Jean:
Entrei na clínica e o cenário era de guerra. Corredores superlotados, o cheiro metálico de sangue misturado ao antisséptico e o pânico vibrando no ar. Mais de três ônibus assaltados simultaneamente; uma catarse de violência que a cidade conhecia bem. Avistei Edgar, o braço direito de Dominic, sendo atendido às pressas, mas meu foco estava no fundo do corredor.
Caminhei com passos firmes até encontrar Dominic. Ele estava batendo boca com uma enfermeira, os olhos injetados de uma fúria perigosa.
— Mas ela está bem, não está? — ele rosnava, a voz vibrando de uma preocupação que ele raramente demonstrava.
— Senhor, ela está bem! Está com a amiga. Só pode entrar um por vez! — a enfermeira tentava recuar, acuada.
Percebi que, se eu não interviesse, Dominic explodiria. Coloquei a mão em seu ombro e senti seu corpo enrijecer. Ele se virou rápido, como um animal pronto para o ataque.
— O que você faz aqui? — perguntou, surpreso ao me ver fora do meu habitat de vidro e aço.
A enfermeira saiu disparada, certamente me agradecendo mentalmente.
— Trouxe uma funcionária para ver a amiga — respondi, mantendo a voz baixa. — E você?
— Aqui está uma loucura, Jean. Maite, uma funcionária do bar, se cortou feio com cacos de vidro.
— Maite... esse nome não me é estranho — murmurei, a polaroide no meu bolso parecendo queimar minha pele. — Já sabe quem foram os responsáveis?
Dominic me olhou com uma seriedade mortal.
— Briga de poder. Você sabe como funciona.
Assenti. No nosso mundo, o acaso não existe.
— Mas, pelo jeito, a mulher lá dentro é algo seu, não apenas uma funcionária. Olha o teu estado — brinquei, tentando aliviar a tensão.
Ele passou a mão no rosto, bufando.
— É a minha dor de cabeça... mas ela nem sonha com isso.
Sorri de canto. Era estranho e reconfortante ver Dominic mais humano. Nesse instante, a porta se abriu e a tal Maite passou por ela. Quando nossos olhos se cruzaram, ela travou. Vi o espanto em seu rosto, como se ela estivesse diante de um fantasma. Dominic percebeu a mudança de postura dela na hora.
— O que foi, Maite? — ele perguntou, a voz subitamente protetora.
— Nada, não... Pensei que conhecia ele, mas ele é grã-fino, como é que eu ia conhecer alguém assim? — Ela respondeu rápido, tentando disfarçar, mas o desconforto era evidente.
Dominic ficou observando, desconfiado.
— Cadê tua amiga?
— No banheiro. Já posso ir embora, vamos logo — disse ela, impaciente.
— Não, eu levo vocês — Dominic ofereceu.
Maite, de imediato, foi curta e grossa:
— A gente vai por nossa conta.
Dominic ia protestar, mas ela foi mais rápida, cortando-o com a mesma autoridade de quem manda no mundo:
— Eu estou machucada, você já viu. Não faltei porque quis. Amanhã estou no trampo.
E, pela primeira vez na vida, eu vi o Dominic calado. Ele queria dizer mil coisas, mas ficou quieto, apenas observando-a. Eu conhecia aquela boca afiada. Não havia erro. Era a Maite. A "peste" do orfanato que enfrentava as monitoras para me proteger estava ali, na minha frente.
E então, pela porta, ela passou. Magnólia.
Fiquei sem reação. O ar pareceu faltar nos meus pulmões. Como eu não percebi antes? Como não reconheci aquele olhar que me assombrou por dezesseis anos?
— Senhor... pode ir. Ela já está bem — Magnólia disse, com a voz mansa, sem me olhar nos olhos.
— Já falei, Mag, vamos embora! — Maite a puxou pelo braço com urgência.
Fiquei parado, em silêncio, apenas observando o meu passado ir embora de novo. Mas, desta vez, eu não ia deixar o silêncio durar mais dezesseis anos.