- Não quero que se aprofunde em algo aqui e se machuque.
- Defina aprofundar.
Digo tentando não sorrir, pois acho que já atolei meus pés no mundo dela.
- Nós não vamos nos envolver, Miguel! Não espere uma relação de sentimentos comigo, pois seria c***l da minha parte permitir isso.
- Não quero algo carnal. Isso seria crueldade da minha parte com você, estando em suas condições.
Agora está me encarando com os olhos bem apertadinhos, bravos.
- Ainda transo! O fato de ter um coração de merda, não significa que outras partes também estejam assim.
- Então tudo bem! Não usamos o coração, mas podemos usar as outras coisas em nossos corpos.
- Sem sexo!
- Mas você disse que transa.
- Você disse que não queria nada carnal.
Estamos tentando não rir.
- Estou aqui para ser um amigo. Gosto de boas conversas e vinhos e me parece que temos os mesmos gostos.
Ficamos nos olhando e ela parece refletir sobre tudo.
- Você está fazendo o oposto das pessoas que sabem da minha doença.
- O que as pessoas fazem quando sabem?
- Correm pra bem longe de mim. Você está ficando e imagino que Luana deva ter te mandado correr.
- Ela meio que me mandou ficar longe.
- Devia fazer o que ela mandou.
- Não sou o tipo de homem que corre. Sou o tipo de homem que fica.
- Mesmo sabendo que no fim vai me ver...
Coloco meu dedo em seus lábios, impedindo que continue. Não quero ouvir sobre morte. Ela possui chances e vou me segurar em qualquer possibilidade de milagre.
- Mesmo sabendo que no fim você pode querer fugir de mim, ao perceber que sou chato.
Tiro meu dedo de sua boca, bem lentamente, aproveitando para sentir a maciez deles.
- Tarde demais! Já acho que é um chato perseguidor de mulheres debilitadas.
- Certo! Você me descobriu.
Ergo as duas mãos.
- Estou aqui pra abusar de você e de seu momento. Quero sexo e o seu dinheiro.
- Então entra e vamos começar pelo sexo. Está frio aqui fora.
Se afasta da frente da porta, me dando passagem e entro, ouvindo a porta se fechar atrás de mim.
- Uau! Sua casa é...
Toda a casa por dentro é aconchegante, mas o incrível mesmo é poder olhar tudo do lado de fora. Por fora não se vê nada por dentro, enquanto aqui dá pra ver tudo. O céu estrelado, a lua brilhando e algumas coisas que está iluminando.
- Eu que projetei. Comprei o terreno e me dediquei a essa casa por longos seis meses.
- Ela é incrível!
Estou encarando o teto.
- Te disse que amo a noite. Passo meu dia trabalhando e a noite aqui, apenas observando tudo.
- Quero uma casa assim.
Ela começa a rir da minha empolgação.
- É sério! Quero uma casa assim perto de um lago ou praia. Vou começar a procurar terreno e você se vira pra fazer a minha casa.
- Não acho que chego a vê-la ficar pronta.
- Certo!
Digo andando até ela, um pouco incomodado.
- Vamos fazer um acordo pra essa amizade dar certo.
Seguro suas mãos e fixo meu olhar no dela.
- Pare de se despedir, de dar a entender que está morrendo e ficar me torturando.
- Mas é a verdade.
- Eu sei! Uma verdade que não precisa ficar falando o tempo todo.
- Você é do tipo super positivo e otimista. Que acha que milagres acontecem e pessoas não morrem.
- Isso! Sou esse tipo de pessoa. Então nada de negativismo perto de mim.
- Isso te faria feliz?
- Muito!
- Certo! Posso fingir que está tudo bem.
- Obrigado!
Solto suas mãos e ela anda em direção ao sofá.
- Vou me sentar um pouco! Hoje corri uma maratona e trabalhei feito uma condenada. Estou cansada por causa de tudo isso e preciso repousar.
Olho pra ela com uma sobrancelha erguida e vejo seu lindo sorriso.
- Prefere ouvir a verdade do meu cansaço?
- Não! Uma maratona e trabalho demais está bom pra mim.
Se senta no sofá e se encolhe toda, arrumando o roupão. Ando até ela e me sento ao seu lado.
- Tenho vinho na cozinha. Fique a vontade.
- Parei de beber!
- Verdade?
Está com um sorriso lindo no rosto.
- Sim...
- Achei que estava aqui para beber um vinho comigo. Faz tempo que parou de beber?
Olho meu relógio.
- Uns vinte minutos.
Começa a rir e então para com falta de ar.
- Priscila!
Tento de alguma forma ajuda-la, mas suas mãos me impedem.
- Está... tudo... bem...
Busca o ar com mais força e observo sua respiração. O roupão está um pouco aberto no peito e posso ver uma cicatriz nele. Deve ser de alguma cirurgia. Priscila percebe que estou olhando a marca em seu peito e puxa o roupão para cobrir. Espero se acalmar e ficamos em silêncio.
- Já comeu?
- Estou sem fome!
- Sei fazer uma sopa deliciosa.
- O fato de estar como estou, não significa que preciso comer sopa. Pode ser bacon e assim termino de ferrar meu coração entupindo ele.
Abre um sorriso sem graça.
- Desculpa! Tenho um humor n***o.
- Estou com fome e farei algo pra gente.
Me levanto do sofá e olho em volta.
- Onde fica a cozinha?
- Pede pizza.
- Não... vamos comer algo decente.
- Miguel, eu realmente não quero levantar daqui.
- Não precisa levantar.
Me aproximo e encaixo meus braços em suas pernas e atrás de seu corpo.
- O que vai fazer?
- Te levando comigo pra cozinha.
Priscila envolve os braços em torno do meu pescoço e a vejo sorrir. Um lindo e encantador sorriso.
- Posso ficar m*l acostumada.
- Posso fazer isso por muito tempo se precisar.
Seus enormes olhos azuis estão nos meus.
- Não seja muito fofo.
- Não posso fazer nada se sou perfeito.
- Não seja perfeito. Não quero me apaixonar.
- Sinto te informar, mas se apaixonar por mim é algo inevitável.
- É mesmo?!
- Sim! Sou apaixonante. Minha mãe me fez em um dia muito inspirado.
Ela abaixa a cabeça e solta um suspiro longo. Balança a cabeça de forma negativa e fecha os olhos.
- Isso não é uma brincadeira!
Sussurra baixo e imagino que não era para eu ter ouvido. Aproximo minha boca de seu ouvido.
- Não estou por diversão. Não estou aqui para brincar com você.
Meu nariz percorre seu cabelo e seu cheiro é maravilhoso.
- Ainda não sei porque estou aqui. Talvez seja para algo importante ou apenas estar, sem qualquer razão ou motivo.
Priscila afasta a cabeça e me olha.
- Então não adianta me evitar e tentar fugir.
Aproximo mais meu rosto do dela.
- Sou um perseguidor de mulheres debilitadas.
Ela ri e beijo sua testa.
- Vamos comer alguma coisa.
- Eu realmente não estou com fome.
- Veremos depois de sentir o delicioso cheiro da minha comida.
- Você sabe cozinhar?
- Sei!
- Isso é incrível.
- Eu sei! Já disse que sou perfeito.
A coloco sentada em uma das cadeiras em volta da mesa.
- Posso mexer em tudo?
- Sim! Não me pergunte onde está nada, pois a empregada que arruma.
- Ela cozinha pra você?
- Não! Evito contatos desse tipo. Evito que conheça meus gostos e minhas manias. Normalmente nunca sei quem arruma minha casa.
- Nossa! Por que isso?
- Uma a menos para chorar sobre o meu caixão.