Magnólia:
O cheiro do café passado era a única coisa que trazia ordem àquela cozinha minúscula antes do sol terminar de nascer. Eu observava o vapor subir quando a porta se abriu com tudo. Era Maite.
Nós saímos daquele inferno juntas — o Orfanato Maria das Dores — e dividíamos essa casa como quem divide uma trincheira. Ela chegava do trabalho com o rosto cansado de quem teve que aguentar bêbados a noite inteira em um bar, o cheiro de cigarro alheio grudado no cabelo.
Maite me olhou sem falar nada de imediato. Seus olhos gritavam exaustão.
— Café? — perguntei, minha voz saindo baixa, ainda acordando.
— Com leite — ela respondeu, jogando-se no sofá como se os ossos tivessem virado chumbo.
Enquanto ela desabafava sobre um homem que não a deixou em paz a noite inteira no balcão do bar, eu seguia meu ritual. Coloquei o pão para esquentar no forno. Preparei o café com leite, caprichando na espuma, e cortei o pão, polvilhando orégano por cima da margarina derretida. Entreguei o prato para ela enquanto ela ainda falava. Já era um hábito nosso: Maite era o som da casa; eu era o silêncio que ouvia.
Eu segurava minha xícara, sentindo o calor nas palmas das mãos, e só conseguia pensar em uma coisa: amanhã. Meu novo trabalho.
De repente, bateram na porta. O som seco ecoou pela sala pequena. Maite parou de falar no meio de uma frase e me encarou.
— Tá esperando alguém?
Balancei a cabeça negando. Senti aquele frio familiar na barriga, o mesmo de quando eu era pequena e esperava alguém que nunca vinha. Maite se levantou e abriu a porta.
— Aqui mora Magnólia?
Era um entregador. Maite confirmou e recebeu um pacote pardo. Quando ela fechou a porta e me entregou, meu coração acelerou. Eram meus uniformes. Eu tinha conseguido um emprego em uma empresa de limpeza pesada; o turno era noturno, em escritórios vazios. Para mim, era o cenário perfeito: sem barulho, sem colegas chatos, apenas eu e o eco dos meus próprios passos nos corredores.
Maite olhou para a peça de roupa na minha mão e fez uma careta:
— É horrível.
— Eu sei — respondi, indo até o espelho.
Vesti a túnica e coloquei a touca de cor marrom. Olhei para o meu reflexo. A cor era sóbria, quase da cor daquela Bíblia velha que eu ainda guardava na gaveta. Mas, pela primeira vez, eu não me sentia uma "menina deixada para trás". Eu estava feliz. Minha primeira carteira assinada, minha primeira chance de ser alguém que não dependia da caridade de ninguém.
Eu estava prestes a recomeçar...
Logo após o café, Maite se rendeu ao sono. Vi quando ela fechou a porta do quarto e o silêncio finalmente se instalou na casa. Comecei a limpar tudo devagar, movendo as cadeiras com a ponta dos dedos para não fazer barulho. Eu gostava desse cuidado, desse respeito pelo descanso alheio.
Quando terminei, peguei minha bolsa. Dentro dela, o peso reconfortante da minha câmera.
Ela foi um presente do Sr. Arnaldo, um velho servente do orfanato que era a única alma que parecia me enxergar de verdade naquele lugar. Ele dizia que, se eu não queria falar, deveria deixar que o mundo falasse comigo através das imagens.
Saí para a rua. A manhã estava úmida, as calçadas de Rivera ainda brilhando com o resto da garoa. Eu caminhava sem pressa, observando as pessoas. Gostava de tirar fotos polaroide; havia algo de mágico em ver a imagem ganhando cor aos poucos, como uma memória que se recusa a ser esquecida.
Eu buscava cores e sorrisos.
Foquei a lente em uma senhora que ria enquanto falava com o vendedor de frutas. Click. A foto saiu, e eu a balancei suavemente no ar. Em outra esquina, uma criança corria atrás de um cachorro, o rosto iluminado por uma alegria pura. Click.
Minha coleção de polaroides era o meu tesouro secreto. Eram pedaços de felicidade que eu roubava do mundo e guardava em uma caixa de sapatos debaixo da minha cama. Eu achava aquelas fotos lindas, mesmo que eu mesma não conseguisse mais sorrir daquele jeito. O meu sorriso parecia ter ficado preso naquele banco de igreja, dezesseis anos atrás.
Enquanto caminhava, cheguei perto de uma praça antiga. Sentei-me em um banco e comecei a olhar as fotos que tinha tirado.
De repente, uma sombra se projetou sobre mim.
Olhei para cima, pronta para me levantar e sair, mas meu corpo congelou.
Um homem passava por mim. Ele não parou, mas nossos olhos se cruzaram por um milésimo de segundo. Eram verdes. Um verde que eu conhecia tão bem quanto o peso da minha própria respiração. Mas eu já tinha desistido de procurá-lo há tempos.
Ele apressou o passo e dobrou a esquina. Minhas mãos tremeram tanto que quase derrubei a câmera. Por puro instinto, levantei a lente e disparei contra as costas dele. Click.
Fiquei ali, sentada no banco da praça, esperando a polaroide revelar. A imagem foi ganhando cor... o cinza da rua, a jaqueta escura dele... Mas quando a foto ficou nítida, meu coração parou.
No meio do movimento dele, a foto capturou algo que caiu do bolso daquela jaqueta. Um pequeno objeto no chão, que ele não viu cair.
Guardei a câmera e corri até o local. Abaixei-me e meus dedos tocaram a madeira fria e gasta. Era um carrinho. Esculpido à mão.
Jean não era um fantasma. Ele estava aqui. E, de alguma forma, ele ainda carregava o nosso passado no bolso.