Gente Poderosa

1393 Words
O silêncio depois da guerra sempre parecia mais pesado do que os próprios tiros. O morro ainda respirava descompassado, como se estivesse tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Gente andando rápido demais, vozes mais baixas do que o normal, olhares desconfiados sendo trocados a cada esquina. Alguns corpos já tinham sido recolhidos, outros ainda estavam ali, cobertos de qualquer jeito, como lembretes vivos de que a ordem tinha sido quebrada. Mas o caos… tinha sido contido. E isso, naquele lugar, já era uma vitória. Henrik caminhava ao lado de Nando Golias sem pressa, subindo por um acesso mais isolado do morro. Não era o caminho comum, nem visível pra qualquer um. Dois homens armados ficaram pra trás quando Nando fez um gesto discreto com a mão. A partir dali, ninguém mais acompanhava. Aquilo já dizia muito. Confiança? Não. Mas algo próximo o suficiente pra permitir conversa. O topo do morro era diferente do resto. Mais silencioso. Mais controlado. Menos improvisado. A estrutura ali em cima parecia planejada, quase estratégica, com visão privilegiada de tudo ao redor. Quem dominava aquele ponto… dominava o território inteiro. Nando abriu uma porta de metal escondida atrás de uma parede simples. Quem passasse ali nunca imaginaria o que tinha por dentro. Henrik entrou primeiro, já analisando. A sala era limpa, organizada, com mapas espalhados sobre uma mesa grande, rádios, anotações, registros. Não era luxo… mas era comando. Era ali que as decisões eram tomadas. A porta fechou atrás deles com um som seco. Agora sim. Sozinhos. Nando caminhou até a mesa, apoiando as mãos sobre ela por um segundo, como se estivesse juntando as peças na cabeça. Depois virou o rosto na direção de Henrik. O olhar ainda era desconfiado. Mas diferente de antes. Mais atento. Mais sério. — Eu sei quem você é. Henrik não respondeu. Só ficou parado, observando. Nando continuou: — Não só esse teatrinho de “Diplomata”. Isso aí é fachada bonita pra gringo ver. Ele deu um meio sorriso de lado. — Mas eu sei das outras coisas. Silêncio curto. Pesado. — Arma. Droga. Transporte. Negociação fora do país… — Nando listou com calma — Você não veio até aqui só porque alguém pediu ajuda. Henrik inclinou levemente a cabeça, como se aceitasse o raciocínio. — Não. Direto. Sem rodeio. Isso pareceu agradar Nando mais do que qualquer justificativa longa. Homem daquele tipo não tinha paciência pra discurso. Ele endireitou a postura. — Então fala. A ordem veio seca. — Por que te mandaram até o meu morro? Agora sim. A pergunta que realmente importava. Henrik deu alguns passos pela sala, olhando os mapas sobre a mesa, passando os olhos por rotas, marcações, pontos de distribuição. Não tocou em nada. Mas viu tudo. Quando falou, foi sem olhar diretamente pra Nando. — Porque o dinheiro começou a desaparecer. Silêncio. Nando não reagiu na hora. Mas o maxilar travou. Henrik continuou, agora erguendo o olhar. — E quando dinheiro some… não é erro. Uma pausa curta. — É gente. A tensão aumentou. Nando respirou fundo pelo nariz. — Eu já tô lidando com isso. Henrik negou de leve. — Não. Você está tentando. Aquilo foi um golpe direto. Mas necessário. Os dois sabiam. Nando deu um passo à frente. — Cuidado com a forma que você fala comigo. A ameaça veio baixa. Controlada. Henrik não se moveu. Nem um centímetro. — Se você estivesse lidando… — ele disse, calmo — eu não estaria aqui. Silêncio. Longo dessa vez. Pesado o suficiente pra cortar. Mas Nando não avançou. Porque no fundo… ele sabia que era verdade. O ataque de hoje tinha deixado isso escancarado. A casa dele estava vulnerável. E alguém de dentro estava vendendo informação. Ele passou a mão pelo rosto, irritado. Pensando. Pesando. Então soltou: — Quem foi que te mandou? Henrik sustentou o olhar. Agora sim, direto. — Você já conhece. Nando estreitou os olhos. Não respondeu. Mas esperou. E Henrik finalizou: — Ou acha que essa parceria que mantém esse morro de pé… funciona sozinha? Aquilo caiu como pedra. Pesado. Inegável. Nando soltou um riso curto, sem humor. — Então é isso… Ele se afastou um pouco, andando pela sala. — Eles ficaram nervosos. Henrik não respondeu. Mas o silêncio confirmou. Nando voltou o olhar pra ele. Agora diferente. Menos resistência. Mais cálculo. — Esse morro aqui… — ele falou devagar — é o maior ponto de distribuição deles no Brasil. Henrik assentiu levemente. — Eu sei. — Tudo que entra no país, passa por aqui ou gira em volta daqui. — Eu sei. Nando respirou fundo. Agora não dava mais pra negar nada. — E agora tem dinheiro sumindo… carga desviando… gente abrindo a boca… Ele balançou a cabeça, irritado. — Por isso te mandaram. Não foi pergunta. Foi conclusão. Henrik finalmente se aproximou da mesa, apoiando uma das mãos sobre ela. — Eu não fui enviado pra ajudar. O olhar dele ficou mais frio. Mais direto. — Eu fui enviado pra resolver. A diferença era clara. E pesada. Nando encarou ele por alguns segundos. Longos. Tentando medir até onde aquilo ia. — E o que exatamente significa “resolver”? Henrik respondeu sem hesitar. — Descobrir quem está roubando. Uma pausa. — E eliminar. Simples. Cru. Sem suavizar. Nando soltou o ar devagar. Aquilo não era novidade pra ele. Mas ouvir daquele jeito… mudava o peso. — E se for alguém importante? Henrik nem piscou. — Não importa. Silêncio. — E se for alguém… próximo? Agora o clima mudou. Sutil. Mas mudou. Henrik segurou o olhar dele por um segundo a mais. — Então você decide se quer continuar no controle… ou se prefere perder tudo. A indireta estava ali. Clara. Pesada. E perigosa. Porque naquele mundo… “próximo” podia significar muita coisa. Inclusive sangue. Nando travou o maxilar. Pensando. Pesando. Calculando o que estava em jogo. E então perguntou: — E você? Henrik arqueou levemente a sobrancelha. — Eu? — Você responde pra quem? Silêncio curto. Mas dessa vez… Henrik não desviou. — Pra quem mantém tudo isso funcionando. Uma resposta vaga. Mas carregada. E suficiente. Porque Nando entendeu. Não precisava de nomes. Sabia exatamente de quem ele estava falando. Os verdadeiros donos do jogo. Os que não apareciam. Mas mandavam em tudo. Ele soltou um riso baixo. — Então você também tem coleira. Henrik deu um meio sorriso. Quase imperceptível. — Eu escolho quando puxam. Aquilo foi diferente. E Nando percebeu. Ali na frente dele não estava só um intermediário. Estava um homem perigoso o suficiente pra negociar com quem mandava… e ainda assim manter poder próprio. Isso mudava tudo. O silêncio voltou. Mas agora era outro tipo. Mais alinhado. Mais estratégico. Nando se aproximou da mesa de novo. — Então vamos fazer o seguinte… Ele apoiou as mãos, encarando Henrik de frente. — Você resolve essa bagunça. — Eu quero nomes. — Quero saber quem tá roubando, quem tá vendendo informação… A voz ficou mais dura. — E quem trouxe aqueles filhos da put4 aqui hoje. Henrik assentiu. — Vai saber. Nando continuou: — Mas enquanto você estiver mexendo nisso… Ele estreitou os olhos. — Você não manda aqui. Limite. Claro. Necessário. Henrik não se ofendeu. Nem reagiu. Só respondeu: — Eu não preciso mandar. Uma pausa. — Eu só preciso que não me atrapalhem. Silêncio. Os dois se encararam. E ali… um acordo foi fechado. Sem aperto de mão. Sem formalidade. Mas sólido o suficiente. Porque os dois sabiam o que estava em jogo. Dinheiro. Poder. Controle. E agora… traição interna. Henrik se afastou da mesa. Já pronto pra sair. Mas antes de abrir a porta, ele parou por um segundo. Sem virar completamente. — A propósito. Nando não respondeu. Mas ouviu. — Sua filha… O clima mudou de leve. Henrik continuou: — Anda no meio do fogo cruzado. Uma pausa. — Isso vai dar problema. Silêncio. Pesado. Diferente de todos os outros. Nando não respondeu na hora. Mas o olhar endureceu. — Cuida da sua parte, Diplomata. Não mexe com a minha filha. Frio. Direto. Proteção clara ali. Henrik assentiu de leve. Como se já esperasse aquilo. Então abriu a porta. E saiu. Mas agora… não era mais só uma operação. Tinha algo a mais no jogo. Algo que não deveria existir. E que, se saísse do controle… poderia ser mais perigoso do que qualquer guerra naquele morro.
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