Cheguei no escritório atrasada, com o rosto inchado e sem almoçar. Pelo menos eu tinha perdido a fome. Meti a cara no trabalho, digitando freneticamente. Foi o melhor que pude fazer por mim naquelas circunstâncias. Eu estava tão concentrada que nem percebi que Anna tinha me trazido um café.
― Você bem? ― Balancei a cabeça afirmativamente sem olhar para ela. Meu olhos deviam estar vermelhos ― Não se preocupe, Juliana. Ninguém acreditou. ― Oi? Parei de digitar e olhei para ela, estranhando aquela fala.
― Não entendi, Anna. Obrigada. ― peguei o café e ela deu a volta e se abaixando ao meu lado.
― Dá para ver que você chorou, não devia. Catarina é uma recalcada.
― Do que você está falando? Será que você pode me explicar o que está acontecendo? ― olho o salão e vejo alguns concentrados no trabalho, alguns me olhavam com dó, outros com desconfiança. O que que estava acontecendo? Voltei meu olhar para Anna e levantei o queixo indicando que ela começasse a falar.
― Se você não sabe, tá chorando por que? Está tudo bem?
― Anna, foco! O que Catarina fez?
― Ela disse que você é uma acompanhante de luxo.
― Oi? Que loucura é essa? ― Olhei para Catarina que parecia estar concentrada no computador, mas sentiu que eu a encarava. Olhou para mim e rapidamente voltou para a tela da máquina. ― De onde ela tirou isso? ― eu não ia para guerra sem estar pronta. Eu já estava à flor da pele e precisava me controlar, afinal eu estava no meu local de trabalho.
― Você estava no casamento da Alice Lauder? ― Ah, m***a! Não confirmei, mas ela continuou. ― Então… na hora do almoço, ela contou que quando te viu ontem não recordou de onde te conhecia, mas que hoje lembrou. Falou que vocês foram apresentadas rapidamente e que ficou sabendo que o irmão da Alice Lauder contrata acompanhantes de luxo para levar aos eventos sociais. E se você não era namorada dele, só podia ser uma acompanhante profissional. Ela não usou bem essas palavras, se é que você me entende...
Nem respondi. Levantei e fui até Catarina.
― Você tem alguma coisa para me dizer, Catarina? ― ela não se moveu. Apenas tirou os olhos da tela para olhar para mim.
― Acho que não...Por que eu teria? ― ela se fez de sonsa.
― Que bom! ― aumento a voz um tom. ― É muito chato quando inventam mentiras sobre a gente. Eu tinha certeza que estavam te difamando. Mas não se preocupe, pois fofoca comigo não rende. E se você tiver alguma dúvida a meu respeito, espero que tenha a mesma retidão de caráter para vim me perguntar. ― virei as costas e deixei ela sob olhares julgadores.
Eu podia até estar no casamento e não ser namorada do Luciano. Eu podia ter assinado uma m***a de contrato para acompanhá-lo, mas me chamar de g****************a foi o fim da picada.
Nada contra quem seja, mas eu não vou levar fama sem proveito. Meu dia já estava uma m***a e ainda surgia uma patricinha recalcada para me derrubar. Não senhora! Enfrentei a bicha e ela não sustentou o discurso. Apesar do ódio que eu estava sentindo, consegui me manter sobre o salto. Voltei para minha mesa e Anna já tinha retornado para o lugar dela. Ela não devia estar esperando que eu reagisse daquele jeito.
Não duvidei de Anna, já ela não teria como saber do casamento e do Luciano. Mas no acesso de raiva, terminei envolvendo-a, chamando-a de fofoqueira e mentirosa, mesmo sem mencionar o seu nome. Eu odeio ficar com raiva, porque por mais que eu tente me controlar, sempre machuco alguém com minha fúria. Eu preciso me desculpar com ela. Mas não agora. Não tenho a menor condição de dialogar de forma saudável com ninguém.
Graças a Deus me deram um trabalho braçal. Se eu tivesse que pensar para escrever, eu estaria em maus lençóis agora. Quando eu acabou o expediente, eu estava derrotada. Decidi ir direto para casa. Eu não tinha mais condições de continuar fingindo que estava tudo bem, porque não estava.
― Ju! ― Lucas me chamou.
― Oi. ― respondi e forcei um sorriso.
― Está indo para casa?
― Humrumm.
― Vou pegar Alê para comermos uma pizza. Pensei em chamar o Luciano, para irmos os quatro. Alessandra iria adorar te reencontrar. ― dou um sorriso sem graça.
― Luciano não vai poder ir conosco. Ele tem um compromisso e eu tenho que ir à faculdade.
― Ah, sim. Achei que fosse para casa. ― minhas mentiras são todas pernetas. Sorri sem vontade de explicar nada.
― Vamos deixar para outro dia, tudo bem? ― fiz um esforço para ser simpática, afinal ele não tinha culpa da minha vida está uma m***a. ― Manda um beijo meu para Alê.
Ele anuiu e eu fui para casa chorar minhas pitangas. Eu estava com ódio de tudo. Ódio de mim, por ter sido tão i****a, tão fraca, por não ter dito NÃO àquela m***a de contrato e por me deixar levar pela minha carência e me apegar tão rápido. Muito ódio de ser tão estúpida. Ele fez com Suzan, com Laís, por que não faria com a bonita aqui? Eu vi a forma que ele e o irmão tratam as mulheres, por que seria diferente comigo? “Você é especial, Juliana.” Ele diz isso para todo mundo, sua b****a! Depois nos descarta como um palito de picolé chupado.
Por isso Laís ficava atrás dele. A coitada acreditou nas mentiras que ele conta para levar a gente para cama. Que ódio!!! E agora ainda mais essa, eu estava com fama de g****************a. Que m***a que eu fiz para merecer isso, Deus? O que eu tenho que aprender dessa vez?
Cheguei em casa sem conseguir conter as lágrimas que corriam como rio. Nem respondi ao cumprimento do Márcio. Tamanha era a raiva que eu estava sentindo, que era capaz de sair um rosnado se eu tentasse dar boa noite.
Eu me meti nessa furada, agora cabia a mim sair desse buraco sozinha. Nunca mais me envolvo com um macho alfa. Cambada de corno. Se bem que corno não, porque a traída era eu. São uns desgraçados que usam a beleza e o dinheiro para comerem geral e, de quebra, ainda deixam a gente em pleno estado de m***a.
Passei a noite chorando. Afundada entre a autopiedade, pensamentos vingativos e o exercício de autocontrole, para não pegar no telefone e aumentar o arrependimento, que sempre vem todas as vezes que faço algo sem pensar direito.