Dose Dupla de Realidade:

715 Words
​Maite: ​Deixei a Mag no ponto dela ela estava nervosa, roendo as unhas; coitada, deve ser horrível se sentir assim. Ela sempre foi sensível demais. Já eu? Sou o contrário. Eu bato, xingo e mando tomar naquele lugar sem pensar duas vezes a vida me ensinou que, se você não mostrar os dentes, eles te devoram. ​Subi no ônibus, peguei a ficha e paguei. Passei a catraca e fui direto para o fundo. É a minha "limusine de pobre". Quase gargalhei com o pensamento a vida é assim não dá para ficar só vendo o lado r**m. Sinto saudade dos meus pais? Sentia. Até saber que eram alcoólatras e que o Conselho Tutelar me resgatou depois de eles quase terem me colocado fogo. Tive sorte, suponho. No Maria das Dores eu não virei churrasco, só virei bicho. ​Desci do ônibus gritando "vai descer!". A porta abriu e eu saí caminhando rápido. Essa hora da noite no centro é um perigo. Entrei pelos fundos do bar e já dei de cara com uma briga. Aqui isso já virou rotina. ​— Imundície! Tu queria me roubar! — o Zeca gritava, dando socos em algum infeliz. ​Os seguranças me deixaram passar, já me conheciam. ​— Aí, Valen! Começou intenso, hein? — brinquei, rindo enquanto amarrava o avental. ​Valen era minha colega de turno, a gente se levava bem. Minha jornada começou naquele ritmo de sempre: bando de homens pedindo uísque, outros cerveja, outros petiscos. O Zeca comandava a cozinha como um general, mandando as batatas saírem em tempo e forma. Podia acontecer uma tragédia no salão, mas o Zeca não parava por nada. ​Do nada, o Dominic surgiu. O filho do dono. Outro ser místico e estranho, de cara amarrada e músculos que pareciam que iam estourar a camisa. Ele só aparecia quando precisava de algo. A Valen era apaixonadinha por ele, já eu... eu repudiava. Achava ele um ogro m*l-humorado, sempre fechado, não sorria para nada e amava dar ordens.. como se fose pai ​Eu estava terminando de servir uma jarra de cerveja na mesa dois quando o Zeca me mandou limpar o reservado. Olhei direto para ele e assenti bufando. Peguei os produtos e fui. O reservado ficava lá fora, era uma mesa onde aconteciam as reuniões que eu gostava de chamar de "reuniões do governo" — de tão secretas e sujas que deviam ser. ​Deixei tudo brilhando e, ao sair, dei de cara com o peito de aço do Dominic. ​— Olha por onde passa! — rosnou ele. ​— Desculpa, chefia... — respondi debochada, passando por ele e voltando para o salão. ​Não demorou muito para homens de cara amarrada chegarem. O Zeca preparou os combos completos e me mandou entregar. Xinguei mentalmente, mas fui. ​— Licença — falei, colocando os copos de uísque na mesa, precisando literalmente empurrar as armas que estavam em cima da madeira para fazer espaço. ​Dominic me encarou com aqueles olhos de quem não tem alma: — Deixa a garrafa. ​Assenti e dei meia volta. No que virei de costas, ouvi um dos homens rindo: — Essa aí tá pra venda? ​Senti o sangue ferver, mas antes que eu pudesse virar e dar um soco, ouvi a voz grossa do Dominic: — Respeita, se não quiser ficar sem os olhos. ​Engoli em seco e entrei na cozinha. O coração batia rápido. Os petiscos já estavam saindo e, antes que eu pudesse pegá-los, a Valen se meteu na frente. ​— O Dominic quer que eu sirva agora — ela disse, toda cheia de si. ​Só aceitei. Ué, eu não tinha culpa se ela era "gostosa" e queria se oferecer para o perigo. Eu queria era distância daqueles caras. ​— Acorda, garota! Isso aqui é para a mesa oito! — o Zeca gritou no meu ouvido. ​— Ai, Zeca! Que susto, cara! — gritei de volta, pegando a bandeja. ​Enquanto eu equilibrava os pratos, minha mente voou para a Magnólia. Eu ali, entre armas e bêbados, e ela lá, limpando o luxo dos Manssoni. m*l a gente sabia que o barulho do meu bar e o silêncio do escritório dela estavam começando a falar a mesma língua... ​
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