Capítulo 15 — Narrador: Júlia O envelope apareceu numa manhã cinzenta, largado na soleira da porta como se quisesse ser discreto e urgente ao mesmo tempo. Primeiro eu pensei que fosse conta, propaganda — a vida manda isso todo dia — mas a fita que o prendia tinha um nó cuidadoso, e o papel parecia pesado, cheio de coisa. Abri com a unha, por costume de quem vive de surpresa. Vi notas. Muitas notas. Um nó grande desatado no meu peito, um calor que não era alívio, era confusão. Segurei o dinheiro e respirei. Dinheiro limpa problemas, cria outros, compra favores, arma perguntas. Fui até a cozinha e sentei com o envelope aberto no colo, como quem segura responsabilidade na mão. Queria chorar e rir ao mesmo tempo. A primeira lembrança foi da lista de remédios na bolsa da Dona Marta, daquela r

