Ariana narrando
Desde pequena, sempre ouvi que eu era bonita demais pra cidade onde nasci. Uma cidadezinha minúscula no interior do Paraná, daquelas onde todo mundo conhece todo mundo, onde a vida parece parada no tempo. Meu nome é Ariana, tenho 20 anos, Sou loira, dos olhos azuis bem claros, e cresci ouvindo que isso era um privilégio. Mas nunca me senti privilegiada de verdade. A vida nunca foi fácil. Meu irmão mais velho se mudou pra fora do país quando eu tinha uns doze anos, e desde então manda ajuda sempre que pode. Já minha mãe é uma guerreira. Trabalha há anos como empregada na casa do maior empresário da cidade, Paulo do valle. Rico, influente, viúvo, e pai de três crianças pequenas. Minha mãe trabalha nessa casa desde que o meu pai faleceu.
Quando fiz dezenove anos, comecei a ajudar ela. Não por obrigação, mas porque eu queria aliviar um pouco o peso que ela carregava sozinha nas costas. Ele precisava de alguém pra cuidar das crianças e, como eu já tinha feito curso de cuidadora e alguns de primeiros socorros, achei que podia ser uma boa. E no começo, foi mesmo. Eu gostava das crianças, fazia meu trabalho direitinho, chegava cedo, organizava a rotina deles, preparava lanche, ajudava com as tarefas, colocava pra dormir. Tudo como deveria ser.
Só que com o tempo, ele começou a se aproximar. Primeiro, eram elogios discretos, principalmente quando minha mãe não tava por perto. Coisas como “você é muito madura pra sua idade” ou “tão linda, deve dar trabalho pros namorados”. Eu ficava sem graça, respondia com um sorriso educado, tentando não parecer grosseira. Mas dentro de mim, algo já gritava que aquilo tava errado. Ele era o patrão, viúvo, mais velho, e eu só queria trabalhar em paz.
Foi então que começaram as tais viagens. Ele dizia que queria dar um tempo com as crianças fora da cidade, que a casa de campo era mais tranquila, e que eu precisava ir pra ajudá-lo. E como era tudo com o consentimento da minha mãe, que confiava nele, acabei indo.
Na casa de campo, tudo era diferente. Mais silêncio, mais distância, mais espaço pra ele se aproximar. E foi numa dessas viagens que tudo mudou. Era noite, eu tinha colocado as crianças pra dormir, tava no quarto simples que ele tinha preparado pra mim, quando escutei uma batida leve na porta. Abri, pensando que fosse alguma das crianças. Era ele.
Paulo: Só vim ver se você tava bem - disse, com aquele jeito calmo e voz baixa.
Entrou, sem pedir licença, sentou na beirada da cama e começou a falar. Que eu era linda, que ele se sentia sozinho, que desde que a mulher tinha morrido ele não tinha mais ninguém de verdade. Eu, boba, com pouca experiência e cheia de carência acumulada, caí na conversa. Quando ele pediu um beijo, hesitei. Mas ele insistiu, me olhou de um jeito que me confundiu toda e eu deixei.
Foi só um beijo naquela noite. Mas bastou pra abrir a porta do inferno.
Depois disso, os encontros se tornaram frequentes. Ele me chamava pra ir à casa de campo com mais frequência, sempre dando desculpas pras crianças, pra minha mãe. E lá, tudo acontecia. Me entreguei. Me envolvi de corpo e alma, mesmo sabendo que não devia, que era errado, que não tinha futuro. No fundo, eu tinha esperança que ele fosse me assumir, me tirar daquela vida apertada, me dar um rumo. A gente sempre acha que vai ser diferente com a gente, né? Que vai ser a exceção da história.
Mas tudo desabou quando descobri que tava grávida. Senti um enjoo forte logo de manhã, corri no posto de saúde e o exame confirmou. Meu mundo caiu. Fiquei sem chão, desesperada, tremendo. A primeira pessoa que contei foi minha mãe. Ela me olhou em silêncio, respirou fundo e disse:
Sabrina: Eu já desconfiava. Tua carinha de apaixonada, os olhares, as viagens. Eu tentei fingir que não via.
Ela me deu uma bronca daquelas que machucam mais por dentro do que qualquer tapa. Disse que eu tinha que tomar jeito, que não podia brincar com coisa séria, que eu sabia o que tava fazendo. Mas no fim, me mandou falar com ele. Disse que eu precisava enfrentar a consequência do que tinha feito.
Naquela noite, fui até a casa dele. As crianças estavam na aula, minha mãe tinha ido embora mais cedo. Entrei tremendo, com o teste de gravidez na bolsa. Ele tava no escritório, mexendo no notebook. Quando me viu, sorriu.
Paulo: Oi, princesa. Que surpresa boa.
Eu respirei fundo, sentei no sofá e fui direto ao ponto.
Ariana: Tô grávida.
O sorriso dele sumiu na hora. O olhar mudou, ficou frio, duro.
Paulo: Tá de brincadeira?
Ariana: Tô falando sério.
Ele se levantou devagar, foi até a mesa, abriu uma gaveta e tirou uma arma. Eu congelei. Nunca tinha visto ele com arma. Aquele homem que me beijava e me chamava de princesa agora tava me encarando com ódio.
Paulo: Você vai tirar essa criança, Sua vadiazinh@. Isso nunca aconteceu. Se abrir a boca pra alguém, se contar pra sua mãe, pro seu irmão, pra qualquer um, eu juro que te mato. Você acha que alguém vai acreditar em você contra mim? Eu destruo sua vida, menina.
Minha garganta travou. As lágrimas caíram sem eu nem perceber. Tentei reagir, dizer que não ia fazer isso, que era meu filho, que ele também tinha responsabilidade. Mas ele não quis ouvir. Só apontou a arma pra mim e disse, com os dentes cerrados.
Paulo: Você não me conhece, Ariana. Sai daqui antes que eu faça uma besteira.
Saí correndo. Entrei no primeiro ônibus que passou e fui pra casa chorando. Minha mãe me esperava no portão, desesperada. Quando me viu, me abraçou, me apertou forte. E eu desabei ali mesmo.
Aquele dia marcou minha vida pra sempre. Não só pela dor, mas pela certeza de que eu tinha me ferrado por acreditar demais em alguém que nunca me viu como mulher de verdade. Só como mais uma. E agora, eu carrego uma criança no ventre. Um filho que ele não quis. Mas que eu vou proteger com tudo que eu tenho. Porque essa criança é inocente. É minha. E eu não vou deixar ninguém fazer m@l pra ela. Nunca.