Capítulo 21 — Narrador: Júlia O som dos tiros grudou no meu peito como se a favela inteira tivesse respirado fogo. Saí da cozinha com o queixo duro, os olhos cheios de algo que eu não sabia nomear. Gritei o nome da minha mãe, corri pela escada, bati a porta do quarto, e a encontrei deitada com a mão na testa, o rosto pálido e o olhar perdido. O barulho lá fora invadia tudo: vidraça estilhaçada, grito, motor, gente correndo. — Mãezinha — eu falei, voz quebrada. — Fica aqui. Fica. Peguei o casaco dela, empurrei a porta do quarto e tirei ela da cama com cuidado. O corredor da casa tinha gente correndo, vizinhos abrindo portas, alguém com celular já ligando. Segurei a mão da Dona Marta e senti o corpo todo tremer — não só dela, meu também. O instinto de filha é urgente: proteger, mover, esc

