Jean:
Levantei cedo. O silêncio daquela mansão era sufocante e eu não queria cruzar com ninguém. Vesti o terno, ajustei a gravata e alinhei os cabelos no espelho; a armadura estava pronta. Saí de fininho, como sempre. No pátio, meu carro já estava posicionado e brilhando. Cortesia do Joelson. Eu não menti quando pensei que ele me conhecia melhor que o Daniel; ele sabia que eu precisava de fuga...
Coloquei minha mão debaixo do banco do carro, mas meu carrinho de madeira não estava. Passei a mão por tudo; era uma das poucas lembranças da minha infância. Fiquei apreensivo, mas com certeza Alice tinha pegado. Ela adorava olhar e me fazia contar a história dele até ficar cansada.
Dirigi enquanto o dia clareava. Dormir em uma cama de verdade depois de dias no escritório tinha me dado uma energia renovada, mas a paz durou pouco. Assim que estacionei na empresa e subi o elevador, o peso da rotina voltou.
O andar estava vazio, sem uma alma viva. Eu caminhava com passos firmes e acelerados, um costume que o mundo dos negócios me impôs. No meio do corredor, algo pequeno e quadrado no carpete escuro chamou minha atenção. Meu pé quase esmagou o objeto.
Abaixei-me e levantei suavemente. Era uma foto polaroide.
Senti um calafrio. Aquela foto me fez lembrar de alguém instantaneamente. Era a imagem de uma menina de costas, apontando para o céu. Tentei forçar a memória para lembrar quem era, mas os detalhes escapavam. Aquele cabelo loiro... eu podia jurar que era a Maite, uma amiga do orfanato que vivia grudada na Mag. Mas o que uma foto dela faria no meu corredor?
Balancei a cabeça, guardei a foto no bolso interno do paletó e segui para a minha sala. Não demorou muito para a Kasandra entrar.
— Bom dia, chefe.
— Bom dia.
— O pen-drive está pronto. Fiquei até tarde, mas consegui. Ah, e a faxineira nova é uma boa pessoa... me fez um café — ela comentou, deixando a xícara sobre a mesa.
Olhei para ela sem esboçar reação, mas por dentro estranhei. Kasandra jamais elogiava ninguém. Ela era uma máquina. O café que a tal faxineira fez deve ter sido realmente extraordinário para amolecer o gelo da minha secretária.
— Bom, hoje temos reunião à uma. E um tal de Dominic ligou. Disse que o senhor saberia quem era.
Meu corpo ficou tenso no mesmo instante.
— Diga para ele que apareça.
Ela assentiu e saiu sem fazer perguntas. Fiquei olhando para o vazio. Dominic. Estudamos inglês juntos, mas fomos muito além de verbos e gramática. Ele foi quem me apresentou à verdadeira maldade na minha época mais rebelde. Dominic era um homem leal aos dele, mas se alguém vacilasse, ele matava sem dor. No fundo, a vida me ensinou que tinha que ser assim. Não havia outra opção para quem queria sobreviver no topo.
Passei a mão sobre o bolso onde estava a polaroide. A menina da foto apontava para o céu, buscando algo que não estava lá. Eu me sentia exatamente assim. Cercado de poder, de ternos caros e reuniões com homens perigosos como o Dominic, mas no fundo, eu era apenas o menino que ainda procurava por um rastro de luz no escuro.
Me forcei a parar de pensar. Abri a pasta e comecei a ver os gráficos e as estatísticas; tinha que me preparar para a reunião. Eles tinham que ficar impressionados, mas eu estava falhando miseravelmente. Eu lembrava do sorriso banguela da Mag — o dente tinha caído um dia antes da minha saida do orfanato consegui que a fada do dente deixasse umas jujubas pra ela
O que seria dela hoje em dia? Eu me mantive longe não porque queria, e sim para protegê-la. Entendi que só eu podia cuidar dela, mas ela merecia ser adotada por uma família boa...