JULIANA - II

1845 Words
Fiquei na dúvida se atendia ou não, mas decidi dar um voto de confiança. Vai que era alguma coisa importante. ― Oi, Ricardo! ― Oi, Ju! Tudo bem? ― Tudo. O que houve para você me ligar essa hora? ― ele riu. ― Aconteceu um acidente…― meu Deus, que bom que atendi! ― Nossa, Ricardo! O que houve? O que eu posso fazer? Você está machucado? ― Está tudo bem, linda! Não estou machucado. Eu estava em uma reunião aqui perto da sua casa e terminei me sujando todo de vinho. ― que alívio! ― A questão é que tenho que voltar para o escritório do cliente em uma hora e eu estou em um estado caótico. Vim apelar para sua compaixão. Você está em casa? ― Não, estou voltando do almoço, por isso consegui atender o telefone. ― e agora? Penso em uma solução ― Faz o seguinte. O Márcio fica com uma chave extra do meu apartamento. Eu vou ligar para ele avisando que você vai lá em casa. ― Eu sabia que você era o meu anjo da guarda. ― Não abusa, Ricardo! ― ele riu. ― Prometo não roubar nenhuma calcinha sua. ― que cara de p*u! ― Você tem certeza que ainda precisa ir na minha casa? ― Você quer que eu roube? ― Vai à m***a, Ricardo! ― Ô mulher nervosa! ― ele continua rindo. ― Obrigada pela força, Ju! Que horas você sai do trabalho? Vou passar na sua casa, vamos tomar alguma coisa? ― de novo isso? ― Ricardo, a gente já falou sobre isso, né? Eu preciso ir. Se você mexer nas minhas coisas, vai virar um homem morto! ― ameaço ― Vou precisar desligar o telefone agora. Assim que eu tiver liberada, vou para aí. Qualquer problema, liga para Liana. Vejo o Lucas chegando no prédio e desligo o telefone sem me despedir. ― Oi, Ju! Que coincidência te encontrar por aqui. ― eu rio da inocência dele ― Eu trabalho aqui. ― nos abraçamos rapidamente. ― Eu sei. Eu também! ― ele sorri e faz um gesto com a mão me direcionando para o elevador. ― Achei que você estagiasse com o Luciano, mas eu sabia que tinha entendido alguma coisa errada, já que ele não se envolve com as funcionárias. ― Eu estagiava, mas saí de lá depois que ficamos juntos. ― ele faz cara de quem estava indignado e eu presumo que ele tenha entendido tudo errado. ― Ele não teve nada a ver com isso. Eu que pedi demissão. ― as feições dele se amenizam e ele esboça um sorriso. Lembro de Ricardo. ― Deixa só eu resolver um probleminha. Pego o celular na bolsa, e ligo para a portaria do meu prédio. Graças a Deus tinha sinal no elevador. ― Márcio! ― digo assim que ele atende. ― Dona Juliana? ― Isso, Márcio. Preciso que você faça um favor. ― Sim, dona Juliana. ― Meu primo teve um incidente e vai precisar usar o meu apartamento. Entrega as chaves a ele, por favor. O nome dele é Ricardo Monteiro. Quando ele sair, você pega as chaves. Meu primo é muito esquecido e vai terminar levando sem querer. ― sei lá… é melhor prevenir que remediar. ― Deixa comigo, dona Juliana! ― Muito obrigada, Márcio! ― digo e desligo o telefone após ele responder “de nada”. Olho para o Lucas e sorrio sem graça. ― Família… sabe como é, né? ― ele devolve um sorriso acolhedor. Eu que não ia entrar em detalhes... ― Está atuando aonde agora, Dra.? ― Na Prado e Sorrentino. ― Ele me olha espantado. ― Desde que horas? Ninguém me avisou que você tinha vindo. ― eu ri. ― Cheguei cedo. ― Quem te deu o cartão foi Melissa, não foi? Luciano não daria… ― ele sussurra a parte final sorrindo e eu não tenho ideia do que ele está falando. ― Que cartão? ― O cartão que deixei com Melissa ― franzo cenho e ele nota que eu sigo sem entender ― Você falou com quem? Eu pedi para me avisarem se você viesse. Vem comigo. ― ele dispara sem esperar pela resposta. ― Lucas, eu entrei pelos meus próprios méritos. ― mas ele já tinha se afastado o suficiente para não ouvir o que eu dizia e entrou em uma sala. ― Eu sabia que por trás desse coração duro havia uma mãe generosa. ― ele disse assim que entrou na sala da Dra. Vânia. ― Do que você está falando, filho? Ela me olhou através da parede de vidro e eu resolvi me recolher à minha insignificância e sair dali. ― Juliana, vem cá. ― ele me chamou assim que percebeu que eu estava indo embora, forçando-me a apresentar um sorriso mega sem graça, diga-se de passagem. ― Lembra que eu falei que tinha uma amiga que eu havia convidado para estagiar conosco? ― ele aponta com a mão para mim. ― Obrigado, mãe! ― ele a abraça. ― Eu não abri a terceira vaga, Lucas. ― Não? ― ele me olha sem graça. ― Qual dos dois? ― Qual dos dois o que, filho? ― Se só havia duas vagas para indicações, quem você tirou: a Catarina ou João Vitor? ― Eu entrei por mérito próprio, Lucas. ― interrompi, impedindo que ele continuasse sendo injusto com a mãe. Ele estranha minha fala e me olha confuso. ― Ela passou no processo seletivo, filho. Eu a entrevistei semana passada. É uma garota muito inteligente, tem potencial. ― ele estava espantado. ― Luciano sabe? ― eu n**o com a cabeça. ― Mas vou contar hoje ainda, fique tranquilo. ― Lucas se desculpa com a mãe e ela o abraça. ― Se eu não seguir as regras que eu crio, como poderei cobrá-las, filho? ― era o princípio do Estado democrático de direito sendo traduzido para a nossa vida cotidiana. O Estado cria as regras, mas ele também precisa respeitá-las. Ninguém deve estar acima da lei. Virei fã dela na hora! Nos despedimos da Dra. Vânia para voltar aos nossos compromissos. Passei a tarde na sala de reunião. O casal Q.I. estava se sentindo em casa. Não os julguei m*l por ingressarem por meio de uma indicação, mas pela forma que se portavam. Não interagiam com o grupo e transbordavam superioridade. Sentaram perto do local onde estava o café, e se serviam como se estivessem ido ao cinema. Além de soberbos, desrespeitosos. A exceção desses dois, o grupo estava animado. O clima de competição tinha sido desfeito pela Dra. Vânia, quando deixou claro que permanecer no escritório após o estágio não teria relação com o número de vagas, mas com as competências e habilidades apresentadas ao longo do processo. Diferente de tudo que eu já ouvi falar do meio corporativo, ali se estimulava a colaboração mútua. No final do expediente, liguei o celular para falar com o Luciano. Havia muitas mensagens e ligações perdidas. A primeira tinha sido enviada pela manhã. Era um “Vou cobrar”, após eu prometer que compensaria minha ausência do almoço. Depois vinha uma chuva de questionamentos sobre meu pedido de demissão. Ele queria falar comigo pessoalmente. Liguei para ele. Chamou várias vezes, mas ele não atendeu. Tento novamente e nada. Ele devia achar que eu estava fazendo com ele a mesma coisa que fiz com Jonas e Ricardo, quando estávamos indo para Angra. p**a m***a! Eu preciso ir para a faculdade. Ah, m***a! Saio do escritório às pressas. Não vi o Lucas. Peguei o metrô para chegar mais rápido. Estava lotado! Essa vida de proletária me acaba! Assim que cheguei na faculdade, corri para o laboratório de informática para fechar o trabalho de DIP - Direito Internacional Privado. Mas não sem antes tentar falar com o Luciano. Liguei mais uma vez e nada. Decidi mandar uma mensagem. Ele devia estar muito puto com meu pedido de demissão. Você Oi. Como você está? ✓ Você Sinto muito que você tenha descoberto de um jeito r**m. ✓ Você Eu queria te contar durante o almoço, mas nem tudo acontece como a gente gostaria. ✓ Você Não fica triste comigo, não. Vamos conversar pessoalmente. ✓ Você Eu estou na faculdade, quando eu sair daqui te aviso. ✓ Você Bjos ✓ Deixei o celular sobre a mesa e voltei para meu trabalho acadêmico. Eu tinha meia hora para fechá-lo, imprimir e entregar ao professor. A gente aprende na faculdade que se há uma coisa sagrada para um advogado, essa coisa se chama PRAZO. Se você perder um prazo, está morto! Abri o arquivo digital e reorganizei as ideias. Como eu tinha feito a pesquisa em Angra, as informações ainda estavam frescas e os fundamentos para minha linha de argumentação já estavam separados. Havia muito pouco a ser feito, ainda assim, levei vinte minutos revisando. Depois imprimi ali mesmo e fui para sala de aula com o sentimento de dever cumprido. Antes de começar a aula, dei uma última olhada no celular para ver a resposta dele. Ele tinha visualizado, mas não tinha respondido. Assisti a aula com o coração apertado, angustiada pela forma que ele estava lidando com uma bobeira dessa. Ele tinha visualizado a mensagem. Podia ter colocado um simples “OK”, mas não. Optou pelo silêncio. Eu sei que devia ter falado sobre minha saída da Lauder, sobre o estágio. Eu poderia ter olhado o celular no meio da tarde? Poderia. Mas eu não queria resolver uma DR no banheiro, no meu primeiro dia de estágio. Custava esperar até a noite para a gente conversar? Também não quis ligar para Dona Marlene. Essa é uma questão nossa, não vou misturar trabalho com vida pessoal. Mandei mensagem para Renata. Depois de trocar figurinhas e ser informada sobre as fofocas da Lauder, entrei no assunto que me levou a falar com ela naquele horário. Primeiro eu precisava saber como ela ficou apar do meu envolvimento com Luciano. Eu tinha visto o Dr. Villas Boas na festa, mas não o Sr. Enzo. Ele e a esposa estavam na festa e Renata não foi porque é anti-social. Ela detesta festas da alta sociedade. Em que pese não ter visto ele, ele me reconheceu e comentou com ela. Eu não tinha visto ninguém da diretoria na cerimônia. Era muito estranho saber que eu poderia ser reconhecida pelas pessoas. Tentei saber mais, mas ela não tinha outra informação para me dar. Como quem não queria nada, perguntei se ela sabia como ele reagiu ao saber da minha saída. A relação nem começou e eu já iria expor os problemas? Lógico que não! Ela informou que ele mandou chamá-la assim que ficou sabendo da minha saída. Parecia transtornado. Perguntou se ela sabia onde eu estava e ela confirmou que sabia, mas que não tinha autorização para contar. Olha a m***a formada! Disse que ele estava puto e saiu do escritório sem dizer para onde ia. Quando ela perguntou se estava tudo bem, eu disse que sim. Que estava na faculdade e desconversei. Aquela ostra devia estar sob densa camada de gelo…
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