CAPÍTULO 3

1269 Words
- Não quero que se aprofunde em algo aqui e se machuque. - Defina aprofundar. Digo tentando não sorrir, pois acho que já atolei meus pés no mundo dela. - Nós não vamos nos envolver, Miguel! Não espere uma relação de sentimentos comigo, pois seria c***l da minha parte permitir isso. - Não quero algo carnal. Isso seria crueldade da minha parte com você, estando em suas condições. Agora está me encarando com os olhos bem apertadinhos, bravos. - Ainda transo! O fato de ter um coração de merda, não significa que outras partes também estejam assim. - Então tudo bem! Não usamos o coração, mas podemos usar as outras coisas em nossos corpos. - Sem sexo! - Mas você disse que transa. - Você disse que não queria nada carnal. Estamos tentando não rir. - Estou aqui para ser um amigo. Gosto de boas conversas e vinhos e me parece que temos os mesmos gostos. Ficamos nos olhando e ela parece refletir sobre tudo. - Você está fazendo o oposto das pessoas que sabem da minha doença. - O que as pessoas fazem quando sabem? - Correm pra bem longe de mim. Você está ficando e imagino que Luana deva ter te mandado correr. - Ela meio que me mandou ficar longe. - Devia fazer o que ela mandou. - Não sou o tipo de homem que corre. Sou o tipo de homem que fica. - Mesmo sabendo que no fim vai me ver... Coloco meu dedo em seus lábios, impedindo que continue. Não quero ouvir sobre morte. Ela possui chances e vou me segurar em qualquer possibilidade de milagre. - Mesmo sabendo que no fim você pode querer fugir de mim, ao perceber que sou chato. Tiro meu dedo de sua boca, bem lentamente, aproveitando para sentir a maciez deles. - Tarde demais! Já acho que é um chato perseguidor de mulheres debilitadas. - Certo! Você me descobriu. Ergo as duas mãos. - Estou aqui pra abusar de você e de seu momento. Quero sexo e o seu dinheiro. - Então entra e vamos começar pelo sexo. Está frio aqui fora. Se afasta da frente da porta, me dando passagem e entro, ouvindo a porta se fechar atrás de mim. - Uau! Sua casa é... Toda a casa por dentro é aconchegante, mas o incrível mesmo é poder olhar tudo do lado de fora. Por fora não se vê nada por dentro, enquanto aqui dá pra ver tudo. O céu estrelado, a lua brilhando e algumas coisas que está iluminando. - Eu que projetei. Comprei o terreno e me dediquei a essa casa por longos seis meses. - Ela é incrível! Estou encarando o teto. - Te disse que amo a noite. Passo meu dia trabalhando e a noite aqui, apenas observando tudo. - Quero uma casa assim. Ela começa a rir da minha empolgação. - É sério! Quero uma casa assim perto de um lago ou praia. Vou começar a procurar terreno e você se vira pra fazer a minha casa. - Não acho que chego a vê-la ficar pronta. - Certo! Digo andando até ela, um pouco incomodado. - Vamos fazer um acordo pra essa amizade dar certo. Seguro suas mãos e fixo meu olhar no dela. - Pare de se despedir, de dar a entender que está morrendo e ficar me torturando. - Mas é a verdade. - Eu sei! Uma verdade que não precisa ficar falando o tempo todo. - Você é do tipo super positivo e otimista. Que acha que milagres acontecem e pessoas não morrem. - Isso! Sou esse tipo de pessoa. Então nada de negativismo perto de mim. - Isso te faria feliz? - Muito! - Certo! Posso fingir que está tudo bem. - Obrigado! Solto suas mãos e ela anda em direção ao sofá. - Vou me sentar um pouco! Hoje corri uma maratona e trabalhei feito uma condenada. Estou cansada por causa de tudo isso e preciso repousar. Olho pra ela com uma sobrancelha erguida e vejo seu lindo sorriso. - Prefere ouvir a verdade do meu cansaço? - Não! Uma maratona e trabalho demais está bom pra mim. Se senta no sofá e se encolhe toda, arrumando o roupão. Ando até ela e me sento ao seu lado. - Tenho vinho na cozinha. Fique a vontade. - Parei de beber! - Verdade? Está com um sorriso lindo no rosto. - Sim... - Achei que estava aqui para beber um vinho comigo. Faz tempo que parou de beber? Olho meu relógio. - Uns vinte minutos. Começa a rir e então para com falta de ar. - Priscila! Tento de alguma forma ajuda-la, mas suas mãos me impedem. - Está... tudo... bem... Busca o ar com mais força e observo sua respiração. O roupão está um pouco aberto no peito e posso ver uma cicatriz nele. Deve ser de alguma cirurgia. Priscila percebe que estou olhando a marca em seu peito e puxa o roupão para cobrir. Espero se acalmar e ficamos em silêncio. - Já comeu? - Estou sem fome! - Sei fazer uma sopa deliciosa. - O fato de estar como estou, não significa que preciso comer sopa. Pode ser bacon e assim termino de ferrar meu coração entupindo ele. Abre um sorriso sem graça. - Desculpa! Tenho um humor n***o. - Estou com fome e farei algo pra gente. Me levanto do sofá e olho em volta. - Onde fica a cozinha? - Pede pizza. - Não... vamos comer algo decente. - Miguel, eu realmente não quero levantar daqui. - Não precisa levantar. Me aproximo e encaixo meus braços em suas pernas e atrás de seu corpo. - O que vai fazer? - Te levando comigo pra cozinha. Priscila envolve os braços em torno do meu pescoço e a vejo sorrir. Um lindo e encantador sorriso. - Posso ficar m*l acostumada. - Posso fazer isso por muito tempo se precisar. Seus enormes olhos azuis estão nos meus. - Não seja muito fofo. - Não posso fazer nada se sou perfeito. - Não seja perfeito. Não quero me apaixonar. - Sinto te informar, mas se apaixonar por mim é algo inevitável. - É mesmo?! - Sim! Sou apaixonante. Minha mãe me fez em um dia muito inspirado. Ela abaixa a cabeça e solta um suspiro longo. Balança a cabeça de forma negativa e fecha os olhos. - Isso não é uma brincadeira! Sussurra baixo e imagino que não era para eu ter ouvido. Aproximo minha boca de seu ouvido. - Não estou por diversão. Não estou aqui para brincar com você. Meu nariz percorre seu cabelo e seu cheiro é maravilhoso. - Ainda não sei porque estou aqui. Talvez seja para algo importante ou apenas estar, sem qualquer razão ou motivo. Priscila afasta a cabeça e me olha. - Então não adianta me evitar e tentar fugir. Aproximo mais meu rosto do dela. - Sou um perseguidor de mulheres debilitadas. Ela ri e beijo sua testa. - Vamos comer alguma coisa. - Eu realmente não estou com fome. - Veremos depois de sentir o delicioso cheiro da minha comida. - Você sabe cozinhar? - Sei! - Isso é incrível. - Eu sei! Já disse que sou perfeito. A coloco sentada em uma das cadeiras em volta da mesa. - Posso mexer em tudo? - Sim! Não me pergunte onde está nada, pois a empregada que arruma. - Ela cozinha pra você? - Não! Evito contatos desse tipo. Evito que conheça meus gostos e minhas manias. Normalmente nunca sei quem arruma minha casa. - Nossa! Por que isso? - Uma a menos para chorar sobre o meu caixão.
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