinha sobrevivido à primeira noite, mas o silêncio de couro da minha vida agora estava cheio de perguntas que eu não sabia se queria responder. ​Passei pelo crachá de ponto, troquei de roupa no vestiário e saí para o ar frio da madrugada de cidade. A van já estava lá, com as luzes acesas. Entrei e me sentei no fundo, encostando a cabeça no vidro gelado. ​Enquanto a van se afastava do prédio imenso, eu só conseguia pensar em uma coisa: amanhã eu teria que voltar. E amanhã, Jean estaria lá novamente.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD