5

1291 Words
Capítulo 5 — Narrador: Júlia Eu Subir até o alto do morro sempre foi uma dessas imagens que eu tinha na cabeça só como fantasia: as casas lá em cima, o brilho do carro passando, a sensação de que lá em cima o mundo era outro. Nunca pensei que um dia eu estaria ali dentro, com o vestido que a Karina escolheu e o peito batendo feito tambor. O emissário veio buscar a gente numa moto preta, ele vinha com cara de quem já viu muito. No caminho, meu corpo inteira tremia, não só do frio da noite — tremia da expectativa, vergonha e uma ponta de orgulho torto, porque eu ia pela primeira vez pro lugar onde o dinheiro mais bruto do morro circula. A mansão chega como um tapa de luxo. Portão alto, muro com pintura que não descasca, luz indireta, um jardim que parece cenário de filme. Eu engoli em seco quando passei pela entrada: carpete limpo, móveis que não combinavam com a minha vida, um quadro grande que devia custar mais que o meu aluguel de um ano. Eu tentei não olhar demais, pra não me perder em comparação. Dona Marta, se visse, reclamaria do desperdício e me diria pra lembrar da raiz — e eu tentei. Fui conduzida por um corredor amplo, o chão parecia de madeira cara, o corredor tinha aquele cheiro de limpeza forte misturado com perfume masculino. Quando entramos na sala eu me senti pequena, pequenininha — e isso é estranho quando você guarda peso pra todo mundo. Ele estava ali, sentado numa poltrona com as pernas cruzadas. A imagem do homem do morro que eu tinha visto de longe: forte, roupa cara sem alarde, olhos que pareciam tatuagem — marcavam, e você não sabia quando ia doer. — Júlia, certo? — disse ele, e a voz veio calma, sem pressa. Eu balancei a cabeça. A garganta seca me traiu e sai um “sim” que soou fino demais. As palavras dele vinham medidas, como se quisesse economizar qualquer possibilidade de erro. Ele fazia perguntas curtas, objetivas: de onde sou, quem mora com eu, se eu tinha problema de saúde, se tinha alguém que me cobrava dívida. Eu respondi do jeito que sempre respondo — curto, honesto na medida do possível. Sentia o olho dele me atravessando, catalogando. Não era olhar de homem fofo; era olhar de quem rege um território. E eu queria mostrar que sou forte, mas por dentro havia uma criança que só quer que tudo dê certo. Ele falou pouco da família. Falou mais do morro: dos limites, dos acordos, de quem fazia o quê e de por que era melhor não fazer inimigos desnecessários. Eu escutava e lembrava do pai na fotografia: não por saudade romântica, mas por entender que lá onde eu venho, decisão tem consequência. Ele citou o nome do meu pai de forma quase mecânica, fez menção ao passado que a gente não toca. Me deu uma espécie de estranha segurança — saber que meu nome não era só mais um número. Mas não era carinho, e eu sabia disso. O lugar onde ele se sentou tinha um quadro atrás dele que parecia cobrar respeito. Ele não sorria muito. Quando eu pensei que seria só conversa e protocolo, ele veio mais perto. Foi súbito, e eu senti meu peito subir correndo: um beijo. Não foi um beijo longo de novela nem se pareceu com aqueles que passam na TV; foi um impulso. Os lábios dele encostaram nos meus com força controlada, e eu senti como se alguém tivesse apertado meu corpo com um laço de certeza. Eu congelei no instante, um choque que abria e fechava portas. Não sei explicar o porquê daquele beijo. Tão inesperado que pensei que fosse cena de sonho. Meus pés quase falharam. Por dentro, um rastro de coisas se acendeu: medo, desejo, confusão, vergonha, algo que não tinha nome. Eu pensei em recuar, mas meu corpo respondeu com atenção ao toque: era a primeira vez que alguém assim me tocava com aquilo de dono e de calor junto. Ele me soltou quase imediatamente, como quem interrompeu uma decisão que também não queria prolongar. — Desculpe — ele falou, como se tivesse pedido licença de si mesmo. — Não era… — e ficou quieto, ajeitando a postura. A boca dele formou uma linha e eu passei a entender que não era carinho de homem — era algo misto de teste e imposição de presença. Era a mesma presença que eu via no morro quando ele aparecia: se mostra, e o mundo tem que se dobrar num pedaço. E ali, naquele momento, algo em mim percebeu que o mesmo homem que manda canos e acordos podia derrubar minha noite inteira com um toque. Eu saí de lá com a cabeça fervendo. No caminho de volta, a moto cortando a noite, as luzes da comunidade pareciam menores, como se alguém tivesse diminuído a escala da minha vida. Entrei na boate depois, no mesmo lugar onde tentei parecer natural antes. Mas as vozes pareciam longe e meu corpo parecia carregar outro peso. As meninas me olhavam diferente; a Karina me abraçou forte e falou baixinho: — Como foi? Tá bem? Eu disse que sim, mentira automática. E senti que dentro de mim tinha algo que não cabia mais como antes. O beijo do Luís tinha marcado caminho. Não era só um beijo. Era um ponto de não retorno, como se agora alguma coisa em mim tivesse sido vista de uma forma que eu não poderia apagar. Depois daquela noite, eu tentei não pensar demais. Mas pensamento é traçado que insiste. Cada vez que eu pegava o pote de sorvete com as moedas, cada vez que passava por onde as crianças brincavam, eu lembrava daquele toque. E aquilo me aproximava e me afastava ao mesmo tempo do meu próprio corpo. Eu passei a andar com medo de me reconhecer no espelho e encontrar ali alguém que já não sou mais. Ele, pelo que me disseram os corredores frios dali, não pensou nada além da função do dia. Homem que manda tem mil coisas na cabeça e uma delas não é devorar uma menina do morro. Ou pelo menos era o que eu me repetia. A lembrança dele, entretanto, ficou. E enquanto eu voltava à rotina da boate, aprontando o cabelo, retocando a maquiagem que escondia a noite, eu sabia que a vida tinha virado uma espécie de tabuleiro: uma jogada feita e a posição de cada peça mudada. Eu não sabia se ganhava com isso, se perdia. Só sabia que dali pra frente nada seria tão simples. A noite continuou. Clientes vieram e foram. Eu sorri, falei, vendi companhia por minutos e retornei ao camarim contra a vontade de me deitar no chão e chorar. Eu costurei minha vergonha com trabalho. E quando a madrugada começou a ficar rala, voltei pra casa com o rosto meio inchado de segredo e o coração encolhido. Dona Marta me esperava com luz baixa e a receita da medicação em cima da mesa. Eu deixei a bolsa no chão, tirei o vestido com as mãos trêmulas e, por um segundo, olhei no espelho do corredor. Vi a menina que sempre foram e vi a mulher que comecei a me tornar. As duas brigavam por um espaço. Logo que me deitei, antes de fechar os olhos, pensei numa frase que não me largou: “um beijo muda tudo”. E naquela noite eu entendi que mudar tudo podia ser tanto promissor quanto perigoso. Não sabia ainda o que viria — se cuidado ou cadeia de dor. Só sabia que o mundo tinha se inclinado de um jeito diferente, e que eu teria de aprender a respirar com isso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD