Capítulo 43 — Narrador: Júlia O carro que nos levou pela estrada secundária parecia engolir o escuro. A cidade vizinha vinha com luzes que não conhecia bem — prédios baixos, placas diferentes, aquele cheiro de comércio que não olhava pra favela. O aliado que trouxe o mapa ao meu lado respirava curto, igual a mim; ninguém fala muito quando a missão é entrar na casa do inimigo. A vantagem era conhecida: a gente tem o olhar do morro, conhece a cidade por atalhos, mas ali precisávamos ser estranhos com razão. Desci com cuidado, boné baixo, jaqueta que escondia forma. O grupo pequeno se dispersou em dupla: quem vigiava a rua, quem fazia o papel de cliente, quem iria direto para o depósito onde o entregador havia dito ter visto equipamentos. A sensação de entrar num lugar que não pertenceu sem

