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1410 Words
Capítulo 1 — Narrador: Júlia O sol ainda não havia descido quando o morro despertou no mesmo ritmo de sempre: latidos soltos, um motor de bicicleta cantando lá embaixo, o cheiro doce de café e feijão subindo das janelas abertas. Eu já estava em pé, com a bacia de roupa no colo e a cabeça cheia de contas. A casa era pequena — uma sala que servia de quarto, a cozinha encostada num canto, a foto do meu pai na parede com o vidro embaçado de poeira. Dona Marta dormia com o lenço amarrado na cabeça pela medicação, os olhos molhados antes mesmo de ter aberto. Trabalhar na farmácia me dava o que era possível; o salário pagava remédio básico e pão, e me deixava com um resto que eu guardava num pote de sorvete velho, escondido atrás de caixas. Era o meu cofrinho de esperança: uma nota dobrada aqui, umas moedas ali, o resto eu prometia pra mim mesma que ia virar curso, faculdade — qualquer coisa que me tirasse da inércia. Meu pai morreu quando eu tinha dezesseis anos, engolido pelo vício que tomou o corpo e a cabeça dele. Desde então, minha vida virou cuidado com minha mãe e silêncio. Aquela manhã a cara de Dona Marta estava diferente. Ela mexia no envelope na mão, os dedos finos tremendo por causa do remédio e da falta de força. O médico ligou no começo da semana e falou com a voz burocrática que dói: “é raro, precisa de tratamento especializado, a medicação é contínua, os custos são altos”. Eu tentei não ouvir, fechei os olhos na hora, mas a verdade entrou igual bala: alto o suficiente pra me acertar no peito. A conta chegou hoje, dobrada com exames, consultas e a tal medicação importada que ninguém no posto do bairro tem. — Ju, menina — ela murmurou, com a voz quebrada como vidro —, não sei mais o que fazer. Não quero te ver... passar por nada por minha causa. Eu senti as palavras abrirem uma fisgada no estômago. Queria poder gritar que dava um jeito, que eu ia pegar um bico, vender minhas coisas, pedir ajuda pra tia lá da rua —mas orgulho também dói. Sempre fui de me virar sozinha. Mas a conta tinha um número que me deu vertigem. Eu contei as moedas do pote outra vez, como quem busca um milagre dentro de plástico sem tampa. Não dava. O dia na farmácia foi uma sequência de rostos conhecidos — a dona que pegou remédio pro filho com febre, o senhor que veio buscar o xarope, as vizinhas que me perguntavam da mãe com olhares que misturavam pena e curiosidade. Eu trabalhava, atendia, sorria por educação, e por dentro o peso só aumentava. No intervalo, sentei na escadinha da rua e fiquei olhando a favela: as casas subiam como degraus, roupa estendida tremulando, meninos correndo com bola de meia. Era a minha casa, o meu mundo; tudo ali devia ser suficiente. Mas o mundo às vezes era um buraco que só se alargava. À tardinha, quando as sombras se alongaram e as luzes da favela começaram a piscar, passei pela frente da boate. Sempre passei. A casa do Otávio ficava num ponto que todo mundo olhava. Luzes coloridas, som que vazava porta afora, gente bonita chegando e saindo. Eu já tinha visto de tudo ali: entrada de carros caros, clientes que desciam com cara de cidade grande e gargalhadas barulhentas. A boate era um ponto que dava sabor ao morro e também devorava muita gente. Eu sabia das regras de lá sem nunca ter entrado: quem entra por prazer sai com as memórias; quem entra por desespero sai com outra coisa. Quando parei pra olhar, o gerente, o Otávio, estava do lado da porta com o sorriso calculado. Ele me conhecia desde criança — toda comunidade conhece quem tem o trabalho “relevante” do morro. Ele acenou, me chamou com a voz macia que ele tem, aquela mistura de dono de casa noturna e tio que conta vantagem. — Jú, passa aqui, filha. Tenho uma conversa que pode te interessar — disse ele, aproximando-se sem pressa. Eu quis virar e entrar no meu casulo de vergonha, ir pra casa e fingir que não escutei. Mas minha mãe estava lá dentro, deitada, sem força, e eu lembrava daquelas noites em que cortava o pão ao meio pra que sobrasse pra manhã. Segui o partido do medo e da responsabilidade. Ele falava com um cuidado que me deixou desconfortável. Não era gentileza gratuita; era negócio. Explicou o que ele esperava em troca de “ajuda”. Falou de mesas, valores, horários, de como a casa é organizada pra receber clientes que pagam bem. Falei devagar, peguei as palavras como quem desarma uma bomba: “mas... eu não gosto disso, Otávio. Não sou daqui pra isso...”. Ele sorriu um sorriso amargo, daqueles que conhecem gente demais. — Eu sei, Julinha. Ninguém nasce aqui por gosto. Mas você me escuta: tem muita gente que entra na casa e aprende. A gente cuida das meninas bem, vê visitas, orienta… E eu posso arrumar um esquema pra mandar alguma grana pra sua mãe, sem que ninguém precise saber — disse ele, baixando o tom. A promessa caiu no meu peito como uma brisa que arrepia e queima. Eu senti aquele velho nó na garganta. Orgulho não me deixou pedir, mas sangue de mãe não deixa felicidade conduzir. Olhei a janela de casa, lembrei do potinho no meu armário, do rosto do meu pai na foto. Tudo girou. — O que eu tenho que fazer? — perguntei, e a minha voz parecia a de outra pessoa, cansada e dura. Ele explicou os detalhes com a frieza de quem lida com números: uma noite de teste onde eu ia ver como era, um treinamento com a Karina — disse o nome como quem entrega uma arma—, e depois um esquema de dias. Não falou em violência, não forçou a mão; cuidou de apresentar tudo como serviço, como uma troca justa. O que ele não disse com palavras ele subentendeu: virgindade tem valor. E eu tremi, porque senti que aquilo tocava algo dentro de mim que eu sempre esperei guardar. Voltei pra casa e encontrei Dona Marta lavando louça com as mãos que já tremiam menos — talvez por preguiça de pensar na dor. Eu sentei na mesa e tentei sorrir com honestidade, sem saber mentir pra mim mesma. As paredes ouviam, a luz do corredor tremia. Ela me perguntou, com a voz de sempre: “Você está bem, minha filha?”. Fingi que sim. Queria chorar, queria gritar, queria desaparecer. Fiquei acordada até tarde, olhando pro teto, pensando em cada palavra do Otávio. Pensei em Karina — sabia que ela era uma mulher que transitava entre a dureza e um carinho de irmã — imaginei a boate por dentro, as luzes, os clientes, a moeda que troca corpos por remédio. Pensei em todas as noites que eu tinha economizado cada centavo, e que ainda assim não chegariam. Pensei nos olhos do meu pai naquela foto, e no quanto ele me deixou sozinha. No fim, peguei o pote de sorvete, escondi a mão no fundo e senti a página grossa das notas. Não dava. Não dava e pronto. A decisão não veio de um estalo de coragem; foi uma coisa miúda, duas lágrimas que não se viam, a cabeça curtindo a derrota e virando pelo amor da mãe. Levantei, peguei meu casaco velho, e fui até a boca da boate de volta. Não sabia direito se estaria pronta, se ia conseguir manter a dignidade, se ia suportar as perguntas, os olhares. Quando cheguei à porta, vi Karina encostada no corredor, retocando o batom. Ela me olhou com um meio sorriso e bateu no ombro como quem diz que a vida sempre bate primeiro. Abri a boca, e a frase saiu curta. — Eu vou tentar — disse. — Só pra testar. Só pra tirar esse peso da nossa cabeça. Karina assentiu, séria. A noite tomou a favela. Eu respirei fundo, e a vergonha já estava ali, mascando o meu peito. Mas havia também uma clareza nova: eu fazia aquilo por minha mãe. E por mais que me doesse, eu precisava pagar a conta. E foi com essa mentira de coragem que eu entrei, pela primeira vez, na casa onde minha vida mudaria.
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