Capítulo 4 — Narrador: Luís
Luís
Eu vejo o morro de cima. É uma visão que não é só paisagem, é operação logística: tem pontos de venda, rotas, câmeras humanas que eu chamo de olho, postos de segurança, e uma linha tênue que separa lucro de estopim. Minha casa fica no alto por causa disso — vista, controle, vantagem. Não é fetiche. É necessidade. Quem me critica por morar na cobertura nunca teve que escolher entre pagar um acordo e enterrar um irmão.
A boca de fumo aqui não é bagunça. Quem pensa que é barraco com fumaça e gritaria não sabe o que tá falando. Tem sala de reunião com cadeiras de couro, tem a mesa de contagem que parece altar — você coloca nota ali e a máquina cata tudo no automático enquanto os caras do fluxo observam. Tem sala do chefe, com prateleira de arquivo, telefone que não toca por telefone. Ligação aí é mensageiro, é segurança física. Organizei tudo assim desde que herdei essa merda: precisava profissionalizar pra não perder território. O negócio paralelo não pode ser amador; se for, vira festa de inimigo.
Quando meu pai morreu foi no meio de um fogo cruzado que não perdoa. Ele levou bala e nós levamos herança — e não foi só o nome. Herdei dívida, inimigo, e uma lista de promessas feitas por ele que eu tinha que honrar se quisesse evitar mais corpos na comunidade. Ao mesmo tempo, aprendi que autoridade é negócio: é ganhar o respeito sem vitupério, é pagar quem precisa de salário, é regrar as coisas pra que quem tá comigo não se desfaça por burrice.
Minha rotina é meio que informativa. Eu vou pra boca, reviso o caixa, vejo os relatórios. Gasto tempo com homem de confiança, com o cara que cuida da contabilidade, com o chefe de segurança que planta olho. No meu escritório a gente fala menos e decide mais; se eu ouvir muito papo eu mando prender, se eu ouvir muito silêncio eu mando investigar. Disciplina. Disciplina é o que salva.
Naquela tarde eu tinha reunião. Coisa de logística: rota de entrega, corte de gasto, trocar fornecedor por preço melhor. Não sou homem de demonstrar afeto em serviço; afeto aqui é sinônimo de risco. Mesmo assim a cabeça sempre lembra do pai nessa hora: a voz dele num velho gravador, as ordens, os acordos que deixaram ferida. Você se acostuma com a solidão de quem manda. É natural.
Passei pela boate por conta de um assunto com o Otávio — ele tava com um papel que precisava de minha assinatura; relação de fornecedor, acordo de segurança com um cara que vinha de fora. Entrei rápido, dei dois passos na porta, olhei o salão como quem faz diagnóstico: mesas cheias, música no volume que cobre pensamento, luz de led batendo no espelho. A boate é ponto estratégico. Cliente que aparece ali, faz movimentação de dinheiro e também de reputação. Tenho que saber o que rola.
No meio da luz e do barulho eu vi a nova menina. Não olhei como homem apaixonado — não tenho tempo pra isso — olhei como gestor de risco. Ela tava lá, a tal “nova”, ajeitando o vestido, tremendo um pouco. Bonita? Sim. Chamativa? Não exatamente. O que me chamou a atenção foi o conjunto: postura de morro, aparência limpa, corpo que feminiliza sem necessidade de ostentação. Isso facilita a venda pro tipo de cliente que busca o “novo”: curiosidade, mistério, virgindade — palavra que corre nos bastidores como rumor. Eu não caio em romantismo, caio em possibilidade.
Conversei com Otávio por dois minutos. Ele falou o que eu precisava ouvir — tabela de preços, reservas, quem pagou e quem faltou. Também ouvi que a garota tinha vindo do lado de baixo, que tinha mãe doente, que o discurso dela era de cuidado. Otávio é capaz de coisa boa quando dá lucro. Ele sempre arruma um motivo que não fere o caixa.
Não fiz drama. Observei. Vi que a Karina tava cuidando dele — aquela menina tem mão pra isso, forjou a autoestima que as mais novas não têm. Um chefe observa e não age por instinto de protecão sentimental; age quando há necessidade institucional. Eu não confio em impulso. Já bastaram perdas por impulsos de família alheia.
Mesmo assim pedi pra um dos meus emissários se aproximar da casa. Não por desejo romântico — repito — mas por protocolo. Quando tem novidade na base, eu preciso conhecer. Não deixo rumor comandar minha agenda. Então falei pro cara: traz a nova aqui pra mim, que vou “conhecer a casa”. A pausa foi curta, porque conhecer a casa é parte do trabalho de quem comanda.
O emissário veio com a desculpa fina de elogio ao serviço, de ver como as coisas andavam. Trouxe a menina até a casa com a mesma naturalidade que se traz mercadoria de alto valor: com cuidado, com etiqueta e sem alarde. Não gosto de alarde. Coisa que chama atenção demais cria alvo. Meu interesse era institucional: ver se a presença dela poderia influenciar a rede de clientes, se haveria risco de fofoca estratégica, se algums caras de fora iam usar a presença dela pra corte de atenção.
Olhei ela nos olhos quando entrou. Não li poesia, li potencial. Ela me olhou meio perdida, meio com aquele respeito que as novatas têm. Não falei sobre nada sentimental. Fiz perguntas objetivas. Perguntei de onde era, qual o movimento que tinha, se tinha problema de saúde. Respostas curtinhas — padrão favela: quem responde demais se compromete. Não era que eu fosse c***l; era proteção. Proteger território significa mapear fraqueza.
Depois de cinco minutos, mandei que se viesse alguém com interesse especial naquele perfil, que eu fosse avisado. Protocolo simples. Não é papo de homem que se apaixona, é controle. Controle evita desastre. Controle faz com que família continue com cabeça no lugar e não vire carne num corredor qualquer.
Voltei pros assuntos da casa. O morro não espera que eu perca tempo com curiosidade. Tem cobrança que precisa de prioridade: divisão de rotas, pagamento de taxa de segurança, providência com o pessoal do quartel quando o cenário esquentar. Olhei a ficha da menina jogada num tablet que o emissário deixou — nome, idade, observações. Fiz a dedução: nova, com valor de curiosidade comercial, com risco social reduzido se bem administrada. Arquivei em mente. Nada de devoção.
Aquele dia encerrou-se sem mais poesia. Eu fiz o que precisava: mandei recado pro meu pessoal, alinhei providências, perguntei sobre abastecimento de munição simbólico e econômico, e subi a rampa pra minha casa no alto. De cima, olho o mundo com pensamento industrial. Garanto que a máquina não emperre. Essa é minha função. E se a nova for bom produto pra minha rede ou ponto de dor pro inimigo, eu saberei usar — mas sempre por cálculo.
No meu quarto, ainda herdando o cheiro do cigarro e do couro da sala de reunião, repetia para mim mesmo que não se permite distração por nome bonito. Porque aqui os nomes são luxo. Eu não uso luxo. Eu uso função. Amanhã, se necessário, a “nova” receberá minha visita institucional. Hoje, ela era só mais uma ficha no tabuleiro.