- Você mentiu para os seus pais?
- Não me olhe desse jeito julgador.
Pede com a voz rouca, tentando não chorar.
- Não queria mais vê-los chorando por minha causa. Não suportava mais ver que estavam deixando de viver, por minha causa.
- E achou que mentir sobre sua saúde seria melhor?
- Achei que poupa-los do inevitável, seria o melhor.
- Você resolveu se fechar no mundo e esperar a morte?
Minha pergunta sai mais alterada do que devia.
- Sim!
Não consigo acreditar que ela esteja sumindo da vida dos outros para morrer.
- Decidi não fazer as pessoas viverem a minha doença. Isso facilitaria o luto de muitas pessoas. Eu seria a garota do trabalho que morreu ou a mulher que alguém limpava a casa.
Estou em choque encarando enormes olhos azuis.
- Por isso estou te dizendo para não se envolver comigo. Quanto mais evitar entrar na minha vida, menos dor sentirá com a minha partida.
- Você não tem medo de morrer?
Pergunto e Priscila abaixa a cabeça, voltando a encarar suas mãos.
- Priscila...
Ela não me responde e respiro fundo. Decido não continuar essa conversa e apenas seguir cozinhando. Mas mesmo não falando nada, meu cérebro está repassando nossa conversa. Tiro as batatas da água e antes de começar a fazer o purê, coloco o peixe na chapa. Olho para Priscila que está olhando para uma das paredes de vidro, na direção que me parece ser uma montanha. Continuo minhas coisas e quando tudo está pronto, monto os pratos.
- Espero que goste.
Ando até a mesa e coloco um suporte, deixando em seguida o prato sobre ele.
- Tem suco na geladeira.
Fala sem me olhar.
- Vou pegar.
Vou para a geladeira e pego o suco. Antes de voltar pra mesa, pego dois copos. Levo meu suporte e termino de colocar tudo para o nosso jantar. Me sento ao seu lado e vejo que ficou até bonita a comida.
- Minha mãe ficaria orgulhoso de mim.
Comento sorrindo e Priscila sorri pra mim.
- Está lindo!
- Come!
Digo colocando suco em nossos copos. Priscila cutuca com o garfo o purê.
- Come!
Falo mais firme e ela ri.
- Tenha calma! Preciso criar apetite primeiro.
Pega um pouco com a ponta do garfo e leva a boca. Paro tudo que estou fazendo e espero Priscila engolir e expressar por qualquer ruído se gostou.
- Hum! Isso está muito bom.
Suspiro aliviado.
- Prova o salmão.
Tira um pequeno pedaço e leva a boca. Geme de satisfação e isso me deixa muito feliz.
- Diga a sua mãe que ela o ensinou muito bem.
- Pode dizer a ela quando for conhecê-los.
Priscila solta o garfo que cai no prato, fazendo um enorme barulho.
- O que?
- Semana que vem! Já deixe marcado na sua agenda.
- Miguel!
- Não adianta vir me enrolar de que pode estar morta e bla..bla...bla...
Ela está segurando o riso.
- É meu aniversario e como minha amiga, está mais que convidada.
- Como sua amiga?
Pergunta com humor.
- Sim! Se até lá não se tornar mais do que isso...
Dou de ombros, mas com um belo sorriso no rosto.
- Você ouviu tudo que conversamos hoje?
- Sim...
Corto o salmão e enfio um pedaço na boca.
- Qual a parte do "não quero ninguém chorando no meu caixão" e o "evito criar laços afetivos", você não entendeu?
Fecho um olho e finjo pensar.
- Qual a parte do " Não vou embora" e o "Vamos viver sem falar de morte" você não entendeu da minha resposta?
- Você é teimoso!
- Você é negativa!
- Você que é positivo demais.
- Olha pra mim!
Priscila vira a cabeça e encara meus olhos.
- Os médicos te deram uma chance. Certo?
- Certo!
- Você pode viver sua vida sendo feliz e esperar essa chance aparecer ou viver sozinha e esperar a morte.
- Já fiz minha escolha. Estou esperando a morte.
Aproximo meu rosto, deixando minha boca próxima demais da dela.
- Eu escolho a primeira opção pra você.
- Quem tem que escolher sou eu.
- Não vou deixa-la sozinha. Então mude sua escolha.
- Não quero!
- Vou fazer você querer.
- Tarde demais pra mudar.
- Nunca se é tarde para escolher um caminho novo.
- Não existem caminhos. Existe um caminho só.
- Se falar morte eu vou te beijar e te deixar sem ar de novo.
- M.O.R.T.E...
Diz pausadamente com um olhar brincalhão. Roço meus lábios no dela que fecha os olhos me sentindo.
- Se comer mais, prometo te arrancar o ar.
- Está tentando me fazer comer?
- Estou... e também estou tentando mudar sua vida. Aceite, me aceite e seja feliz.
Beijo rápido seus lábios e me afasto.
- Come!
Priscila volta a comer bem lentamente.
- Me fala sobre você.
Pede enquanto mastiga.
- O que quer saber?
- Se serei sua amiga ou quem sabe algo mais, preciso saber de tudo.
- Sou formado em administração e ajudo meu pai na empresa dele. Luana contou que somos em três filhos?
- Sim. Me falou do Pedro e que é casado.
- Sim... Geovana está grávida da pequena Talita. Está perto de ganhar e no bolão da família coloquei que nasce no dia do meu aniversário.
- Isso te deixaria feliz?
- Muito! Pedro teria uma miniatura feminina minha e isso seria muito bom.
Priscila ri e parece que está um pouco melhor. Acho que estava fraca por não se alimentar direito.
- Você não pareceu muito amigo do Elias na festa. Sua família aceita o noivado dele e da Luana?
- Nós aceitamos. O que não concordamos é com a vida adolescente deles.
- Aquela festa parecia de campus de faculdade.
Comenta e nós dois rimos.
- Me diz o que gosta de fazer.
Pergunta comendo o resto do purê.
- Gosto de perseguir garotas doentes e t*****r com elas.
- Opa! Isso foi uma indireta pra mim? Está querendo me levar para o meu quarto, tirar meu roupão e fazer amor comigo a noite toda?
- A noite toda? Uau!
- Esqueci de te avisar que nessa situação...
Aponta para o corpo todo.
- Vai conseguir no máximo uns beijos antes de me dar crise de falta de ar.
- Aceito! Vou recolher os pratos e vamos pra cama te arrancar o fôlego.
- Estou brincando! Não precisa me levar para o quarto. Pode ir se quiser.
Recolho tudo e levo pra pia.
- Miguel, você pode ir.
- Não... hoje é sexta!
- Por isso mesmo! Ainda dá tempo de curtir sua noite.
- Me responde uma coisa. No seu quarto o teto também é de vidro?
- Uma parte. Por que?
- A que fica sobre sua cama?
- Sim! Gosto de observar as estrelas.
- Vamos ver seu quarto.
- Você não...
Se cala e ri quando a pego no colo.
- Posso te fazer outra pergunta?
- Pode!
Responde se ajeitando em meus braços.
- Na varanda parecia tão bem e hoje...
- Não fico sempre assim. Meu coração cada dia acorda de um jeito. Às vezes ele bate como se nunca tivesse doente e outros ele parece querer parar de bater.
Subo a escada e entro em um corredor.
- Segunda porta.
Sussurra e viro para a segunda porta.
- Então cada dia com você é uma incógnita?
- Sim!
- Gosto disso.
Beijo sua cabeça e abro a porta. Entramos no quarto e a fecho. Sigo para a cama e fico encantado com a iluminação que a lua e as estrelas dão ao quarto. Deito Priscila na cama com cuidado e olho em volta. Tiro meus sapatos e meu cinto.
- Deita e vai ver a magia da noite.
Diz com a voz baixa e me deito ao seu lado.
- Olha pra cima!
Olhamos pro teto e perco o ar vendo a imensidão sobre nós.
- É incrível!
Viro o corpo e ficamos de frente um para o outro. Subo minha mão pegando a dela, que está perto de sua cabeça. Meus dedos sobem pelo seu braço, buscando sua mão e sinto algo em seu pulso. Parecem cicatrizes e isso me assusta. Priscila está olhando para mim.
- Me perguntou se eu tinha medo da morte.
Diz com a voz baixa.
- Não... eu não tenho medo dela. Tanto que tentei encontra-la várias vezes.
Meus olhos desviam para o seu pulso e vejo várias marcas. Várias tentativas de cortes.
- Mas parece que é a morte quem tem que te encontrar e não o oposto.