— Ah, eu estou exausto. — Reinaldo entrou na sala junto de Aline e largou-se no sofá com um suspiro pesado. A gravata estava um pouco desalinhada, a camisa levemente amarrotada; ele encostou a nuca no encosto e fechou os olhos por um segundo. — Rita! — chamou alto, a voz ecoando nas paredes claras da sala.
— Nem fala… só quero um banho e cama. — Aline deitou a cabeça no ombro do marido, os cílios depositando uma sombra curta sobre as maçãs do rosto. Tirou os sapatos, arrumou a saia sobre as pernas e permitiu-se um pequeno sorriso fatigado.
Pouco depois, Rita apareceu, vindo da cozinha — avental amarrado na cintura, mãos ainda úmidas de água e cheiro de detergente e limão em seus dedos. O pano que segurava tinha pequenas marcas de farinha; ela enxugou as mãos no avental antes de falar.
— Pois não? — respondeu gentil, inclinando-se ligeiramente.
— Onde está a Luna? — Aline perguntou, olhando ao redor; o silêncio da casa soava pesado, quebrado apenas pelo tique-taque discreto do relógio de parede.
— No quarto… ou melhor, na piscina privada, com as amigas. — Rita corrigiu-se, ao mesmo tempo que evitava o olhar do casal, como quem tem receio de trazer más notícias.
— Ângela e Melissa? — Aline confirmou, já visualizando toalhas coloridas e protetor solar espalhado.
— Estavam na sala fazendo um trabalho, mas depois foram pra lá. — Rita fez uma pausa, ajeitou o avental e acrescentou, meio envergonhada: — Acho melhor avisar que… eles se estranharam de novo.
— Ah, a Luna não muda mesmo. — Reinaldo balançou a cabeça, a expressão firme. — Ela te tratou m*l outra vez?
— Do jeito dela… — Rita tentou minimizar, mordendo ligeiramente o lábio. — Não foi nada grave, mas o Gabriel exagera quando acha que precisa me defender.
Nesse instante, Gabriel surgiu no corredor como se tivesse saído do nada: passos firmes, camiseta remexida pela manhã de trabalho, mãos com marcas leves de terra — sinais de quem tinha passado o dia no jardim. O rosto trazia a cor do sol; ainda assim, havia uma calma contida na maneira como encarou a cena.
— Não exagero nada! — Ele falou sem aviso, e o susto fez Rita levar a mão ao peito por um segundo. — Você devia contar a verdade pra eles.
— Gabriel, não se mete. — Rita lançou-lhe um olhar rápido de advertência. — Eles são os patrões, não é como conversar com o seu Chico do jardim.
— Rita, deixa. — Aline sorriu, maternal. — É bom sabermos.
— Gabriel, vai lá chamar a Luna pra mim. — Reinaldo pediu.
Gabriel arqueou a sobrancelha, fazendo um gesto como se estivesse a contragosto.
— Eu? — murmurou. — Ela deve estar cuspindo fogo de raiva de mim.
— Diz que fui eu quem mandou. — Reinaldo fez o gesto final, terminando a discussão.
Gabriel subiu as escadas sem pressa. O rangido antigo dos degraus acompanhou seu passo, e a claridade vinda da varanda foi ficando mais forte à medida que ele se aproximava do piso superior. Ao abrir a porta do pequeno espaço da piscina, foi recebido pelo brilho da água: azulejos azuis, o reflexo do sol saltando como pequenos cacos de vidro e toalhas listradas espalhadas sobre espreguiçadeiras. Havia um cheiro de protetor solar e coqueiro no ar.
As amigas conversavam deitadas, vozes suaves entre risos; Luna estava estirada de costas, óculos escuros cobrindo os olhos, pele bronzeada e canga estampada ao lado. Por um instante, Gabriel deixou o olhar demorar-se na cena — a luz desenhava contornos nos ombros dela — e expulsou o pensamento, lembrando-se do recado.
Ângela foi a primeira a notá-lo. Ela levantou delicadamente o óculos escuros, a lente escancarando um brilho traquina nos olhos; mordeu a ponta da armação com a ponta dos dentes, como quem saboreia um segredo ao ver alguém atraente. O metal da armação reluziu sob o sol.
— Mas que gato… — sussurrou, tão baixo que só quem estivesse perto ouviria; Luna revirou os olhos com desdém e ajeitou a toalha.
— O que você tá fazendo aqui? — Luna praticamente gritou, puxando as palavras como quem empurra água. A voz dela cortou o ar quente.
— Isso aqui não é o jardim, não tem por que vir aqui. — acrescentou, a impaciência marcada no tom. A ponta do biquíni riscada com o padrão caro da loja que a mãe adorava lembrava o contraste entre sua postura e a simplicidade do rapaz que estava à sua frente.
— Para de drama, mimadinha. — Gabriel cruzou os braços, deixando à vista o peito bronzeado; havia um leve fiapo de terra na jardineira, lembrança do trabalho. — Seu pai mandou te chamar. Eu não chego perto de você por escolha própria.
— E não tinha nenhum outro funcionário disponível?
— Pergunta pra ele. — Ele respondeu seco, virando de costas com a tranquilidade de quem sabe a hora de sair.
Luna bufou, jogou o cabelo para trás e se virou para as amigas, mordendo a boca num gesto ambiente de superioridade.
— Viu só que insuportável? — reclamou.
Ângela, ainda com o óculos na mão, arfou de leve, o brilho nos olhos denunciando que o julgamento dela não se limitava à arrogância do garoto.
— Você esqueceu de mencionar que ele é muito bonito. — disse, ainda meio hipnotizada.
— Ah, não! — Luna sentou-se na beira da piscina, mergulhando os dedos na água por um segundo para mostrar desdém. — Nem pensa em ir atrás dele.
— E se eu estiver apaixonada? — Ângela provocou, ajeitando a alça do biquíni como quem anuncia uma travessura.
— Você se apaixona por um cara por semana. — Luna cortou, com olhar de rainha ofendida. — Mas esse, não.
Melissa ergueu a sobrancelha e lançou um sorriso pequeno e conspiratório:
— A menos que toda essa implicância seja porque você gostou dele.
— Se manca. — Luna bufou, amarrou a canga com um nó firme e levantou-se, emoldurada pelo sol que fazia pontinhos dourados na água.
Ela desceu até a sala principal, onde encontrou o pai já esperando. Reinaldo cruzou os braços, vincos de cansaço marcando o rosto, e falou com a autoridade de quem conhece a casa:
— Me chamou?
— Quero saber quando você vai parar de brigar com o Gabriel. — Ele a encarou sério, o tom firme. — Isso está deixando o ambiente da casa péssimo.
— Eu sou sua filha. Devia expulsar ele, não me obrigar a conviver.
— A vida não vai ser sempre do jeito que você quer, filha. — Reinaldo encerrou a conversa, subindo as escadas com passos largos que deixaram um eco pelo corredor.
Com o passar dos meses, mantiveram-se na paz aparente — uma trégua composta por encontros evitados e olhares desviados. Nesse tempo, Gabriel trabalhou com afinco; as mãos calejadas limparam canteiros e consertaram mangueiras, e Reinaldo, observando a dedicação, passou a tratá-lo com a estima de um pai substituto. No escritório do patriarca — uma sala de madeira escura, diplomas emoldurados alinhados na parede e uma luminária antiga projetando um círculo de luz sobre a mesa — Reinaldo falou com contatos e, em pouco tempo, garantiu para Gabriel uma bolsa integral.
A notícia chegou como um sopro quente de esperança: Gabriel correu para a cozinha, pulando discretamente de alegria, e Rita abraçou-o num abraço longo e terno. Em seguida, foi às papelarias comprar cadernos novos — o cheiro do papel, das capas coloridas e do estojo novo parecia acreditar no futuro. Tudo parecia encaminhado… até o primeiro dia de aula, quando a sala de faculdade apareceu no horizonte e ele deu de cara com Luna, naquela escadaria de concreto e corrimões metálicos sob a luz fria dos postes.
— Desde quando esse garoto tem dinheiro pra estudar aqui? — Luna resmungou, já com os amigos ao redor.
— Ele pode ter bolsa. — Melissa respondeu, abanando-se com uma pasta.
— Não tem motivo pra vocês brigarem aqui. — Ângela cutucou, divertindo-se.
— Tem motivo em qualquer lugar. — Luna cruzou os braços, o verniz das unhas vermelhas contrastando com a roupa neutra que usava para disfarçar o calor do constrangimento.
Quando Ângela, num ímpeto de travessura, levantou-se e sentou-se ao lado de Gabriel no banco da faculdade, ele ficou claramente surpreso. O corredor de aulas cheirava a café e livros; luzes fluorescentes desenhavam faixas frias no piso.
— Estou surpresa de te ver aqui. — ela disse, com um sorriso maroto.
— E eu surpreso de te ver do meu lado. — Gabriel cruzou os braços, mas havia um leve relaxar nos ombros. — Luna te mandou aqui pra descobrir como eu consegui estudar nesse lugar?