Maite:
Deixei a Mag no ponto dela ela estava nervosa, roendo as unhas; coitada, deve ser horrível se sentir assim. Ela sempre foi sensível demais. Já eu? Sou o contrário. Eu bato, xingo e mando tomar naquele lugar sem pensar duas vezes a vida me ensinou que, se você não mostrar os dentes, eles te devoram.
Subi no ônibus, peguei a ficha e paguei. Passei a catraca e fui direto para o fundo. É a minha "limusine de pobre". Quase gargalhei com o pensamento a vida é assim não dá para ficar só vendo o lado r**m. Sinto saudade dos meus pais? Sentia. Até saber que eram alcoólatras e que o Conselho Tutelar me resgatou depois de eles quase terem me colocado fogo. Tive sorte, suponho. No Maria das Dores eu não virei churrasco, só virei bicho.
Desci do ônibus gritando "vai descer!". A porta abriu e eu saí caminhando rápido. Essa hora da noite no centro é um perigo. Entrei pelos fundos do bar e já dei de cara com uma briga. Aqui isso já virou rotina.
— Imundície! Tu queria me roubar! — o Zeca gritava, dando socos em algum infeliz.
Os seguranças me deixaram passar, já me conheciam.
— Aí, Valen! Começou intenso, hein? — brinquei, rindo enquanto amarrava o avental.
Valen era minha colega de turno, a gente se levava bem. Minha jornada começou naquele ritmo de sempre: bando de homens pedindo uísque, outros cerveja, outros petiscos. O Zeca comandava a cozinha como um general, mandando as batatas saírem em tempo e forma. Podia acontecer uma tragédia no salão, mas o Zeca não parava por nada.
Do nada, o Dominic surgiu. O filho do dono. Outro ser místico e estranho, de cara amarrada e músculos que pareciam que iam estourar a camisa. Ele só aparecia quando precisava de algo. A Valen era apaixonadinha por ele, já eu... eu repudiava. Achava ele um ogro m*l-humorado, sempre fechado, não sorria para nada e amava dar ordens.. como se fose pai
Eu estava terminando de servir uma jarra de cerveja na mesa dois quando o Zeca me mandou limpar o reservado. Olhei direto para ele e assenti bufando. Peguei os produtos e fui. O reservado ficava lá fora, era uma mesa onde aconteciam as reuniões que eu gostava de chamar de "reuniões do governo" — de tão secretas e sujas que deviam ser.
Deixei tudo brilhando e, ao sair, dei de cara com o peito de aço do Dominic.
— Olha por onde passa! — rosnou ele.
— Desculpa, chefia... — respondi debochada, passando por ele e voltando para o salão.
Não demorou muito para homens de cara amarrada chegarem. O Zeca preparou os combos completos e me mandou entregar. Xinguei mentalmente, mas fui.
— Licença — falei, colocando os copos de uísque na mesa, precisando literalmente empurrar as armas que estavam em cima da madeira para fazer espaço.
Dominic me encarou com aqueles olhos de quem não tem alma:
— Deixa a garrafa.
Assenti e dei meia volta. No que virei de costas, ouvi um dos homens rindo:
— Essa aí tá pra venda?
Senti o sangue ferver, mas antes que eu pudesse virar e dar um soco, ouvi a voz grossa do Dominic:
— Respeita, se não quiser ficar sem os olhos.
Engoli em seco e entrei na cozinha. O coração batia rápido. Os petiscos já estavam saindo e, antes que eu pudesse pegá-los, a Valen se meteu na frente.
— O Dominic quer que eu sirva agora — ela disse, toda cheia de si.
Só aceitei. Ué, eu não tinha culpa se ela era "gostosa" e queria se oferecer para o perigo. Eu queria era distância daqueles caras.
— Acorda, garota! Isso aqui é para a mesa oito! — o Zeca gritou no meu ouvido.
— Ai, Zeca! Que susto, cara! — gritei de volta, pegando a bandeja.
Enquanto eu equilibrava os pratos, minha mente voou para a Magnólia. Eu ali, entre armas e bêbados, e ela lá, limpando o luxo dos Manssoni. m*l a gente sabia que o barulho do meu bar e o silêncio do escritório dela estavam começando a falar a mesma língua...