O Despertar do Passado

650 Words
​Jean: ​Entrei na clínica e o cenário era de guerra. Corredores superlotados, o cheiro metálico de sangue misturado ao antisséptico e o pânico vibrando no ar. Mais de três ônibus assaltados simultaneamente; uma catarse de violência que a cidade conhecia bem. Avistei Edgar, o braço direito de Dominic, sendo atendido às pressas, mas meu foco estava no fundo do corredor. ​Caminhei com passos firmes até encontrar Dominic. Ele estava batendo boca com uma enfermeira, os olhos injetados de uma fúria perigosa. ​— Mas ela está bem, não está? — ele rosnava, a voz vibrando de uma preocupação que ele raramente demonstrava. ​— Senhor, ela está bem! Está com a amiga. Só pode entrar um por vez! — a enfermeira tentava recuar, acuada. ​Percebi que, se eu não interviesse, Dominic explodiria. Coloquei a mão em seu ombro e senti seu corpo enrijecer. Ele se virou rápido, como um animal pronto para o ataque. ​— O que você faz aqui? — perguntou, surpreso ao me ver fora do meu habitat de vidro e aço. ​A enfermeira saiu disparada, certamente me agradecendo mentalmente. ​— Trouxe uma funcionária para ver a amiga — respondi, mantendo a voz baixa. — E você? ​— Aqui está uma loucura, Jean. Maite, uma funcionária do bar, se cortou feio com cacos de vidro. ​— Maite... esse nome não me é estranho — murmurei, a polaroide no meu bolso parecendo queimar minha pele. — Já sabe quem foram os responsáveis? ​Dominic me olhou com uma seriedade mortal. — Briga de poder. Você sabe como funciona. ​Assenti. No nosso mundo, o acaso não existe. — Mas, pelo jeito, a mulher lá dentro é algo seu, não apenas uma funcionária. Olha o teu estado — brinquei, tentando aliviar a tensão. ​Ele passou a mão no rosto, bufando. — É a minha dor de cabeça... mas ela nem sonha com isso. ​Sorri de canto. Era estranho e reconfortante ver Dominic mais humano. Nesse instante, a porta se abriu e a tal Maite passou por ela. Quando nossos olhos se cruzaram, ela travou. Vi o espanto em seu rosto, como se ela estivesse diante de um fantasma. Dominic percebeu a mudança de postura dela na hora. ​— O que foi, Maite? — ele perguntou, a voz subitamente protetora. ​— Nada, não... Pensei que conhecia ele, mas ele é grã-fino, como é que eu ia conhecer alguém assim? — Ela respondeu rápido, tentando disfarçar, mas o desconforto era evidente. ​Dominic ficou observando, desconfiado. — Cadê tua amiga? ​— No banheiro. Já posso ir embora, vamos logo — disse ela, impaciente. ​— Não, eu levo vocês — Dominic ofereceu. ​Maite, de imediato, foi curta e grossa: — A gente vai por nossa conta. ​Dominic ia protestar, mas ela foi mais rápida, cortando-o com a mesma autoridade de quem manda no mundo: — Eu estou machucada, você já viu. Não faltei porque quis. Amanhã estou no trampo. ​E, pela primeira vez na vida, eu vi o Dominic calado. Ele queria dizer mil coisas, mas ficou quieto, apenas observando-a. Eu conhecia aquela boca afiada. Não havia erro. Era a Maite. A "peste" do orfanato que enfrentava as monitoras para me proteger estava ali, na minha frente. ​E então, pela porta, ela passou. Magnólia. ​Fiquei sem reação. O ar pareceu faltar nos meus pulmões. Como eu não percebi antes? Como não reconheci aquele olhar que me assombrou por dezesseis anos? ​— Senhor... pode ir. Ela já está bem — Magnólia disse, com a voz mansa, sem me olhar nos olhos. ​— Já falei, Mag, vamos embora! — Maite a puxou pelo braço com urgência. ​Fiquei parado, em silêncio, apenas observando o meu passado ir embora de novo. Mas, desta vez, eu não ia deixar o silêncio durar mais dezesseis anos.
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