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1378 Words
Capitulo 2 - Narrador: Otávio Sou eu, Otávio. A boate acende primeiro que a luz da rua. Aqui dentro o tempo tem outro cheiro: perfume misturado com suor, fumo de cigarro fino, álcool e aquela eletricidade que só lugar de noite tem. Eu sei cada ponto daquele salão como sei as linhas da minha própria mão — onde o cliente prefere sentar, qual mesa é dos senhores que gostam de conversa, qual canto é dos que chegam com pressa de satisfazer impulso e vão embora sem lembrar o rosto da mulher que pagou por companhia. Trabalho com brilho — e com margem. Se você não entende isso, não entra no meu jogo. Minha função aqui é manter o barco flutuando. Eu cuido das meninas, dos horários, dos fluxos de pagamento; eu me sento nas reuniões com os caras do morro e faço contas com uma frieza que às vezes surpreende até a mim. Porque negócio é negócio, e sentimentos aqui precisam vir com contrato assinado. Mas não sou c***l. Tenho meu afeto, minhas meninas queridas; não é que eu as veja como filhas, é que eu as trato como filha quando convém — e quando convém, eu protejo até a última nota que sobrar da minha caixa. Naquela noite em que a Júlia apareceu pela primeira vez algo bateu diferente. Não me apaixonei, não me desorganizei; meu radar comercial apitou. Vocês sabem: virgindade tem preço, virgindade tem fama, virgindade vira atração. Quando vi ela — a menina morena de cara fechada, jeito tímido, com o cabelo liso jogado pra trás; não era a beleza escandalosa, era a presença contida — eu fiz a conta na cabeça. Quem perde a virgindade no baile vira notícia. E notícia vende. Chamei ela com o meu jeitinho. Chamei por fora, falei baixo, ofereci a cadeira do camarim. Karina, que é minha experiência ambulante, fez a apresentação como quem entrega um santo à igreja: explicou a ela o que era aceitável dentro da casa, os limites, o preço de cada coisa. A Karina tem um tom seco, fez o serviço com mão firme porque sabia da urgência daquela garota — todo mundo aqui tinha percebido que ela não era do tipo que entra e se entrega feliz. Eu expliquei a política: comissão dividida, porcentagem fixa que vai pra casa, bônus por clientes VIP, taxa de reserva pra quem quer exclusividade. Disse, claro, o que acontecia nos quartos: tempo, serviços, o que era proibido — agressão, droga na hora do programa, exposição humilhante que queimasse a reputação da menina (isso eu não admito porque fere o negócio). Tudo documentado na cabeça. Minhas meninas sabem: aqui é trabalho. Aqui a gente vende território seguro. — Tu vai gostar daqui, amor — eu disse, meio brincando, meio sério. — Olha, você aprende. A Karina te ajuda. A cada cliente tu aprende o que vai funcionar. E o mais importante: eu mando parte do que ganhar pro tratamento da tua mãe, sem história. E como eu disse: números, sempre números. Ela se encolheu, me olhou com um misto de vergonha e vontade de chorar, e eu senti a verdade — aquela que empurra mulher pro meu universo. Eu ajeitei as coisas. Combinei que ela faria uma noite de prova naquela semana, que eu mesmo cuidaria dos clientes que fossem testar o “novo produto”. Porque eu cuido do meu inventário. A noite veio. O salão cheio, a música abrindo as pessoas, as luzes em strobos. Eu observo do meu canto, de trás do balcão onde controlo, onde faço contato visual com a segurança, com a administradora das reservas. O lugar é uma coreografia — garçons, meninas, DJs, dois seguranças na porta e um fluxo que precisa ser estudado como se fosse a bolsa de valores. Às vezes o que separa lucro de prejuízo é um olhar, uma mesa bem colocada, um copo trocado, um sorriso no momento certo. Júlia entrou pela porta dos fundos, com a Karina ao lado. Tradicionalmente a gente passa as novatas por um processo: a primeira impressão que vai pro público, o treinamento, a mesa de teste. A Karina segurou a mão dela só pra acalmar — palavra de veterana. Eu a apresentei a dois clientes que eu sabia que testariam com educação: um senhor bonzinho que já deu muita grana quando estava de luto e um empresário que vinha com cara de querer sentir alguma novidade. Ambos pegaram a ficha, fizeram as perguntas de praxe — se havia alguma condição, se aceitava determinadas práticas, se havia doenças. É tudo formalidade que a gente aplica pra fingir decência e, ao mesmo tempo, controlar o risco. Veio um cara diferente. Não era do nosso circuito habitual — olhava com aquele ar exigente de quem paga e quer impor. Queria exclusividade, queria pressa, queria saber se “a nova” era de verdade. Quando eu ouvi a pergunta — “ela é pura?” — eu quase devolvi com o sorrisinho afiado, mas percebi que ele procurava controlar o poder da transação. Virgindade vira objeto, eu já disse; e eu não coloco o produto à disposição pra qualquer um que faça pergunta na cara. Controle de mercado também é segurança. O sujeito veio com conversa mole. Queria reduzir o preço, queria vantagens, falava com as palavras pesadas do tipo que tenta humilhar e provar poder. A Karina ficou por perto, a postura dela era de proteção programada — estava pronta pra intervir. Eu fiz a minha parte: aproximei-me, coloquei a mão leve no braço do cliente, sorri com aquela insolência diplomática que tira o ar de quem acha que manda no mundo. — Meu amigo — falei, com voz mansa, como quem dá a sentença —, essa casa tem regras. Tu paga o que foi combinado na tabela. Se quiser tratar diferente, a gente pode conversar, mas com respeito. Aqui a menina não é brinquedo. Ele bufou, usual, e tentou me pressionar com sorrisos falsos. Eu levei o canto do meu dedo ao telefone e fiz sinal pro segurança se aproximar. Sutileza, sempre. A negociação foi rápida: taxa de privacidade, uma garrote de segurança; eu garanti que ele teria o serviço que desejava sem quebrar a dignidade da minha garota. E isso é meu diferencial: eu entrego o cliente satisfeito e retorno com a menina intacta e pronta pra próxima rodada. A cena foi um aviso: havia gente no morro curiosa sobre a “nova”. Boatos correm mais rápido que fogo. Uns acham que eu estava inventando luxo pra vender a inocência; outros acham que é novidade boa pra atrair mais cliente. Eu não me movo por fofoca. Eu trabalho. Mas não deixo de perceber o efeito. Ao final da noite, quando apaguei as luzes atrás do balcão e olhei pro relatório do caixa, as notas contavam uma história diferente. As reservas tinham mais interesse naquela semana, e a ficha da nova garota tinha sido preenchida duas vezes por clientes que queriam reservar exclusividade. Fiz minhas contas, tirei porcentagem de comissão, retornei ao meu escritório improvisado no fundo da casa e deixei a ficha da menina na gaveta de cima — com o selo mental: “cuidar”. Eu ia mandar parte do dinheiro pro tratamento da mãe dela, assim como prometera. Isso selou o negócio. E, claro, as bocas do morro começaram a falar. Já ouvi uns homens da comunidade cochichando na esquina que “a nova” tinha chegado, que era promessa de reviravolta, que o próprio chefe ia querer ver. Boatos são moeda social aqui — e já tendo começado, vão fazer o seu trabalho. Eu só precisava garantir que o trabalho da casa não fosse contaminado por falatório, porque falatório abre porta pra problema. E problema, meu amigo, aqui a gente resolve antes que vire dor de cabeça. No fim, apaguei o computador, tranquei a gaveta e fui lá fora conferir a segurança. A rua estava calma, mas eu sabia que a calmaria aqui é só uma pausa. Deixei a ficha da menina no meu bolso — não por romantismo, não por posse — por cálculo. E enquanto atravessava a porta de saída, ouvi, distante, risadas engatilhadas e o morro disposto a fazer o seu trabalho de espalhar notícia. Amanhã, o burburinho ia estar maior.
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