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1346 Words
Capítulo 3 — Narrador: Karina Eu sou a Karina. Aqui dentro a gente aprende a virar máquina de vender desejo e disfarçar o resto. Tem menina que chora no andar de casa e chega aqui como se nada tivesse acontecido; tem outra que chega com raiva e o cliente leva a ilusão de conquista. Tudo é técnica. E eu ensino técnica. Porque sobreviver é isso: saber o que fazer com o corpo, com o sorriso, com a língua, com o silêncio. Aí chegou a Júlia. Menina de olhar fechado, pele morena, cabelo liso que parecia ter sido passado com ferro — parecia limpa da rua, entende? Não dava pra saber só na cara. Mas dava pra sentir na postura: ela não vem da boate, vem do morro. E quem vem do morro carrega freio e medo embalado na mala. Meu trabalho era abrir isso com jeitinho de costureira, puxar o fio onde precisa e não deixar rasgar o resto. Fui pegando ela devagar. Primeiro a maquiagem: “Não é pra te transformar, Ju. É pra te proteger.” Mostrei como corrigir olheiras — porque ninguém quer ver que passageira do sofrimento — como contornar o rosto, realçar o que pega o cliente no primeiro segundo: a boca, a clavícula, o brilho no osso do rosto. Ela tava tensa, as mãos tremendo quando eu pegava o pincel. Era quase maternal, só que a gente aqui não tem essa palavra bonita por muito tempo; tem utilidade. — Não mexe com o rosto — eu falei, calma. — Você nem tem que pensar. Fecha os olhos. Deixa eu fazer. Ela fechou e eu trabalhei. Pó aqui, iluminador ali, batom num tom que deixa o lábio com desejo mas sem exagero. Mostrei como colocar a roupa: “O vestido tem que abraçar teu formato mas sem mostrar que você tá desesperada. Desespero vende, mas te quebra por dentro.” Ensinei a andar no salto sem parecer que tá quebrando o pé. Ensinei a sentar — essa cena de sentar é tudo, mina. O cliente observa a maneira que tu senta, que tu cruza a perna, que tu inclina a cabeça. Isso fala por você. A parte mais difícil foi o espelho. Eu coloquei ela na frente do espelho grande do camarim e mandei repetir. “Olha pra você, Ju. Agora sorri, mas sem deixar o sorriso chegar no olho. Faz um sorriso que dice ‘sou entrega’ mas que não entregue tua história.” Ela tremia quando tentava. As primeiras tentativas saíam meio angustiadas, meio envergonhadas. Eu tive que segurar o riso e segurar a mão, porque quando a menina é nova a gente tem que segurar mesmo: um empurrão fino não quebra a cabecinha. — Faz de novo — eu disse, sem dó. — Faz como se tivesse só brincando. Sorriso de menina, boca de mulher. Ela tentou. O primeiro foi nada. O segundo já foi melhor. Eu a corrigi até que o que saia era a máscara perfeita: olhos que perguntam por mais, boca que promete pouco, corpo que diz “vem”. A gente aprende a transformar medo em promessa. É sujo? É. É necessário? Também é. Então veio a parte prática. “Beijo técnico.” Eu falei e ela me olhou como se eu tivesse falado grego. “Como assim beijo técnico?” Aí eu expliquei: a gente treina contato, calor, controle do desejo — o beijo é uma ferramenta de venda, uma prova que o cliente quer. Ele testa. Se tu souber dar um beijo que marca e não te consome, tu ganha mais. Você não confunde entrega com sentimento. Isso a gente corrige aqui. Pedi a ela pra se aproximar. Fiquei cara a cara com a menina que eu já considerava meio irmã e meio produto. O camarim tava abafado, cheiro de pó compacto, perfume barato, suor do trabalho. Eu toquei o queixo dela, peguei a testa com o polegar como se fosse marcar território materno, e disse: — Fecha os olhos. Confia. Ela fechou, e eu beijei. Foi um beijo curto, ensaiado. Eu fiz devagar, o tipo que põe calor sem despedaçar. Foi beijo de treino: língua medida, pressão exata, dominando o tempo, sem permitir que o peito dela disparasse por dentro. A gente chamou de “simulação” mas não existe beijo que não toque. O corpo lembra. Ela recuou um pouco, surpresa com o tremor que sentiu. — Sente aí — eu falei baixinho. — Sentiu? É o corpo avisando. O poder tá aí. Tu vai usar isso, Ju. Não pra se perder, mas pra comprar o remédio, pra garantir a luz da casa, pra manter tua mãe viva. Entendeu? Ela assentiu, os olhos molhados, e eu vi o medo e a raiva misturados. A sensação dela ao descobrir que um beijo podia incendiar o peito quase me deu dó. Dó eu tenho, mas emoção tem que ser medida. No meu mundo, se tu se deixa afundar nas sensações, alguém sempre vai usar tua mão como escada. Depois, sentei e contei umas histórias que a gente não conta pra menina nova de primeira porque quando a gente solta a dureza cedo demais a quebradeira é maior. Falei do que me trouxe aqui: a mãe, a família, o namorado que entrou pra cadeia, o golpe do traficante que prometeu praia e levou a casa. Falei de noite que a menina chegou com bebê no colo pedindo só uma noite e nunca mais voltou a ver o filho. Histórias duras, tudo pra formar a carapaça. — Aqui, Ju — eu disse, olhando no olho dela — você aprende duas coisas: a primeira é a arte de vender teu tempo; a segunda é a de não se entregar. As duas juntas te salvam a b***a. Ela olhou pra mim e parecia querer me agradecer e me xingar ao mesmo tempo. A gente tem esse tipo de relação: afeto bruto. E foi ali que ela percebeu, com olhos gastos, que as outras mulheres ali eram todas versões dela: mãe que paga dívida, irmã pagando tiro no mercado, esposa que finge que tá tudo certo. Ninguém nasce inteira; a comunidade cria marca em todo mundo. No meio do treinamento, alguém chamou que tinha cliente ligado ao morro querendo ver a “nova”. Eu peguei leve no coração, hesitei por um segundo — cliente ligado ao morro é cliente que tem peso, pode carregar presente e problemas. Os caras do alto sempre têm olho grande e poder. Falei pro pessoal se organizar: escolhi um homem que ia com calma, disse pro segurança ficar por perto, e vesti a menina com o vestido que eu sabia que dava certo: justo no corpo, sem vulgaridade, com aquele corte que abraça a cintura e valoriza o quadril. Ela passou pela porta como quem atravessa um rito. Eu não deixei o medo dominar. Mandei que ela respirasse profundo, ajeitasse a postura, lembrasse do beijo técnico. E eu fiquei ali, no canto, observando o trabalho que a vida me deu: ensinar, proteger, vender e, quando preciso, mostrar o caminho da saída. Durante a noite, vi o Luís por ali — passou na boate por outro motivo qualquer, olhando os pontos, um homem que vigia o morro como se fosse corpo dele. Ele cruzou um olhar com a menina no palco, rápido, indiferente. Não dava pra ler nada além de curiosidade administrativa. Deixa ele. Não é disso que a gente precisa. O que importa era preparar a garota pra vida dura que vem depois do primeiro cliente. Quando ela voltou ao camarim, os olhos dela brilhavam com um misto de vergonha e surpresa. Ela me abraçou sem dizer nada. Eu deixei. Às vezes um abraço resolve mais que mil conselhos. E por baixo do abraço, eu senti que a menina tinha descoberto algo grande: o poder que o corpo dá é real, e ele pode te levantar — ou te afundar. Cabe a ela, agora, decidir o que vai fazer com isso. Eu só sei que aqui ninguém devolve inocência. A gente só troca por outra coisa: remédio, grana, sobrevivência.
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